Cairo, Egito, 10/02/2011 – Nos últimos anos, o Egito sofreu uma crescente tensão entre sua maioria muçulmana e a minoria cristã copta.

Cristãos formam um escudo para proteger os muçulmanos enquanto rezam na Praça Tahrir. - Khaled Moussa Al-Omrani/IPS
Desde 25 de janeiro, centenas de milhares de egípcios saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Mubarak, como o grupo 6 de Abril e o Movimento para a Liberdade e a Justiça. Alguns comentaristas tentam preservar o levante como uma revolução islâmica “ao estilo iraniano”. “Nosso temor verdadeiro é uma situação que já ocorreu em outros países como o Irã, com o surgimento de regimes repressivos do Islã radical”, disse em 31 de janeiro aos jornalistas ocidentais o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
No entanto, segundo manifestantes na Praça Tahrir, que no dia 8 recebia centenas de milhares, a unidade entre muçulmanos e cristãos é fundamental nos protestos. “Existe um esmagador senso de solidariedade aqui entre muçulmanos e cristãos”, disse à IPS o manifestante islâmico de 32 anos, Ahmed al-Assy. “Praticamente, todas as palavras de ordem e os sermões dos xeques muçulmanos destacam a importância da unidade nacional”, acrescentou.
Os violentos confrontos entre polícia e manifestantes na primeira semana do levante foram acompanhados de comoventes gestos de camaradagem interreligiosa. Em várias ocasiões, manifestantes cristãos formaram escudos humanos para proteger dos ataques policiais seus compatriotas islâmicos, que faziam pausas para suas rezas em meio ao conflito. “Durante os mais duros enfrentamentos, em 28 de janeiro, encontrei um homem de minha idade que protegia minhas costas, e que depois fiquei sabendo que é cristão”, disse à IPS Yahia Roumi, uma manifestante de 24 anos do Cairo. “Agora somos grandes amigos. Só vamos aos protestos juntos”, disse.
O predominante sentimento de unidade nacional parece romper com dois anos de tensão entre as duas comunidades, exacerbada por ocasionais focos de violência. Em novembro, houve combates entre manifestantes coptos e forças de segurança, depois que as autoridades paralisaram as obras de reforma em uma igreja no distrito de Omraniya, no Cairo. Com escassa representação no governo, os coptos egípcios se queixaram por muito tempo das severas restrições legais para a construção de igrejas.
Em 1º de janeiro, mais de 20 pessoas morreram quando uma igreja copta na cidade de Alexandria foi alvo de um atentado com bomba. As autoridades atribuíram o ataque a terroristas relacionados com a rede radical islâmica Al Qaeda, o que agravou as tensões entre cristãos e muçulmanos. A comunidade copta egípcia, a maior concentração de cristãos no Oriente Médio, representa 10% dos 82 milhões de habitantes do Egito. O restante da população, em maioria esmagadora, é muçulmana.
A participação cristã na atual onda de protestos se consolida apesar das declarações do máximo líder da Igreja Ortodoxa Copta, o papa Shenouda III, que apoiou o regime de Mubarak. “Telefonei ao presidente e lhe disse: todos estamos com o senhor”, afirmou Shenouda à televisão estatal no dia 30 de janeiro. Cinco dias depois, reiterou seu apoio ao mandatário e pediu aos manifestantes que “acabassem com os protestos e ouvissem a razão”.
Segundo um sacerdote copto citado pelo jornal independente Al Shorouk, mas que não foi identificado, Shenouda “perdeu boa parte de sua legitimidade entre seus seguidores por, essencialmente, proibir os coptos de participarem do levante”. Apesar da postura oficial da igreja sobre o assunto, “nós estimulamos os jovens coptos a participarem”, acrescentou.
“Não sei o motivo de Shenouda querer impedir os coptos de se unirem aos protestos”, disse Boutros, que preferiu não dizer o sobrenome, um cristão que participa das manifestações na Praça Tahrir desde 30 de janeiro. “É simplesmente para agradar Mubarak ou é para nos isolarmos de nossos compatriotas muçulmanos, sobre os quais muitos coptos têm uma ideia equivocada?”, perguntou. “Em Tahrir conhecemos muitos jovens ativistas islâmicos, inclusive alguns da Irmandade Muçulmana”, disse à IPS. “Nos explicaram como o Islã ordena aos muçulmanos que protejam os cristãos e os lugares de adoração cristãos. Aprendi com eles que os muçulmanos não têm nenhuma crença que ameace nossos direitos ou que nos assustem como coptos”, acrescentou.
Ao contrário do papa ortodoxo copto, algumas destacadas figuras de outras religiões cristãs apoiam ativamente os protestos. “As manifestações constituem meios legítimos de expressão, segundo a lei e a Constituição”, diz uma declaração do dia 1º deste mês, assinada por vários clérigos católicos e anglicanos egípcios e um punhado de intelectuais coptos. Sobre a postura de Shenouda III, o texto acrescenta: “Rechaçamos a servil posição dos líderes da igreja chamando os coptos a não se unirem ao levante”. Envolverde/IPS

