Semeando dúvidas

Uxbridge, Canadá, 09/03/2011 – O setor dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos usa “centenas de milhões de dólares para semear a incerteza” sobre a mudança climática “para atenuar a preocupação pública a respeito”, disse Robert Repetto em entrevista à IPS.

Mohammad Yunus. - Marwaan Macan-Markar/IPS

Mohammad Yunus. - Marwaan Macan-Markar/IPS

A IPS conversou com este economista ambiental sobre seu livro “America’s Climate Problem: The Way Forward” (O problema climático dos Estados Unidos: como seguir adiante”, publicado em fevereiro pela editora britânica Earthscan.

IPS: Porque escreveu este livro?

ROBERT REPETTO: Estamos ficando sem tempo. As últimas descobertas científicas mostram que a mudança climática ocorre mais rapidamente e apresenta maiores riscos do que se acreditava. Corremos o risco de disparar reações que levem a uma mudança climática incontrolável. Enquanto isso, os Estados Unidos encontram-se em ponto morto em matéria de políticas climáticas. Pouquíssimos integrantes do público compreendem os riscos reais que a mudança climática apresenta. A maioria não entende o que está acontecendo agora. Não associam os eventos meteorológicos extremos que experimentamos com a mudança climática. Assim, não reclamam medidas por parte dos políticos.

IPS: Por que o senhor escreveu que a maioria dos norte-americanos não entende que a mudança climática já está ocorrendo e acarreta sérios riscos?

RR: Os interesses do setor das energias fósseis (petróleo, carvão, gás natural) estão despejando centenas de milhões de dólares para semear dúvidas e incerteza a fim de atenuar a preocupação pública e fornecer uma fachada aos políticos que financiam. Nos Estados Unidos existe um esforço muito concertado por parte dos interesses das energias fósseis que financiam “grupos de especialistas” de direita e libertários, como o Competitive Enterprise Institute, para criar uma atmosfera de dúvida e incerteza, como fizeram as companhias de cigarro com relação aos prejuízos à saúde do hábito de fumar.

IPS: O senhor escreve que o fato de o Congresso dos Estados Unidos não ter abordado a mudança climática reflete o fracasso mais amplo de uma democracia norte-americana corrompida pelo dinheiro.

RR: Os estudos mostram que o gasto político das corporações tem maior retorno potencial em matéria de investimentos para empresas e organizações com interesses afetados pela ação parlamentar. O senador republicano James Inhofe, um poderoso e tradicional opositor da ação contra a mudança climática, recebeu US$ 768 mil em contribuições de interessados dos setores de mineração e de fontes fósseis durante o Congresso (Legislativo) 110. Os interesses das energias fósseis lutam para preservar seus mercados. O que mais se pode fazer com o carvão a não ser queimá-lo? As ferrovias também ganham muito dinheiro transportando carvão.

IPS: Por que as pessoas elegem representantes que não representam seus interesses?

RR: O público não é realmente consciente do que ocorre em Washington. Não se sente comprometido com o processo político e existe um descontentamento generalizado com os políticos. As pessoas sentem que seus representantes não estão agindo em favor do interesse público, e têm razão. Mudar isto não é fácil. Durante as eleições, os gastos dos senadores e representantes em exercício superam por três a um o de seus adversários, e acabam sendo reeleitos mandato após mandato. Na campanha pela reeleição de um senador, gasta-se mais de US$ 5 milhões.

IPS: O governo de Obama disse que a mudança climática representa “um perigo claro e presente”, mas adotou poucas medidas a respeito em dois anos de gestão. O que o governo pode fazer quando a Câmara de Representantes acaba de votar para eliminar todo financiamento destinado ao Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC)?

RR: É muito improvável que haja um projeto de lei sobre clima nos Estados Unidos. Entretanto, se o governo Obama escolher agir, poderá fazer muito em matéria regulatória. A aplicação de normas ambientais relativas à mineração de carvão foi incrivelmente frouxa no governo de George W. Bush e os custos do dano ambiental acabaram sobrecarregando o público norte-americano. Normas mais severas e uma aplicação mais rígida das mesmas farão com que o carvão seja uma fonte energética menos atraente do que as opções alternativas. O público é muito partidário da proteção ambiental.

IPS: Os que se opõem a uma ação contra a mudança climática afirmam que esta prejudicará os postos de trabalho e a economia.

RR: Esse é um argumento falso. Todas as análises econômicas sérias mostram o oposto. Mudar para fontes de energia verde significará mais trabalho e economia mais sã. As pessoas deveriam questionar por que as grandes corporações que não duvidam em aumentar os preços ou demitir seus trabalhadores estão preocupadas com a proteção dos postos de trabalho e pela estabilidade dos preços que financiam grupos de especialistas e outras organizações para que criem falsas argumentações sobre e legislação climática.

IPS. O senhor afirma que o futuro dos Estados Unidos depende de uma transição para novas formas de energia. Pode explicar isso?

RR: A tecnologia básica de nossos automóveis tem um século, e nosso sistema elétrico alimentado a carvão é ainda mais antigo. Antes, boa parte de nossa energia procedia de moinhos de água, que 50 anos depois foram substituídos pelo vapor, para em seguida serem trocados pela energia elétrica. Durante cada transição houve pregadores de catástrofes afirmando que mudar seria muito perigoso. Não experimentamos uma transição energética em toda nossa vida, mas devemos passar para a energia verde no Século 21, com as renováveis e importantes aumentos na eficiência energética. A Europa possui 800 projetos eólicos e os Estados Unidos não têm nem um. Estamos ficando atrasados. Temos que acelerar a transição para a energia verde. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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