Dhaka, Bangladesh, 09/03/2011 – O governo de Bangladesh é alvo de várias críticas por ter destituído Mohammad Yunus, conhecido como “banqueiro dos pobres”, do cargo de diretor do Banco Grameen, que ele fundou. O economista foi premiado em 2006 com o Nobel da Paz. O Banco Central, que tomou a decisão há alguns dias, argumentou que a permanência de Yunus era ilegal e que deveria ter deixado o cargo há dez anos. Yunus, de 70 anos, impugnou a ordem no dia seguinte. Seus simpatizantes locais e estrangeiros criticaram o governo por essa medida.
“Agi de acordo com as normas do banco”, justificou Muzammel Huq, presidente da junta de diretores do Grameen. Muzammel foi designado há pouco pelo governo, que possui 25% das ações da instituição. O subdiretor ocupará o cargo de Yunus de forma interina, disse à IPS. Entretanto, Yunus ignorou a ordem e, no dia 3, foi trabalhar na sede do Banco Grameen em Dhaka, onde ficou até tarde, informou a porta-voz da instituição, Jannat-E-Quanine.
“O banco se assessora legalmente” e “cumpre as normas vigentes”, diz um documento divulgado pela instituição. “Também respeita a lei, segundo os assessores, no que diz respeito ao fato de seu fundador permanecer no cargo”, afirma. O professor de economia fundou o Banco Grameen em 1983. A instituição atraiu a atenção mundial por causa dos pequenos créditos, fáceis de solicitar, que beneficiavam mulheres desempregadas, que não têm garantias para dar. O modelo foi replicado em todas as partes, o que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz.
O governo pretende desacreditar Yunus, disse à IPS o professor de economia Anu Mohammad, da Universidade de Janhangirnagar. “Se a idade é um problema, porque esperou dez anos”, perguntou. “Não creio que haja boas intenções por trás disto. Não poderá tirar da pobreza tanta gente presa em um círculo vicioso de dívidas”, afirmou Anu, crítico do microcrédito.
Numerosos analistas especulam que o primeiro-ministro de Bangladesh, Jeque Hasina, não está contente com Yunus. A televisão norueguesa divulgou em novembro passado um documentário que reavivou uma velha controvérsia pela transferência de um fundo de assistência norueguês para o Grameen para evitar impostos, segundo as normas dos anos 1990.
O governo da Noruega eliminou as acusações em dezembro, mas o de Bangladesh criou um comitê para revisar as atividades do banco. Em janeiro, Hasina acusou Yunus de “fraude” para não pagar impostos e o banco de “chupar o sangue dos pobres em nome do alívio da pobreza”.
A medida do governo pode ser uma represália por antigas críticas de Yunus. Após a chegada ao poder de um governo interino, apoiado pelo exército e em um contexto de violência, há quatro anos, o Prêmio Nobel declarou à agência de notícias francesa AFP que os políticos “perseguiam o dinheiro”.
Yunus tentou criar um partido quando muitos políticos importantes estavam presos ou foragidos, mas nunca conseguiu. Hasina, detido pelo governo interino, obteve uma vitória esmagadora nas eleições gerais de dezembro de 2008, e formou um governo. Yunus foi processado há pouco tempo por difamação devido às suas declarações de então e enfrentou duas acusações de fraude, pelas quais teve de pagar fiança. Os julgamentos foram políticos, alegou.
A aliança internacional Friends of Grameen, liderada pela ex-presidente da Irlanda Mary Robinson, disse em fevereiro que Yunus era vítima de um “vilipêndio político”. A demissão de Yunus “é muito triste”, disse o ministro de desenvolvimento internacional da Noruega, Erik Solheim. “O que vemos é uma brutal luta de poder em Bangladesh”, disse à agência de notícias NTB de seu país.
O ministro das Finanças de Bangladesh, Abul Mal Abdul Muhith, reuniu-se com diplomatas estrangeiros na semana passada para explicar as razões da destituição de Yunus. Prejudica a imagem do país, reconheceu, mas o governo não teve outra opção, disse à imprensa, e insistiu que não há nada de vingança por trás da medida. “Chamamos sua atenção várias vezes”, afirmou.
“Os Estados Unidos estão muito preocupados”, afirmou o embaixador desse país em Bangladesh, James F. Moriarty. “Humilhar um homem de sua estatura em seu próprio país não fará bem algum a Bangladesh”, disse o ex-ditador Ersahd, grande aliado do partido governante.
“Não é importante quem será o diretor do Banco Grameen, a instituição que tem oito milhões de beneficiários em todo o país não deve ser afetada”, disse Yunus após a audiência judicial em que impugnou sua destituição. Envolverde/IPS

