Ambiente: Grande geleira da Groelândia está derretendo em ritmo acelerado

Toronto, 25/07/2005 – O derretimento na Groelândia de uma das maiores geleiras do mundo sofreu repentina aceleração. Como conseqüência, enormes quantidades de gelo e água acabam elevando o nível mundial do mar no norte do oceano Atlântico. Depois de 40 anos de estabilidade, a geleira Kangerdlugssuaq, no sudeste da Groelândia, se transformou em uma das que se dissolve com maior velocidade, disse o especialista em geleiras Gordon Hamilton, da Universidade de Maine, nos Estados Unidos. Hamilton realizou as primeiras medições diretas na superfície da geleira no dia 18 de julho, e descobriu que se move à velocidade de 38 metros por dia, ou 14 quilômetros ao ano, três vezes mais rápido do que em 2002, quando especialistas da Nasa a estudaram desde um avião.

"O aceleramento nos deixou preocupados", disse Hamilton à IPS desde o navio Arctic Sunrise, pertencente à organização ambientalista Greenpeace Internacional, quando navegava diante da costa da Groelândia. A geleira Kangerdlugssuaq, além disso, retrocedeu inesperadamente cinco quilômetros desde 2002, depois de ter uma posição estável nos últimos 40 anos. "Ninguém observou nada semelhante a estas mudanças antes", afirmou o especialista. O aquecimento do planeta elevou a temperatura do sul da Groelândia na década passada, derretendo o cume das geleiras na região e criando grandes lagos, acrescentou Hamilton.

Mas os lagos que cobriam a Kangerdlugssuaq desapareceram em 2002. As fendas da geleira, ao que parece, fizeram escorrer água para o fundo, onde age como lubrificante e acelera o rumo do fluxo para o oceano, explicou. "Na medida em que o calor migra para o norte, as geleiras nessas latitudes da Groelândia podem responder da mesma maneira que a Kangerdlugssuaq", acrescentou o cientista. Se as condições que criaram este acelerado derretimento ocorrerem em outros lugares, o nível do mar de todo o mundo aumentará com mais rapidez do que a prevista, ressaltou. De fato, em todo o planeta as temperaturas aumentam e as geleiras derretem muito mais rapidamente do que antes. No último outono boreal, um grupo de cientistas constatou o aceleramento do derretimento da maior geleira da Groelândia, a Jakobshwvn Isbrae.

Estudos feitos a partir de dados fornecidos por satélites indicam que o processo começou há cerca de oito anos, depois de meio século de estabilidade. Hoje, a geleira avança 13 quilômetros por ano, e um volume de gelo correspondente a 10 quilômetros acaba no oceano Atlântico. Uma tendência semelhante foi constatada na Antártida, onde as pesquisas científicas identificaram pelo menos seis geleiras que tiveram seu derretimento acelerado. A que sofre degradação mais rapidamente, a geleira Pine Island, contém gelo suficiente para elevar em um metro o nível mundial do mar. Há cercas de 15 dias, cientistas norte-americanos asseguraram que o nível do mar havia subido 2,54 metros desde 1995, o dobro da velocidade dos 50 anos anteriores. Se a situação continuar inalterada, o nível do mar terá aumentado entre 30 e 40 centímetros no final deste século, causando generalizadas inundações e erosão de ilhas e áreas costeiras baixas.

Os especialistas atribuem a maior parte da subida do mar ao derretimento dos gelos. E a Terra tem muito gelo. As geleiras contêm aproximadamente 75% da água doce do planeta. Se todos os gelos terrestres derretessem, o nível do mar aumentaria cerca de 70 metros em todo o mundo, segundo a Administração Nacional oceânica e Atmosférica do Canadá (NOAA). Se a camada de gelo da Groelândia derretesse, o nível do mar no planeta subiria aproximadamente sete metros. "Precisamos de muito mais pesquisas sobre outras geleiras da Groenlândia para nos mantermos a par do processo", afirmou Hamilton. Com métodos de medição de alta precisão, isso é relativamente fácil. Com um bom piloto de helicóptero que possa pousar em pontos perigosos, pode-se fazer a medição de maneira bastante rigorosa em apenas uma hora, explicou o cientista.

As medições diretas da geleira Kangerdlugssuaq são conseqüência de alguns golpes de sorte e do fato de o navio do Greenpeace ter espaço livre em sua expedição à Groelândia. "Nosso trabalho é completamente independente. A equipe do Greenpeace é muito profissional", afirmou Hamilton. As medições de outras geleiras da ilha mais ao norte mostraram pequenas mudanças, o que se previa porque as temperaturas na superfície não aumentaram tanto nessa área, explicou. O aumento do calor em regiões temperadas de todo o mundo já provocou o derretimento de geleiras de montanha na América do Norte e do Sul, na Ásia, África e na Europa, afetando inclusive as montanhas mais altas do mundo, as da cordilheira do Himalaya. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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