NAIROBI, 23/05/2011 – Os países da África Subsariana reclamaram nove dos dez últimos lugares de uma classificação de saúde materna em todo o mundo. “O Índice das Mães”, um novo estudo sobre a maternidade efectuado pela organização Save the Children, analisa as condições económicas, de saúde e educação de mulheres e crianças em 164 países. “Ironicamente, é ao dar à luz – e nascimentos múltiplos, aliás -, que a mulher se aproxima do ideal da esposa,” afirma Kolorinda James, parteira tradicional em Jubba, no Sul do Sudão. “Os filhos são considerados sinal de riqueza. É o caso do contúudo ter muito mais valor do que o recipiente – uma vez que milhares de mulheres nesta região continuam a morrer de complicações associadas à gravidez.”
Factores contributivos
Todos os anos ocorrem cerca de 250.000 mortes matenas em África. Há diversos factores que tornam o parto em África tão perigoso. Milhões de casamentos prematuros e gravidezes na adolescência traduzem-se em partos mais arriscados para as jovens cujos corpos ainda não estão suficientemente desenvolvidos para resistirem ao rigor do parto.
Os sistemas de súde em África revelam-se inadequados para satisfazerem as necessidades das mulheres grávidas, a maioria das quais dá à luz sem estar presente qualquer profissional de saúde qualificado.
Por todo o continente, particularmente nas zonas rurais, os hospitais ou clínicas com parteiras qualificadas ou médicos e instalações médicas para lidar com complicações muitas vezes encontram-se muito longe. A ausência de boas estradas e de transportes – assim como o custo dos transportes – significa que é pouco provável que uma mulher grávida consiga ajuda a tempo.
O custo também é um factor para as mulheres e suas famiílias – mesmo nos hospitais públicos altamente subsidiados, o custo de dar à luz pode ficar fora do alcance de uma mulher que vive com um ou dois dólares por dia. Muitas decidem dar à luz em casa, sem ajuda, ou com a ajuda de uma parteira sem formação, cuja remuneração módica pode ser paga em espécie, com produtos agrícolas, por exemplo.
“Devido a diversos factores como fracas infra-estruturas, a maioria das mulheres dá à luz em casa sem assistência professional, o que em muitos casos conduz a mortes porque, caso surja alguma complicação como hemorragia excessiva, a mulher morre,” diz Ousmane Hadari, consultor de saúde reprodutiva no Níger.
No Níger, os factores culturais também levam muitas mulheres a optarem por dar à luz em casa, independentemente do risco. “Tem havido uma tendência para muitas mulheres visitarem clínicas de apoio pré-natal – de facto, a percentagem de grávidas que vão a esses serviços tem subido em muitos países – mas a maioria prefere dar à luz em casa por razões culturais.”
O dar à luz em casa é considerado uma prova da coragem da mulher face à dor, diz Hadari, acrescentando que as mulheres preferem dar à luz em casa para poderem seguir o hábito de enterrar a placenta pouco depois do parto.
James afirma que os factores culturais se aplicam também no Sul do Sudão. “Para muitas mulheres, o pensamento de terem assistência no parto de um profissional de saúde do sexo masculino é tabú.”
Parteiras tradicionais Mas a falta de parteiras tradicionais experientes constitui um grande problema. James é uma das cerca de 2.000 parteiras tradicionais registadas pelo Ministério da Saúde do Sul do Sudão que formam o reduzidíssimo apoio aos partos numa população de 10 milhões de habitantes. Estas parteiras tradicionais não têm habilitações formais, mas James observa que possuem uma vasta experiência de partos adquirida ao longo de anos de prática. As parteiras tradicionais têm a confiança das mulheres da comunidade, acrescentando que estão a envidar-se esforços no sentido de as integrar no sistema de saúde como forma de atrair mais mulheres aos hospitais para darem à luz.
“Estamos registadas porque não trabalhamos numa situação ideal. Há uma grave falta de enfermeiras e parteiras qualificadas: que outras opções existem para além de nós?” pergunta James.
As parteiras tradicionais continuam a ser indispensáveis num país onde, segundo a Direção de Enfermagem e Obstetrícia, há pouco mais de mil enfermeiros – e apenas 40 por cento têm um diploma que indica conhecimentos básicos de obstetrícia.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que esteja presente uma parteira tradicional em cada parto, mas no Sul do Sudão há apenas 10 enfermeiras para cada 100.000 partos e somente quatro enfermeiras registadas com as habilitações adequadas para cada milhão de nascimentos.
O Ministério da Saúde do Sul do Sudão aponta 2.037 mortes maternas por cada 100.000 nascimentos. Hadari explica que o Níger não tem uma situação muito melhor.
“O panorama não é muito diferente no Níger, que tem uma taxa de mortalidade e de morbidade materna impressionante, particularmente entre as mulheres de zonas rurais e especialmente as que têm pouca ou nenhuma educação e, consequentemente, rendimentos baixos ou inexistentes.”
O Níger ficou classificado em 163ª poição no Índice da Maternidade Segura, com 1.800 mortes por 100.000 nascimentos. Uma em cada sete mulheres no Níger morre de complicações associadas à gravidez.
Modelos bem sucedidos
Estão em curso em todo o continente iniciativas para melhorar a saúde materna, num esforço para cumprir os compromissos dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio no sentido de reduzir a mortalidade materna em três-terços comparado com os níveis de 1990. É pouco provável que muitos países satisfaçam a meta até 2015, mas existem alguns modelos positivos.
Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde referente a 2010, a mortalidade materna baixou 25% na última década, para 560 por 100.000 nascimentos. O Gana conseguir estas taxas através da reorganização da formação, acrescentando agora 500 novas parteiras todos os anos ao mercado de trabalho. O governo também fez esforços no sentido de colocar profissionais de saúde em zonas com as piores estatísticas de saúde materna.
Moçambique representa outra história de sucesso. Os dados nacionais de saúde do país indicam que as mortes maternas baixaram de 1.000 por 100.000 nascimentos na década de 90 para 473 por 100.000 em 2007. Este sucesso assentou na criação de “casas de espera”, que permitem que as grávidas em risco se desloquem para uma casa temporária perto de um hospital local a fim de facilitar um rápido acesso a cuidados de saúde especializados depois de começar o trabalho de parto.
À medida que nos aproximamos de 2015, estas e outras medidas precisarão de ser adoptadas e adaptadas no continente se se pretender alcançar os ODM.
Embora a situação no Sudão seja má, o país pode estar a avançar na direcção certa com o desenvolvimento contínuo dos cuidados maternos no Hospital Universitário de Juba, onde ocorre uma iniciativa para formar mais enfermeiras e parteiras.
Janet Michael, do Ministério de Saúde do Sul do Sudão, afirma que se está a colocar a tónica na “necessidade de parteiras tradicionais qualificadas, elevada taxa de utilização de contraceptivos, melhores infra-estruturas de modo a promover o acesso das mulheres que precisam de serviços baseados em vários instituições e um orçamento que possa suportar estas iniciativas.”

