Nações Unidas, 28/02/2011 – É necessário criar sensibilidade de gênero nas escolas, o que “significa romper estereótipos e incentivar as meninas a terem aspirações e a procurá-las”, disse à IPS a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Irina Bokova.
IPS: Quais são as prioridades mundiais da Unesco quanto a ajudar os Estados-membros da ONU a conseguirem educação universal até 2015, data limite para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio?
IRINA BOKOVA: Como demonstra nosso “Informe de acompanhamento da educação para todos no mundo”, que divulgaremos no dia 1º de março, na última década houve avanços impactantes. Cinquenta e dois milhões adicionais de meninos e meninas se matricularam nas escolas primárias. E a quantidade dos que abandonaram a escola caiu pela metade na Ásia meridional e ocidental. Vários países que iniciaram a década com grandes brechas de gênero conseguiram a igualdade de gênero na educação primária. Estes êxitos são resultado de um forte compromisso político, um gasto interno sustentado em educação e políticas que tornaram a educação mais acessível. Porém, como adverte nosso informe anual, estes avanços estão diminuindo. Em nossos programas enfatizamos melhorar a contratação de professores e as políticas de capacitação, porque para alcançar a educação primária universal até 2015 são necessários 1,9 milhão de professores. Também os centramos na alfabetização, porque cerca de 800 milhões de pessoas adultas são analfabetas, e nas habilidades para o mundo do trabalho, bem como em ajudar os governos a manejar seus sistemas educacionais. O maior desafio que os sistemas educacionais enfrentam é chegar aos marginalizados, garantir que os estudantes adquiram conhecimentos e habilidades relevantes para abrir caminho no mundo globalizado de hoje, junto com valores e atitudes que promovam o diálogo, a cidadania responsável e a paz.
IPS: Acredita que uma educação de qualidade para as meninas pode ajudar a fortalecer a agenda internacional sobre desenvolvimento e paz?
IB: A educação de meninas e mulheres é a chave para o desenvolvimento e a paz. O fato de dois terços de adultos iletrados serem mulheres reflete a injustiça do desigual acesso à educação. As sociedades pagam um alto preço por isto. Um menino cuja mãe pode ler tem 50% mais de probabilidade de viver além dos cinco anos de idade. Na África subsaariana, estima-se que em 2008 poderiam ter sido salvos 1,8 milhão de crianças se suas mães tivessem pelo menos o ensino secundário. As mulheres cuja instrução vai além do primário têm cinco vezes mais probabilidade do que as analfabetas de estarem informadas sobre a prevenção do HIV/aids. A educação proporciona uma voz, incentiva a participação política e aumenta as oportunidades de trabalho. Não pode existir uma sociedade equitativa e justa sem se conseguir a igualdade de gênero, e isto começa com a educação.
IPS: Quais são os desafios reais para as meninas irem à escola? Trata-se de problemas políticos, financeiros, sociais ou culturais?
IB: É preciso começar cedo. Em muitos países, nascer menina ainda pode significar exclusão em termos educacionais. A pobreza é o obstáculo número um. Mas há outros de natureza mais social e cultural. Viver em uma área remota, pertencer a uma comunidade indígena, falar um idioma minoritário ou ter uma deficiência faz com que as meninas corram riscos ainda maiores de exclusão. Estes obstáculos não são irremovíveis, e a experiência demonstra isso. De Bangladesh ao Senegal, muitos países que começaram de baixo conseguiram a igualdade de gênero na educação primária. O primeiro passo é abolir as matriculas e garantir que não haja custos ocultos, como livros ou uniformes, que impedem que as meninas frequentem a escola. Os subsídios financeiros às famílias mais pobres e programas de bolsas de estudo, são políticas que permitem às meninas completarem com êxito sua escolaridade. Os programas voltados aos menores (abaixo de seis anos) são particularmente efetivos para combater a desigualdade. Contratar e capacitar professoras tem um impacto no desempenho escolar, especialmente em países pobres. Onde realmente devemos fazer mais esforços concertados é no nível secundário, porque as meninas têm mais probabilidades de abandoná-lo do que os homens, por vários motivos. O custo da escola é um, e há também preocupações sobre segurança, higiene e longas distâncias a percorrer para ir e voltar da escola. Por fim, temos que criar uma cultura sensível ao gênero nas escolas. Isto significa romper estereótipos e incentivar as meninas a terem aspirações e irem atrás delas.
IPS: A falta de educação é, claramente, um dos custos ocultos dos conflitos e da violência.
IB: O relatório que divulgaremos amanhã documenta as devastadoras consequências dos conflitos armados sobre a educação. A alarmante situação exige uma resposta mundial forte e concertada. Devemos abordar as falhas de proteção controlando e informando melhor os ataques contra os sistemas educacionais e sancionando estas atrozes violações dos direitos humanos. Este informe se centra em prioridades erradas. Atualmente, 21 países em desenvolvimento gastam mais em armas do que em escolas primárias. Se reduzirem esses gastos militares, poderão fazer com que 9,5 milhões a mais de meninos e meninas frequentem a escola. Envolverde/IPS


