Sombra soviética paira sobre a Rússia

Moscou, Rússia, 18/02/2011 – Defensores dos direitos humanos e dirigentes de oposição se tornaram alvos de intimidação política e hostilidade por parte das forças de segurança na Rússia, faltando menos de um ano para as eleições parlamentares e presidenciais. “Muitas organizações são vítimas de repressão”, disse à IPS a presidente do Comitê de Assistência Cívica e Memorial, Yelena Ryabinina. “A pressão das autoridades revela sua própria debilidade e a verdadeira situação do país”, indicou Yelena, que também integra o Comitê Presidencial de Direitos Humanos.

Rússia Unida é o partido liderado pelo primeiro-ministro, Vladimir Putin. Supõe-se que façam parte da oposição o Partido Comunista da Federação Russa, o Partido Democrático Liberal e o Rússia Justa, mas costumam apoiar todas as políticas do governo. O partido de Putin domina a política neste país desde sua fundação, em dezembro de 2001, e tem apoiado sem reservas os presidentes Dimitri Medvédev e Putin (1999-2008). O Rússia Unida tem 315 das 450 cadeiras na câmara baixa do parlamento, a Duma, e o restante está distribuído entre Partido Comunista, Partido Liberal Democrático e Rússia Justa.

Em uma tentativa de se distanciar de Putin, Medvédev reconheceu que a Rússia é um Estado de partido único, sem uma oposição significativa. O país mostra sinais de paralisia semelhante à da era soviética, afirmou o presidente, segundo informou na semana passada o jornal Vedomosti. Medvédev disse que a situação é “mais prejudicial” para o partido do governo do que para a oposição. O presidente considerou que são necessárias reformas radicais para que o sistema político seja mais justo e flexível e mais aberto à renovação e ao desenvolvimento.

Medvédev mencionou alguns êxitos significativos de seu mandato, como sanções penais para os responsáveis por fraude eleitoral e o mesmo tempo de exposição nos canais estatais para todos os partidos políticos. E, também, um papel mais significativo para as agrupações que tenham maioria nos parlamentos regionais para designar os governadores, menos restrições para eleição às assembleias legislativas federais e regionais, e menor quantidade de assinaturas para ser candidato às eleições. “Nossa democracia é imperfeita e estamos totalmente conscientes disso. Contudo, estamos melhorando”, afirmou o presidente.

Não é a primeira vez que Medvédev, que se considera uma força modernizadora da Rússia, fala da necessidade de reformar a política do país. Desde o fim da União Soviética, no final de 1991, a Rússia enfrentou vários desafios em seu esforço para forjar um sistema político que pudesse substituir quase 75 anos de regime comunista. A estrutura política do país começou a dar sinais de estabilização com a nova Constituição, adotada em 1993, e o novo parlamento, com representantes de diversas agrupações. Porém, os quatro grandes partidos continuam dominando o cenário político nacional.

“A Rússia precisa fazer muito mais para respeitar o papel legítimo da oposição na vida pública e nas eleições”, disse Sam Patten, da organização norte-americana Freedom House. É uma vergonha a detenção de Boris Nemtsov, ex-primeiro ministro e ex-governador de Nizhny Novogrood no governo de Boris Yeltsin (1991-1999), há um mês, por protestar contra as autoridades, disse Sam. “Quem o governo teme?”, perguntou.

O fato de um homem com tanto talento como Nemtsov se comprometer com a vida pública poderia inspirar milhões de russos preocupados com a situação do país e desejosos de se expressar, mas que temem fazê-lo devido às detenções e a outras formas de intimidação. “Ações como a empreendida contra Nemtsov não revelam a fortaleza do governo, mas sua fraqueza”, afirmou Sam.

A primeira coisa a fazer para melhorar a participação política é relaxar as restrições sobre o debate público, sugeriu Sam. A censura continua impondo restrições à televisão, o meio de comunicação que atinge maior público. “A censura é um grande problema” na Rússia, concordou Boris Kagalitsky, diretor do Instituto de Estudos sobre Globalização, com sede em Moscou.

“Não creio que a burocracia russa possa fazer algo de bom”, disse Boris à IPS ao ser consultado sobre as medidas que as autoridades russas poderiam tomar para aumentar a participação política. “Objetivamente, creio que precisamos mudar as leis que regem os partidos políticos, as eleições, os sindicatos e a liberdade de reunião”, acrescentou. Levará muito tempo e esforço para estabelecer um regime mais plural, diante de tudo o que se fez para limitar a participação política, concluiu. Envolverde/IPS

Correspondentes da IPS

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