IÊMEN: Quando a divisão enfraquece os protestos

Sanaa, Iêmen, 16/02/2011 – As mobilizações populares não conseguiram afetar o poder do presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh. As diferenças entre militantes sociais e estudantes, por um lado, e dirigentes políticos, por outro, até agora impedem que a situação derive em fatos iguais aos observados na Tunísia e no Egito. As manifestações eclodiram após a renúncia do presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, no dia 14 de janeiro, pressionado pela chamada Revolução do Jasmim, que ficou no poder por duas décadas. Dois dias depois, estudantes da Universidade de Sanaa pediam a renúncia do presidente iemenita, há 30 anos no poder.

A rebelião ganhou força nos países árabes. Em 25 de janeiro, jovens egípcios tomaram as ruas das principais cidades em uma mobilização popular que terminou com a renúncia de Hosni Mubarak, também há 30 anos no poder. Na noite da renúncia de Mubarak, pelo menos dois mil manifestantes comemoraram na capital do Iêmen. Sua mobilização, porém, parece com as velas que carregavam nesse dia, e emite uma luz pálida que não chega a se converter em raios, como na Tunísia e no Egito, onde a pressão popular expulsou os presidentes.

Um dos obstáculos para promover uma reforma política é que cidadãos e partidos de oposição estão divididos. O presidente propôs um diálogo nacional entre o governante Congresso Geral do Povo (CGP) e a coalizão opositora, mas não houve avanço. A discordância se instalou nas ruas, onde milhares de manifestantes expressam seu descontentamento com o governo, enquanto os partidários o apoiam. As pessoas querem comer e trabalhar, mas não chegam a um acordo sobre qual caminho seguir para alcançar esses objetivos.

Existe um crescente ressentimento contra a coalizão opositora. Estudantes universitários avivaram as manifestações, o que motivou muitos dirigentes políticos. A Universidade se converteu em um ponto de encontro, mas a participação nos protestos diminuiu quando alguns dirigentes quiseram ocupar um lugar de destaque. Os estudantes querem se diferenciar da oposição.

A Revolução dos Jovens Independentes “acusa, por igual, de corrupção, o CGP e a oposição”. Os estudantes querem que os protestos continuem sendo “uma marcha de pessoas sem líderes nem intermediários”. A jovem Rana J. foi uma das que comemorou a vitória da revolta no Egito, no dia 11, “um sacrifício por uma bela causa”, afirmou.

“Apoiava a oposição, até que fui a uma de suas concentrações. Não se conectavam com as pessoas. Pediam que se reunissem, gritavam o que queriam por um microfone e depois mandavam dispersar”, contou Rana. “Não se conectavam com as bases. Os partidos políticos do Iêmen estão brincando. Manipulam a massa analfabeta. Sempre foram ‘verticalistas’. Só usam os cidadãos para obter benefícios”, acrescentou.

A oposição é “tão incompetente quanto o partido do governo”, disse o estudante e ativsita Abdulaziz al-Sakkaf, que participou de uma concentração diante da embaixada do Egito. “As pessoas se entusiasmam com os protestos, mas se desmotivam quando se dão conta de que tem participação da oposição. Não acreditam nela. Se pudesse fazer algo bom, já teria feito”, acrescentou.

As medidas de segurança dificultaram os protestos. Os manifestantes foram cercados e vários acabaram detidos desde o começo das mobilizações contra o governo, em meados de janeiro. De um máximo de 20 mil pessoas que participaram do Dia da Raiva, no dia 3, menos de cem se reuniram no dia seguinte na Universidade de Sanaa. Quatro estudantes foram detidos, o que motivou outro protesto no dia seguinte, diante da delegacia onde estavam. A polícia pensou em usar a força para deter os protestos, mas depois permitiu, temendo que isso gerasse mais mobilizações, afirmou o advogado e ativista pelos direitos humanos Jaled al-Anesi.

A população não está acostumada a se rebelar, disse uma jovem sem se identificar. “Não sabemos realmente o que é dizer ‘não’ ao governo. O que aconteceu no Egito teve um efeito positivo para que as pessoas se animassem a sair às ruas para expressar sua opinião. Porém, estamos acostumados a nos dizerem de um palanque o que fazer”, afirmou. “Estamos contentes com o que aconteceu no Egito e esperamos que aconteça aqui. É difícil para os estudantes, que não têm apoio e foram duramente reprimidos”, ressaltou. Envolverde/IPS

Yazeed Kamaldien

Yazeed Kamaldien is a freelance journalist and photographer based in Cape Town, South Africa. He has worked with print, online, radio and television media in various countries. His website features some of his published stories and photos as well as news about his photographic exhibitions.

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