LÍBIA: Civis de Bengasi se preparam para a guerra civil

Bengasi, Líbia, 04/03/2011 – Enquanto desertores do exército líbio organizam o armamento que levaram dos redutos do líder Muammar Gadafi, milhares de civis se alistam para um possível ataque à capital, destinado a acabar com o regime instaurado em 1969.

Voluntários se preparam para se juntar à luta contra Gadafi. - MIke Elkin/IPS

Voluntários se preparam para se juntar à luta contra Gadafi. - MIke Elkin/IPS

No dia 1º, alguns soldados ensinavam técnicas de marcha aos novos recrutas, homens de 18 a 60 anos, em uma quadra de basquete nos fundos de uma escola secundária de Bengasi, a segunda maior cidade deste país do Norte da África, próxima ao Mar Mediterrâneo.

Nos últimos dois dias, este lugar se converteu em centro de recrutamento que reúne cerca de quatro mil pessoas, disse um militar. Em uma base do exército nos arredores da cidade, os novos recrutas chegam a dez mil.

“Quero que meu país se livre de Gadafi e do inferno de 41 anos que nos trouxe”, disse Salem Abdelhassid El Dressy, contador de uma empresa de eletricidade e pai de dois filhos. “Gadafi tomou o poder no ano em que nasci, e já é hora de mudar. Creio que haverá uma grande batalha se formos para Trípoli. Tomara que eu esteja errado, mas estou pronto para lutar. Todos meus amigos e familiares têm o mesmo sentimento: Gadafi deve ir embora. Todos queremos ir a Trípoli acabar com ele”, disse à IPS.

A chuva de protestos contra o governante em Bengasi contrasta com as mensagens da televisão que falam do amor do povo por seu líder. As aparições públicas de Gadafi diferem cada vez mais da realidade que se vê nas ruas. A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice, qualificou a conduta de Gadafi como “ilusória”. O que enfurece as pessoas aqui é sua afirmação de que não incita a violência, quando os hospitais estão lotados de feridos e os médicos afirmam que as vítimas chegam em pedaços por causa do fogo de artilharia.

No dia 20 de fevereiro, cidadãos e soldados tomaram o controle desta cidade, depois que tropas leais e mercenários abriram fogo indiscriminadamente contra as pessoas que se manifestavam nas ruas, matando centenas e ferindo milhares. Pessoal médico entrevistado conta que precisaram trabalhar sem dormir durante cinco dias para atender as vítimas.

Desde que Bengasi desafiou o regime, esta cidade de 800 mil habitantes se transformou no reduto do movimento rebelde. Líderes locais e oficiais militares formaram comitês para administrar a região Leste do país, já em suas mãos. A maior parte das lojas está fechada e os serviços são mínimos, mas a cidade continua funcionando. Diariamente, manifestantes se reúnem diante da sede do Supremo Tribunal de Justiça agitando bandeiras nas cores verde, preta e vermelha e cantando canções e lemas contra Gadafi.

Enquanto isso, em Zawiya, a 50 quilômetros de Trípoli, os rebeldes repeliram um ataque de forças governamentais que tentavam retomar a cidade. As condenações internacionais ao uso da força militar contra civis estão crescendo, e mais países e empresas congelam os bens de Gadafi e de sua família. O Parlamento Europeu discute novas medidas, enquanto a embaixada da Líbia nos Estados Unidos substitui a bandeira oficial pela rebelde.

Enquanto os civis se somam ao recrutamento, perto dali, no depósito de armas de Salmani, soldados rebeldes organizam um arsenal encontrado em bunkers do regime dentro e fora da cidade. Segundo o coronel Mohammed Samir Al-Abar, comandante de blindados, o exército está dividido entre os que pertencem à tribo de Gadafi, seus aduladores e mercenários, de um lado, e todos os demais do outro. “Os oficiais de alta patente adoram Gadafi, estão totalmente controlados”, disse o militar. “Carecem do verdadeiro espírito líbio. Minha gente está pronta para lutar. Cada oficial aqui tem um grupo assim. Os tanques estão prontos. E a vontade do povo é sólida como uma rocha”, ressaltou o coronel à IPS.

Agora essa determinação é apoiada com armas, algumas dos anos 1970 e outras armazenadas desde quase essa época. Os soldados se dedicam a limpar e montar o armamento. No dia 1º, foram feitos vários disparos de teste com lança-foguetes antiaéreos de fabricação russa, assustando as pessoas. “Gadafi nunca nos deu equipamento”, disse o soldado reservista Adel Mustafá. “Ele não confiava no exército regular, apenas em sua gente. Agora o povo controla o armamento de cada base militar tomada”, acrescentou.

“Esses foguetes antiaéreos, por exemplo, estão velhos e sujos. Mas ainda funcionam. Antes que o povo os tomasse, o regime os usava contra sua própria gente. Olhe o tamanho do projétil. Quando acertam o corpo humano o despedaçam. Foram projetados para atingir aviões, não pessoas. E Gadafi os usava para matar seu povo”, disse o soldado.

As opções de Gadafi parecem limitadas: disse que jamais abandonará a Líbia, e nenhum país deu sinais de querer recebê-lo. Quase encerrado em Trípoli com os que lhe são leais, possivelmente lute até o fim. O exército improvisado em Bengasi, com seus soldados reservistas e contadores, está mais do que desejoso de enfrentá-lo. Envolverde/IPS

Mike Elkin

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *