ONU e União Africana olham de longe

Nações Unidas, 07/02/2011 – O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), com poder de intervir em situações que ameacem a paz internacional, permanece em silêncio diante da crise no Egito, mesmo quando esta parece ter repercussão também na Jordânia e no Iêmen. Ao mesmo tempo, organizações políticas regionais das quais o Egito é histórico integrante, como a União Africana, o Movimento dos Países Não Alinhados (Noal) e a Organização da Conferência Islâmica, evitam expressar sua opinião sobre a violência cometida na semana passada contra manifestantes pacíficos no Cairo.

“O Egito não está nada interessado em internacionalizar o problema”, disse um diplomata da ONU, ilustrando o ambiente vivido no fórum mundial. “Tentam passar uma imagem de normalidade”, acrescentou, lembrando que o Egito ocupa atualmente a presidência do Noal, de 118 membros, a maior coalizão política dentro das Nações Unidas. Portanto, é improvável, afirmou o diplomata, que qualquer uma dessas organizações faça um julgamento da crise no Egito, pois temem interferir nos assuntos internos de um país membro.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, praticamente repetiu as palavras do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quando pediu uma transição pacífica e ordenada no Egito. “Deixei clara esta manhã minha postura de que a transição deve começar agora”, afirmou Ban, enfatizando a palavra “agora”, com fizera Obama.

Após um telefonema ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, o dia 31 de janeiro, Obama disse reconhecer que a situação no Egito não era sustentável e que deveria haver uma mudança. Afirmou que a transição após quase três décadas de governo repressivo deveria “começar agora”. “Começar agora?”, disse um jornalista em tom de piada se referindo à declaração de Ban. “Talvez fosse bom aconselhar os redatores dos discursos do secretário-geral a pelo menos investirem em um dicionário de sinônimos”, comentou.

Consultado sobre a possibilidade de uma intervenção da ONU, incluindo, talvez, um enviado especial para acompanhar de perto os acontecimentos no terreno, o porta-voz das Nações Unidas, Farhan Haq, disse aos jornalistas, no dia 3, que o secretário-geral foi muito contundente em seus comentários. A crise no Egito, afirmou, “não pode ser categorizada como uma ameaça à paz e à segurança internacionais”, o que seria razão para um envolvimento direto tanto do secretário-geral quanto do Conselho de Segurança.

Por sua vez, a União Africana, com 53 membros, que interveio em várias crises de países como Comoras, Costa do Marfim, Burundi, Mauritânia, Somália e Togo, até agora permanece à margem. O presidente do Centro Africano para a Paz e a Democracia, Gabriel Odima, disse à IPS que os atuais acontecimentos no Egito ilustram como e por que a tirania, e não a democracia, é a principal forma de governo na África.

A União Africana não adotará uma posição sobre a crise egípcia por razões óbvias, afirmou Gabriel. Este grupo é “um clube de líderes não democráticos que continuam reprimindo e matando seus cidadãos impunemente”, ressaltou. Alguns deles chegaram ao poder pela força, e continuam usando-a para dominar o povo.

Na véspera da fundação da União Africana, em maio de 1963, o presidente eleito de Togo foi assassinado, disse Gabriel. Mas o golpe militar nesse país foi condenado apenas nos corredores do hotel e não na sala de conferências onde se reuniam os líderes do grupo, que não mencionaram nem debateram nenhuma resolução a respeito.

Com em 1963, disse Gabriel, os chefes de Estado africanos que se reuniram na capital da Etiópia, nos dias 29 e 30 de janeiro, discutiram a crise do Egito apenas nos corredores do hotel, não na conferência. “Não foi proposta nem debatida uma resolução cobrando a saída de Mubarak”, afirmou. A supressão da dignidade e da liberdade pessoal não é um problema restrito a Egito, Tunísia, Uganda, Zimbábue ou Costa do Marfim. “A maioria dos Estados africanos foi e é governada por ditadores”, observou Gabriel.

Ban Ki-moon destacou que, por meio de seus sucessivos Informes de Desenvolvimento Humano, desde 2002, a ONU alerta sobre o “déficit democrático” e outros desafios que tem pela frente o mundo árabe. “Estou preocupado com a crescente violência. Exortei todas as partes a serem moderadas. Os ataques violentos contra os manifestantes pacíficos são totalmente inaceitáveis”, acrescentou. O secretário-geral disse ainda que é importante garantir uma transição ordenada e pacífica.

Ban também exortou todas as partes a se envolverem nesse processo sem demora, com pleno respeito aos direitos humanos, em particular à liberdade de expressão, de associação e de informação. “Não devemos subestimar o risco de uma instabilidade em todo o Oriente Médio. A ONU está disposta a aprovar audazes reformas necessárias para atender as aspirações dos povos”, afirmou o secretário-geral em declarações à imprensa em Londres.

Por sua vez, Gabriel destacou que há grandes possibilidades de as manifestações de rua que começaram na Tunísia e agora ocorrem no Egito se replicarem em países como Angola, Argélia, Costa do Marfim, Eritreia, Etiópia, Quênia, República Democrática do Congo, Ruanda, Uganda, Zimbábue e outros. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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