Nações Unidas, 10/03/2011 – A campanha da sociedade civil pela abolição das armas nucleares pode reacender graças ao sucesso das revoltas populares no Egito e na Tunísia, seguidas pelas da Líbia, Bahrein, Iêmen e Jordânia “Os acontecimentos no Oriente Médio e Norte da África mostram o quanto é frágil a estabilidade quando são ignoradas as necessidades e os desejos do povo”, disse Hirotsugu Terasaki, diretor-adjunto do Escritório de Assuntos da Paz na organização Soka Gakkai International (SGI), com sede em Tóquio.
“Não há desejo mais natural do que o de se libertar da ameaça das armas nucleares. Isto é algo que a população mundial compartilha amplamente”, afirmou Hirotsugu. Consultado sobre qual papel a sociedade civil deve ter na campanha mundial para abolir os arsenais nucleares, respondeu à IPS que “a missão da sociedade civil é ter poder e ampliar as vozes dos cidadãos comuns para que possamos mobilizar os políticos do mundo, insistindo para que deem passos reais e significativos para a abolição das armas nucleares”.
Como a ameaça é tão vasta e onipresente, “precisamos de um novo modelo de liderança, a exercida pelas pessoas comuns que decidiram rejeitar a estabilidade da dissuasão, que em última instância depende da ameaça da aniquilação mútua”, enfatizou Hirotsugu.
A SGI é uma organização budista com 12 milhões de membros em 192 países e territórios e tem um papel ativo na campanha da sociedade civil para um mundo sem armas nucleares. Seu presidente, Daisaku Ikeda, um dos mais fortes defensores do desarmamento nuclear, descarta a teoria da “dissuasão nuclear” promovida pela maioria das potências nucleares do mundo.
As cinco potências atômicas “declaradas” são Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China e Rússia, enquanto as quatro “não declarados” são Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. “É necessário desafiar a fundo a teoria da dissuasão com base na qual se prevê a posse de armas nucleares: a presunção de que a manutenção da segurança se concretiza mediante um equilíbrio do terror”, afirmou Daisaku.
No mês passado, uma reunião da coalizão de pacifistas e organizações da sociedade civil em Santa Barbara, no Estado da Califórnia, Estados Unidos, desacreditou o tradicional mito da “dissuasão nuclear” e exigiu sua substituição por “um compromisso urgente para conseguir o desarmamento nuclear”. Em um comunicado, a coalizão disse que “a dissuasão nuclear é uma doutrina que os Estados nucleares e seus aliados usam para se justificarem pela contínua posse e ameaça de uso das armas atômicas”.
Uma declaração adotada pela coalizão diz o seguinte: “Convocamos as pessoas de todas as partes a unirem-se a nós para reclamar que os Estados nucleares e seus aliados rejeitem uma Convenção de Armas Nucleares rumo à paulatina, verificável, irreversível e transparente eliminação de todas as armas nucleares”. Entre os representantes da sociedade civil que participaram da reunião estavam Lawyers’Committee on Nuclear Policy, Nuclear Age Peace Foundation, Physicians for Social Responsibility e Disarmament and Security Centre.
No ano passado, os Estados-membros acordaram uma proposta para realizar uma conferência internacional sobre um Oriente Médio livre de armas nucleares, que está programada para 2012. Atualmente, e apesar de não admitir de modo oficial, Israel é a única potência nuclear dessa região e durante muito tempo foi amparada pelos Estados Unidos.
“Uma estabilidade regional duradoura no Oriente Médio é impensável sem a desnuclearização”, disse Daisaku, que reclama “condições propícias para as negociações com vistas a um Oriente Médio livre de todas as armas de destruição em massa”, entre elas as atômicas. As armas de destruição em massa também incluem as biológicas e químicas, que são proibidas pela Organização das Nações Unidas. a incerteza em torno da conferência de 2012 destaca a necessidade de realizar maiores esforços para criar as condições para o diálogo, destacou Daisaku.
O presidente da SGI propôs três passos para o objetivo do desarmamento nuclear. Primeiro, a necessidade de criar estruturas “dentro das quais os Estados que possuem armas nucleares avancem rapidamente para o desarmamento”. Segundo, a necessidade de prevenir “maior desenvolvimento ou modernização das armas nucleares”. E, terceiro, a necessidade de tornar ilegal de um modo amplo “estas armas desumanas mediante uma Convenção de Armas Nucleares”.
Quando a IPS lhe perguntou o quanto seria efetiva uma campanha mundial, particularmente com vista à crescente indiferença para uma convenção internacional que proíba as armas nucleares, Terasaki respondeu que as pessoas não podem ser indiferentes a estes arsenais, porque ameaçam as vidas e a própria existência do mundo. A pergunta real “é se esta indiferença será quebrada por uma sabedoria humana proativa ou pela esmagadora tragédia e horror. Nosso trabalho como organização da sociedade civil está dedicado a garantir que ocorra o primeiro”. Envolverde/IPS

