Ambiente: Líderes do sul desafiam o Grupo dos Oito

Gleneagles, Escócia, 08/07/2005 – Líderes das cinco maiores nações em desenvolvimento desafiaram abertamente nesta quinta-feira o Grupo dos Oito países mais poderosos, que tentou propor um abandono do Protocolo de Kyoto, o único instrumento internacional para deter a mudança climática. O primeiro sinal sobre uma mudança a respeito desse documento apareceu menos de uma hora antes da explosão da primeira bomba no transporte público de Londres. Longe de converter o presidente norte-americano, George W. Bush (renegado de Kyoto desde 2001), o que aconteceu na cúpula do G-8 foi totalmente o contrário. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, reconheceu em um comunicado que os Estados Unidos não aceitarão nunca o Protocolo de Kyoto e que não tinha "sentido voltar a repetir o debate sobre Kyoto".

Bush disse que nações de rápido desenvolvimento, como China e Índia, deviam ser parte de um futuro acordo, e portanto saudou a presença de autoridades dessas nações asiáticas na cúpula do G-8 (formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia), que acontece desde quarta-feira e se encerra nesta sexta-feira na pequena e luxuosa localidade escocesa de Gleneagles. "Agora é tempo de ir além da etapa de Kyoto e estabelecer uma estratégia inclusiva das nações em desenvolvimento", disse Bush. Esta afirmação poderia ter conseqüências de grande alcance. Os Estados Unidos contribuem com a quarta parte da contaminação mundial vinculada pelos cientistas à mudança climática, e configurada pelos gases causadores do efeito estufa (que causam superaquecimento na atmosfera), como o dióxido de carbono, emitido por diversas atividades humanas, especialmente a combustão de petróleo, gás e carvão.

Reduzir a emissão desses gases é essencial para conter as conseqüências da mudança climática. O acordo de Kyoto, que entrou em vigor em fevereiro, obriga as nações industriais que o ratificaram a reduzir seus volumes de gases causadores do efeito estufa 5,2% abaixo dos níveis de 1990, no prazo até 2012. o Protocolo de Kyoto, tampouco ratificado pela Austrália, não contempla obrigações para os países em desenvolvimento, com base no fato de a maior da contaminação ter sido causada pelas nações industriais. Embora os países em desenvolvimento devam cumprir sua parte, não estão obrigados a adotar reduções antes de 2012, segundo o princípio de responsabilidades comuns mas diferenciadas.

A proposta de Bush e Blair de incluir os países em desenvolvimento em um acordo além de Kyoto poderia ter um efeito devastador nas economias do mundo pobre, que se veriam obrigadas a investir em caras tecnologias novas, elevando seus custos de produção e tornando menos competitivas suas exportações. Os governantes de cinco nações em desenvolvimento convidadas para a reunião do G-8 estavam claramente preparados para resistir a estas tentativas de conduzi-los a compromissos semelhantes aos que os países ricos já têm no Protocolo. Assistiram a cúpula o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; seu colega da China, Hu Jintao, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, os presidentes da África do Sul, Thabo Mbeki, e do México, Vicente Fox.

Em um comunicado conjunto que divulgaram uma hora depois dos comentários de Bush e Blair, estes cinco líderes do Sul afirmaram que o Protocolo de Kyoto "aborda de forma adequada os aspectos ambientais, sociais e econômicos do desenvolvimento sustentável". Os países industriais devem conduzir a "ação internacional para combater a mudança climática implementando suas obrigações de reduzir emissões e fornecendo financiamento adequado adicional e transferência de tecnologias mais limpas, menos contaminantes e de custos razoáveis às nações em desenvolvimento", diz o comunicado.

A Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que levou á adoção do acordo de Kyoto, "estabelece o desenvolvimento social e econômico e a erradicação da pobreza como prioridades excludentes para os países em desenvolvimento", acrescentaram os cinco líderes. "Portanto, há uma necessidade urgente de desenvolver e financiar políticas, medidas e mecanismos para adaptar-se aos inevitáveis efeitos adversos da mudança climática que cairão majoritariamente sobre os pobres", afirmaram. Devem ser aplicadas "mudanças nos insustentáveis modelos de produção e consumo dos países industriais", disseram os cinco mandatários.

Ao mesmo tempo, os países desenvolvidos "devem garantir que as tecnologias com impactos positivos sobre a mudança climática sejam tanto acessíveis quanto possíveis de serem adquiridas para os países em desenvolvimento", acrescentaram os cinco líderes. Grupos ambientalistas saudaram a firmeza das cinco nações, que também são a coluna vertebral do Grupo dos 20 países em desenvolvimento contrários aos subsídios agrícolas do Norte industrial e muito ativo nas negociações da Organização Mundial do Comércio. "Os grandes países em desenvolvimento mostram que um único líder mundial em Gleneagles acredita que o Protocolo de Kyoto é o caminho errado, e esse é o presidente Bush", disse através de uma declaração o ativista Tony Juniper, da organização Amigos da Terra. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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