Agrava-se a crise humanitária na Costa do Marfim

Abdijan, Costa do Marfim, 10/03/2011 – A cada manhã, há mais de uma semana, levando bagagens nas costas, doentes em cadeira de rodas e bebês nos braços, milhares de pessoas fogem a pé do bairro de Abobo, no norte da capital da Costa do Marfim.

Milhares fogem da violência na Costa do Marfim - Fulgence Zamblé/IPS

Milhares fogem da violência na Costa do Marfim - Fulgence Zamblé/IPS

Cerca de 200 mil já fugiram, informou a Organização das Nações Unidas.

A maioria dos habitantes de Abobo é partidária de Alassane Ouattara, que, segundo observadores internacionais, é o legítimo vencedor das eleições de novembro passado. Foi onde mulheres que protestavam exigindo a saída de Laureng Gbagbo da Presidência foram violentamente atacadas no dia 3, e pelo menos seis foram assassinadas, segundo testemunhas.

As pessoas que não fugiram ficaram sem alimentos devido ao fechamento do comércio. O fornecimento de água e eletricidade foi cortado, e as escolas fechadas em todo o território. No Oeste, segundo organizações humanitárias internacionais, cerca de 65 mil marfinenses cruzaram a fronteira para a vizinha Libéria nas últimas duas semanas. Todas fogem da cada vez mais grave violência que eclodiu há dois meses entre os partidos rivais que se atribuem a vitória nas eleições do ano passado.

O Conselho Constitucional anunciou Gbagbo como ganhador, enquanto a Comissão Eleitoral Independente e a comunidade internacional reconheceram o triunfo de Ouattara.

“Passamos três noites sem dormir devido aos combates. É impossível encontrar comida”, disse à IPS Adrienne Tohoua, de 35 anos e mãe de quatro crianças. Ela abandonou sua casa em um precário complexo de moradias habitado por mais de 50 mil pessoas. “Deixamos para trás muitas pessoas que não sabiam para onde ir e certamente ficaram expostas aos combates. Disparos de morteiros caíram sobre as casas, e ninguém deve ter se salvado”, disse, com lágrimas nos olhos.

Trezentos marfinenses se refugiaram na paróquia de Saint-Ambroise de Cocody-Angré. Outros 500 já passaram por ela e se mudaram para outras localidades. A cada dia, refugiados fazem fila na estrada que leva a esse complexo religioso. “Tive que percorrer oito quilômetros para chegar aqui. Vou descansar um pouco antes de voltar para a estrada a fim de alcançar meu irmão mais velho, que já abriga 13 pessoas em sua casa”, contou Séraphin Téty, levando pela mão seu pai de 60 anos, que “sofre de hipertensão, por isso precisamos encontrar um posto de saúde para tratá-lo”, disse.

Muitos refugiados carecem de dinheiro para pagar transporte. “Tenho um pouco no banco, mas está fechado. Preciso mudar parte da minha família para a aldeia e não posso pagar”, disse Marcellin Tanoh. Ele contou que seu bairro, em Aniama, no noroeste de Abdijan, também carece de água, a ponto de sua família ter ficado sem banho durante dias. Três reservatórios que administravam estão quase vazios. A situação preocupa organizações humanitárias e defensores dos direitos humanos neste país da África ocidental.

No dia 1º deste mês, representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Abdijan estavam preocupados com o “êxodo maciço de cidadãos, em sua maioria mulheres e crianças”. A organização informou que muitas famílias ainda estavam presas em suas casas e não podiam abandonar a zona de combate a menos que pagassem ou entregassem bens pessoais aos grupos armados. Segundo a Cruz Vermelha, idosos, mulheres grávidas e doentes estão em situação difícil.

O chefe da delegação regional da organização, Phillippe Beauverd, disse que o grupo atendeu 34 pessoas e evacuou 19 seriamente feridas após os combates em Abdijan na última semana de fevereiro, entre as forças de segurança leais a Gbagbo e grupos armados não identificados.

“A situação é mais que deplorável. É a população inocente que paga o preço mais alto por uma disputa eleitoral”, disse Gergais Boga, presidente da Fundação Marfinense para os Direitos Humanos e a Vida Política, organização não governamental com sede na capital do país. “Estamos à beira de uma grave crise humanitária, e os diversos embargos impostos ao país, entre eles o de medicamentos, constituem um crime contra a humanidade”, acrescentou.

Enquanto isso, a União Africana prorrogou por um mês o mandato de um painel de chefes de Estado para buscar uma solução para a crise na Costa do Marfim. Envolverde/IPS

Fulgence Zamblé

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