Washington, Estados Unidos, 04/03/2011 – Os Estados Unidos rechaçaram firmemente a acusação de que estão intervindo nos levantes contra regimes do Oriente Médio, e em particular no Iêmen, cujo presidente, Ali Abdullah Saleh, denunciou uma suposta conspiração de Washington contra seu governo. “Não creio que buscar um bode expiatório seja a resposta que a população do Iêmen, e de outros países, considera adequada”, disse Jay Carney, porta-voz do presidente Barack Obama.
A onda de protestos que sacode o mundo árabe foi “orquestrada por Tel Aviv sob supervisão de Washington”, afirmou Saleh no dia 1º. Para muitos analistas norte-americanos, as declarações do atribulado mandatário não passam de uma tentativa de apelar ao sentimento nacionalista para tê-lo ao seu favor. Saleh governou o Iêmen do Norte a partir de 1978 e, após a reunificação do país, em 1990, passou a ser seu presidente. Washington criticou a violência das forças de segurança contra os manifestantes, mas, ao que parece, tolera a permanência de Saleh diante da falta de uma alternativa clara que seja aceitável e tenha apoio da população.
“Nos Estados Unidos, muitos esperam que sobreviva porque ninguém sabe o que virá depois”, disse Thomas Krajeski, vice-presidente da Universidade de Defesa Nacional e ex-embaixador no Iêmen, em uma conferência no Bipartisan Policy Center (BPC, Centro Bipartidário de Política). O governo de Obama considera Saleh com um aliado importante na luta contra a organização terrorista Al Qaeda na Península Arábica, ligada a vários atentados terroristas falidos em território norte-americano, especialmente a tentativa de bombardear um avião da Northwest Airlines que voava de Amsterdã para Detroit, no dia 25 de dezembro de 2009.
Washington aumentou a ajuda militar e antiterrorista ao governo de Saleh, de US$ 70 milhões, em 2009, para mais de US$ 150 milhões no ano passado. O Comando Central dos Estados Unidos propôs, em setembro, aumentar a ajuda antiterrorista e a segurança para US$ 1,2 bilhão em cinco anos. Além disso, este país e a Grã-Bretanha anunciaram seus planos de aumentar a assistência ao desenvolvimento até chegar a US$ 120 milhões em três anos.
Saleh, à frente do país árabe mais pobre, enfrenta o maior desafio político de sua longa carreira. O que começou no final de junho como uma manifestação estudantil, inspirada na revolta popular da Tunísia, desembocou em uma verdadeira crise quando os principais chefes tribais que apoiavam o presidente começaram a pedir sua renúncia. No último final de semana, Saleh perdeu o apoio de um dos mais influentes chefes tribais, xeque Hussein al Ahmar, o que para muitos especialistas significou um sério golpe à autoridade do presidente.
Além disso, Abdul Majid al Zindani, que tinha fortes vínculos com Saleh e foi mentor do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, uniu-se, no dia 28 de fevereiro, às vozes que pedem a saída do mandatário. “É grave”, afirmou Krajeski, que voltou há pouco do Iêmen. “Saleh fez todo o possível para manter Zindani ao seu lado”, acrescentou. “Que chance tem de sobreviver?”, perguntou, e respondeu: “agora lhe daria 50% por seus antecedentes e sua capacidade de forjar acordos”.
Saleh tratou de acalmar os ânimos, primeiro anunciando, no início de fevereiro, que não será candidato às eleições de 2013 e, no dia 28, propondo a criação de um governo de unidade nacional incluindo a coalizão opositora. Porém, sua oferta foi sumariamente rejeitada. “A legitimidade do governo do Iêmen já estava em decadência antes dos protestos, especialmente no Sul. Agora piorou”, disse o general da reserva James Jones, assessor de segurança nacional de Obama até o ano passado, referindo-se aos protestos no mundo árabe.
Washington apoiou o regime iemenita, apesar de nunca ter recebido bem a resistência de Saleh às pressões do Ocidente em uma tentativa de promover reformas econômicas e políticas. Além disso, e não menos importante para os Estados Unidos, Saleh desviou fundos destinados a deter a Al Qaeda para a luta contra a insurgência houthi, no Norte, e os separatistas, no Sul, de acordo com telegramas do Departamento de Estado divulgados pelo Wikileaks.
O cessar-fogo anunciado no mês passado levou a uma relativa calma no Norte. Nas últimas semanas houve protestos bastante pacíficos na região e na capital. Contudo, a violência das forças de segurança no Sul foi “a pior desde a guerra civil”, disse Jonathan Ruhe, principal autor do informe “Fragilidade e Extremismo no Iêmen”, divulgado em janeiro pelo BPC.
A Anistia Internacional informou que morreram 27 pessoas nas últimas duas semanas, 25 no Sul e duas em Sanaa. “Os acontecimentos no Iêmen pioraram. As forças de segurança mostram um irresponsável desprezo pela vida das pessoas”, acrescentou. Como no Bahrein, Egito e Tunísia, o governo de Obama pediu urgência a Saleh no sentido de respeitar o direito de reunião pacífica, o que teria contribuído para aumentar sua raiva. “Todos os dias ouvimos declarações de Obama sobre o Egito ter de fazer isto, a Tunísia fazer aquilo. É presidente dos Estados Unidos ou do mundo?”, perguntou com ironia.
No entanto, Washington se mostra reticente em abandonar Saleh, apesar das críticas, pelo menos neste momento. “Diante da possibilidade de a Al Qaeda lançar um ataque e devido à colaboração demonstrada por Saleh, temos interesse que continue trabalhando conosco”, disse à IPS o subsecretário da Defesa para operações especiais e combate ao terrorismo, Garry Reid. Entretanto, “não podemos ter sócios que atacam seus cidadãos”, acrescentou. Envolverde/IPS

