SUDÃO DO SUL: As vítimas silenciosas

Yuba, Sudão do Sul, 13/07/2011 – Ativistas humanitários pedem que as novas autoridades do Sudão do Sul cuidem do endêmico e devastador problema da violência contra as mulheres, tolerada neste país, oferecendo capacitação em direitos femininos, especialmente aos soldados.

Soldados são acusados de graves violações dos direitos humanos contra as mulheres no Sudão do Sul. - Protus Onyango

Soldados são acusados de graves violações dos direitos humanos contra as mulheres no Sudão do Sul. - Protus Onyango

“Trabalhei com muitas mulheres e meninas vítimas de violência, que apanhavam de seus maridos ou foram violentadas por soldados rebeldes e sofrem em silêncio”, Loise Joel, responsável da organização Direitos Humanos para os Vulneráveis, no Estado de Equatoria Central, no Sudão do Sul.

Após 21 anos de guerra civil, é fundamental que o novo governo, que assumiu no dia 9, acelere os julgamentos por graves violações de direitos humanos, para dar esperanças aos sobreviventes. “A violência contra as mulheres é um problema perverso, devastador e tolerado neste país. É um legado da brutal guerra civil, durante a qual foi moeda corrente. A ajuda às sobreviventes é escassa”, afirmou Susan Purdin, supervisora de programas da Comissão Internacional de Resgate no Sudão do Sul.

As ameaças não desaparecem com a independência, pois continuam os confrontos étnicos e tribais. O próprio exército do Sudão do Sul é conhecido por seus métodos violentos para combater os rebeldes. “O Sudão do Sul nasceu em crise. A violência obriga o deslocamento de pessoas, coloca em perigo a vida dos civis vulneráveis, dificulta o acesso às comunidades mais necessitadas e a crise humanitária se agrava”, destacou Purdin.

Anim Yei foi sequestrada por soldados rebeldes, que a obrigaram a viver dois anos na selva, onde a violaram repetidas vezes. Segundo Purdin, o governo deve criar um tribunal para reunir informação sobre violações de direitos humanos contra as mulheres e punir os culpados. “É desumano falar sobre o que aconteceu comigo e outras pessoas vítimas da violência reinante em nosso país. O governo precisa criar uma comissão que garanta a segurança das vítimas para podermos falar sem medo”, afirmou Yei.

Ela não é a única. De todas as mulheres com as quais Louise Joel trabalhou, a maioria tem medo e não denuncia os abusos. “Temem represálias de seus maridos ou dos soldados. A sociedade também as despreza. É preciso explicar que são violações dos direitos humanos e que há tribunais para processar os responsáveis”, afirmou.

A violência de gênero é extremamente frequente no Sudão do Sul e a maioria das vítimas sofre em silêncio, afirma um estudo feito por Leora Ward, da Unidade de Proteção de Mulheres e Empoderamento Técnico, da Comissão Internacional de Resgate. Quase 52% das vítimas não apresentam denúncia. Há mais registros de abuso psicológico, 31% dos casos, seguido de violência física, 29%.

O estudo diz que a violência contra as mulheres também é resultado de enfrentamentos tribais e furto de gado. “O assassinato de mulheres e meninas costuma motivar represálias e deixar mais vítimas”, disse Ward. Contudo, agora acrescenta-se “o alto custo do dote”, acrescentou. Os homens que não podem pagar a quantia solicitada violam uma mulher para poderem casar com ela. O descontentamento pelo custo do dote os leva a tratarem suas mulheres como objeto de sua propriedade e a bater nelas, acrescentou.

Os problemas de segurança têm origem na violência econômica, no casamento precoce ou forçado, na violação conjugal, nas agressões conjugais e nos enfrentamentos tribais, diz o estudo da Comissão Internacional de Resgate. Há, ainda, uma carência generalizada de centros de saúde para as vítimas e as clínicas existentes não podem atender de forma adequada violações, gravidez não desejada e infecções com vírus HIV (causador da aids).

O governo deve prevenir, dissuadir e responder à violência e às ameaças contra as mulheres, disse Purdin. “São necessárias leis específicas para protegê-las. A educação feminina deve ser prioritária para que elas possam integrar o desenvolvimento comunitário do novo país. Isso permitirá diminuir a desigualdade de poder entre homens e mulheres”, acrescentou. “Temos casos de soldados que invadem as casas, levam as jovens, as violentam e as transformam em suas mulheres”, contou Lillian Omariba, diretora regional de mídia do Plano Internacional, organização que há sete anos trabalha no Sudão do Sul. Envolverde/IPS

Protus Onyango

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