Beirute, Líbano, 07/02/2011 – Enquanto as crises políticas no Egito e na Tunísia ofuscam outros problemas do Oriente Médio, a designação do milionário Najib Mikati como novo primeiro-ministro do Líbano ganha apoio regional, com a esperança de que a mudança minimize a instabilidade em outro país árabe. Porém, surgem muitas dúvidas sobre o novo governo e quanto terá de influência do movimento xiita Hezbolá.
“Desde os acontecimentos na Tunísia e no Egito, o Líbano já não é uma prioridade para a comunidade internacional. Terá preferência todo acerto político que traga estabilidade, já que a região enfrenta várias crises políticas”, explicou o analista Michael Young, autor de Ghosts of Martyr’s Square (Os Fantasmas da Praça dos Mártires). No dia 14 de janeiro, protestos na Tunísia levaram ao fim da ditadura de Zine al Abedine Ben Ali. Em seguida surgiram as manifestações em todo o Egito contra o regime de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.
No Líbano, a candidatura de Mikati foi possível após o Hezbolá pressionar o líder druso Walid Jumblat, ex-aliado do movimento 14 de Março, para apoiar o movimento 8 de Março, que tem apoio de Irã e Síria, dando-lhes a maioria parlamentar. Essa mudança no equilíbrio de poderes permitiu marginalizar o primeiro-ministro Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, assassinado em 2005. O crime é amplamente atribuído à Síria.
Desde aquele ano, uma crise política afeta o 14 de Março, liderado por sunitas, contra o 8 de Março, liderado pelo Hezbolá. Isto foi agravado pelos rumores de que alguns membros do Hezbolá podem ter participado do crime. “Gostemos ou não, a comunidade internacional apoiará a estabilidade no Líbano. Ninguém quer que o Tribunal Especial para o Líbano – responsável por levar à justiça os assassinos de Hariri – lidere uma guerra entre sunitas e xiitas”, disse Young.
Mikati é visto como um candidato de consenso para os atores regionais. Avaliando informes divulgados pela imprensa saudita, a analista política e especialista em temas do Hezbolá, Amal Saad-Ghorayeb, explicou que uma cisão na política saudita em relação ao Líbano – entre o rei Abdullah e o chanceler, príncipe Fayusal – pode ter levado a um apoio indireto à candidatura de Mikati.
O empresário também parece ter sido aprovado pela França, que o considera “um candidato de consenso aceitável, particularmente por receber apoio saudita”, segundo fontes citadas pelo jornal local as-Safir. Contudo, os Estados Unidos advertiram que um governo liderado pela oposição afetaria as relações bilaterais. A embaixadora norte-americana na Organização das Nações Unidas, Susan Rice, acusou o Hezbolá e a Síria de usarem de “intimidação, pressão e ameaças de violência” para converter Mikati em primeiro-ministro.
“A comunidade internacional não irá à guerra por uma figura política (Hariri), mas por uma agenda. Sua posição sobre o governo de Mikati dependerá muito do conteúdo da nova declaração ministerial e do que declarar o Tribunal Especial para o Líbano e o destino das armas do Hezbolá”, disse o analista político Emile Khouri. O Hezbolá é considerado a organização militar mais poderosa do Líbano. Em 2006, travou uma sangrenta guerra com Israel. “Se a comunidade internacional não aprovar a declaração ministerial, poderá bloquear a assistência ao Líbano”, acrescentou.
Em 2007, a comunidade internacional se comprometeu a dar US$ 7,6 bilhões em ajuda e empréstimos ao Líbano, no que ficou conhecida como conferência Paris III. Segundo Young e Saad-Ghorayeb, a influência do Hezbolá nas políticas do novo governo se centrará principalmente em questões estratégicas, como o Tribunal Especial para o Líbano e suas armas, deixando de lado as preocupações secundárias, como a agenda econômica e social.
Nos últimos dias, o Hezbolá manteve um perfil baixo em relação aos ministérios que seus candidatos ocuparão, deixando a dianteira para seus aliados no movimento xiita Amal e no Movimento Patriótico Livre. “Em termos de economia, Mikati desejará garantir certa continuidade para evitar o pânico no mercado”, previu Young.
A nomeação de Mikati, que recebeu apoio dos países árabes, também pode ter seu preço para o 8 de Março, deixando pouco espaço para que a nova maioria se volte a uma caça às bruxas. Segundo fontes da oposição, figuras do 14 de Março expressaram o temor de acabarem sendo alvo da mesma.
O mufti Ahmad Qabalan, um líder religioso próximo ao movimento Amal, reclamou um governo de unidade nacional que “derrube a (anterior) classe política corrupta” e leve à justiça os traidores, referindo-se indiretamente ao governo do 14 de Março. Apesar da formação de um governo apoiado pelo Hezbolá, os analistas políticos não creem que isto leve a uma censura da imprensa, contrariamente ao que indicam os rumores.
“O Hezbolá pressiona para que seja tomada uma decisão controvertida, que é romper todo os vínculos libaneses com o Tribunal Especial e pedir seu cancelamento. Não poderá fortalecer a censura, cuja adoção seria perigosa para o novo governo e não estou certo de que Mikati a aprove”, disse Young.
Para muitos analistas, a derrubada do governo de Hariri foi significativa em muitos sentidos. Saad-Ghorayeb disse que isto pode ter posto um fim ao mandato (apoiado pelos sauditas) da família Hariri, que assumiu a liderança de vários governos libaneses desde a década de 1990.
“No entanto, um governo liderado pelo Hezbolá não mudará muito a estrutura política libanesa, já que o partido não deixou a religião interferir desde que se integrou à atividade política, há cinco anos’, disse Young. Para Khouri, a nova estrutura governamental sem dúvida destacará o fato de que o Líbano é atraído cada vez mais para a órbita sírio-iraniana”. Envolverde/IPS

