EGITO: Guerra de desgaste no Cairo

Cairo, Egito, 08/02/2011 – Dezenas de milhares de pessoas continuam ocupando a Praça Tahrir na capital egípcia para exigir a saída do presidente Hosni Mubarak. Por sua vez, o regime joga uma guerra de desgaste para desestimular os manifestantes, embora estes se mantenham firmes. Desde o dia 6, tanques do Exército enviados para controlar os protestos tentam realizar graduais incursões na Praça. No entanto, os manifestantes, cujo número continua aumentando conforme mais pessoas chegam à capital de todas as partes do país, se negam a ceder terreno.

“Estão literalmente dormindo sob os tanques”, disse à IPS Ahmed al-Assy, um manifestante de 32 anos que passou a noite do dia 6 na Praça. “Se o Exército tentar ganhar mais terreno, terão de passar sobre nós”, acrescentou. “O governo usa um cerco econômico para esgotar os manifestantes e colocar o público contra a revolução”, disse à IPS Ahmed Maher, coordenador do movimento 6 de Abril, que tem um papel fundamental no levante. “Estão privando os manifestantes na Praça Tahrir das provisões necessárias, enquanto atribuem aos protestos o aumento de preços e a escassez de produtos”, afirmou.

Desde 25 de janeiro, os egípcios saem às ruas em todo o país em um número sem precedentes, exigindo a saída de Mubarak, que governa o país há três décadas. Os protestos são marcados por combates quase diários entre a polícia e os manifestantes, com saldo de centenas de mortos e milhares de feridos. Desde o começo das manifestações, os opositores ao presidente se instalaram na Praça Tahrir. No dia 4, centenas de milhares de manifestantes se reuniram ali para o Dia da Saída de Mubarak. Agora, foi convocada a “Semana da Resolução”, na qual prometem permanecer firmes na Praça até à renúncia incondicional do presidente.

A violência e a intimidação policial, até agora, não os desanimou. “Estão aterrorizando os manifestantes”, disse um ativista de 26 anos que participou dos protestos do dia 4. “Os paus mandados do governo nos arredores da praça atiram pedras, enquanto a liberdade de movimento está completamente restringida”, acrescentou. Nas últimas duas semanas, o regime empregou várias técnicas para desestimular os manifestantes e reduzir o apoio público ao levante. No quarto dia de protestos, 29 de janeiro, após a retirada das policias das ruas do Cairo, a imprensa estatal espalhou rumores de que grupos de saqueadores e de criminosos iam de casa em casa aterrorizando os moradores. Também houve algumas denúncias de violações.

Embora logo fosse constatado que os rumores eram infundados, estes tiveram êxito em provocar uma redução no número de manifestantes presentes na Praça, pois muitos voltaram para casa a fim de proteger suas famílias e propriedades. As autoridades não conseguiram impedir o Dia da Saída, no dia 4, mas dificultaram a vida dos manifestantes, privando-os de acesso a água, comida e instalações básicas. Um dia antes, as forças de segurança fizeram blitz no Centro de Leis Hisham Mubarak, cujo escritório fica distante da Praça Tahrir.

Além de mobilizar ativistas pela Internet e por telefone celular, o Centro previa enviar suprimentos médicos e alimento aos manifestantes. “As forças de segurança apreenderam a maior parte desses produtos e detiveram os ativistas que trabalhavam no Centro”, disse à IPS o diretor de imprensa do movimento 6 de Abril, Mohamed Adel. “E nos dias anteriores ao protesto, o Exército e homens mandados do governo impediram a entrada de qualquer alimento ou remédio na praça. Nós observávamos enquanto o Exército apreendia e destruía os medicamentos que o povo havia levado para os manifestantes”, acrescentou.

Os manifestantes que se animaram a deixar a Praça e se dirigir a bairros próximos em busca de produtos não tiveram melhor sorte. “Tentamos comprar algum alimento em um comércio próximo, mas fomos ameaçados com facão por um partidário de Mubarak”, disse um manifestante de 34 anos que acampou na Praça Tahrir na noite do dia 4. “Ele nos acusou de tentar roubar comida, antes de nos mandar embora”, acrescentou.

Enquanto isso, a vida para a população em geral no Cairo ficou mais difícil devido aos toques de recolher noturnos, impostos diariamente desde 28 de janeiro, bem como a escassez geral de produtos e o fechamento dos bancos. Muitos se queixam dos abruptos aumentos de preços e da impossibilidade de encontrar produtos básicos. “Para obter um botijão de gás, praticamente tenho que dormir na porta da loja onde é vendido”, disse à IPS Rasha Mahmoud, uma dona de casa de 31 anos do distrito de baixa renda de Sayyeda Zeinab. Ela também se queixou da falta de alimentos subsidiados. Envolverde/IPS

Khaled Moussa al-Omrani

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *