Beirute, Líbano, 22/03/2011 – O uso de mercenários procedentes da África subsaariana por parte do regime de Muammar Gadafi na Líbia reacendeu o profundo racismo arraigado na população árabe. Embora a maioria negue sua existência, a discriminação é comum nesse país, não apenas contra os imigrantes negros, mas também contra os próprios líbios de pele mais escura, especialmente do sul.
“Diante deste panorama, é preciso estar alerta diante dos rótulos de ‘mercenários africanos” ou “mercenários africanos negros’, que estão sendo usados”, disse à IPS o diretor-executivo do Centro Afro-Oriente Médio, de Johannesburgo, Na’eem Jeenah. “Sem dúvida, Gadafi usou no passado mercenários de outras partes da África, e nossa informação é que alguns deles provavelmente estejam envolvidos na atual situação”, acrescentou. “Naturalmente, os mercenários são muito uteis porque as forças regulares incluem conscritos que podem rapidamente abandonar suas fileiras e unirem-se aos rebeldes. Os mercenários trabalham por dinheiro e não têm escrúpulos em matar”, afirmou.
Dos cerca de 2,5 milhões de refugiados e imigrantes subsaarianos na Líbia, metade tem trabalho mal pago no setor petroleiro, na agricultura, construção e em outros setores de serviços. Não é a primeira vez que os imigrantes são vítimas de racismo na Líbia. Em 2000, dezenas de trabalhadores procedentes de Burkina Faso, Camarões, Chade, Gana, Níger, Nigéria e Sudão foram assassinados nas ruas dentro de uma campanha do governo contra o crime, as doenças e o tráfico de drogas.
Na oportunidade, o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial expressou sua preocupação. Em 2004, acusou Trípoli de violar o artigo 6 da Convenção Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, de 1969, e de não implementar mecanismos adequados para salvaguardar os indivíduos de atos racistas que violam dos direitos humanos. “Também é possível que muitos identificados como mercenários africanos sejam, na realidade, líbios de pele escura. É mais fácil para as pessoas projetarem seus problemas nos estrangeiros do que em seu próprio povo”, disse Jeenah.
O caso de Karim, um africano-libanês, é um exemplo. Quando viajava de ônibus com sua mãe africana de volta a Beirute, após visitar seus parentes na Líbia, o veiculo foi parado em um posto de controle militar. Os soldados entraram e exigiram documentos de todos os passageiros. Enquanto procurava o seu, Karim foi detido. Durante várias horas foi vítima de contínuos abusos físicos e verbais. Nenhum soldado se preocupou em ver sua identidade. “Só depois que minha mãe gritou para que chamasse um familiar conhecido no exército foi que os soldados deixaram de me maltratar e olharam meus documentos”, disse à IPS.
Mas, especialistas dizem que o racismo não é confinado à Líbia, estando presente em todo mundo árabe, e com raízes históricas no comércio de escravos durante a colonização europeia da região. Em seu estudo “Percepções de raça no mundo árabe”, Mark Perry diz: “O passado e o atual tráfico de escravos no mundo árabe deixa uma amarga marca na sociedade africana hoje em dia. A África negra foi a primeira fonte de escravos e o último grande reservatória a esgotar”.
Enquanto o mundo celebra o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, este ano dedicado aos afrodescendentes, os levantamentos no mundo árabe deveriam incluir uma transformação social para por fim ao racismo e à xenofobia, e vincular a população negra com o regime de Gadafi na Líbia pode derivar em um genocídio se o líder for derrotado, alertaram especialistas. Envolverde/IPS

