REPORTAGEM: Uma marco de concreto na selva central da Bolívia

LA PAZ, Bolívia, 06/09/2011 – (Tierramérica).- As selvas do Território Indígena do Parque Nacional Isiboro Sécure estão prestes a serem atravessadas por uma estrada.

Vitória-régia (Victoria amazonica) na planície de Moxos, Bolívia - Photostock

Vitória-régia (Victoria amazonica) na planície de Moxos, Bolívia - Photostock

Uma floresta de enorme riqueza natural com superfície igual a de três mil campos de futebol no centro da Bolívia será a primeira vítima da estrada projetada pelo governo, que passará pelo Território Indígena do Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis). É o que afirmam defensores do meio ambiente, que também temem a expansão de cultivos de coca nessa selva virgem fechada entre os rios Isiboro e Sécure.

Suas florestas e savanas se estendem desde a planície de Moxos, no departamento de Beni, até as serras subandinas de Cochabamba, com diferentes pisos ecológicos, que vão de planícies a áreas a 2.700 metros de altitude. A estatal Administradora Boliviana de Estradas (ABC) estimou, em setembro de 2008, um orçamento de US$ 3,8 milhões para desmonte, limpeza de açudes e de terra em uma extensão de 1.530 hectares da floresta.

A estrada terá 306 quilômetros entre Villa Tunari, no central departamento de Cochabamba, e San Ignacio de Moxos, em Beni, com largura de 7,30 metros, acostamento de dois metros em cada lado e um tipo de asfalto de tratamento superficial duplo. O trecho através do Tipnis, de 177 quilômetros, exige uma licença ambiental que ainda não foi expedida. Com custo de US$ 415 milhões, 80% financiados pelo Brasil, o principal argumento do governo é integrar 1,7 milhões de habitantes de Cochabamba e Beni e concretizar um corredor internacional para o tráfego de mercadorias do Brasil para o Oceano Pacífico.

Para a analista ambiental Teresa Flores, esse elevado custo anuncia o “uso de grandes insumos como concreto, ferro e a operação de máquinas pesadas para desmatar, com altos impactos”, disse ao Terramérica. Os riscos para a região, com 714 espécies de fauna e 3.400 de flora, são enormes, disse ao Terramérica o ex-senador pelo governante Movimento ao Socialismo, Gastón Cornejo. Pela estrada ingressarão projetos para desenvolver biocombustíveis e transgênicos, herbicidas e componentes químicos para processar a maconha e a cocaína, o que também fará aumentar a criminalidade e a insegurança, acrescentou.

Uma análise do Fórum Boliviano sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, ao qual o Terramérica teve acesso, compara o efeito da estrada com o da “passagem de um tornado destruindo tudo que estivesse em seu caminho, com o antecipado desaparecimento das 64 comunidades que habitam o Tipnis”, compostas por cerca de 15 mil pessoas das etnias moxeña, yuracaré e chimán.

A Bolívia é um dos países que mais desmatam no mundo, à razão de 320 metros quadrados anuais por pessoa, cerca de 20 vezes mais do que a média mundial estimada em 16 metros quadrados por pessoa ao ano, segundo a coordenadora de Biocomércio Sustentável da Fundação Amigos da Natureza, Andrea Urioste. A cada ano, perde-se aproximadamente 130 mil quilômetros quadrados de florestas tropicais no mundo, uma área semelhante à da Nicarágua, recordou Andrea.

A Bolívia “não reconhece a posição que ocupa como um dos países com as maiores taxas de desmatamento per capita do mundo” e carece de “uma proposta real” para “avançar em um verdadeiro plano de desenvolvimento sustentável”, afirma a coordenadora da Fundação no texto “Desmatamento na Bolívia: Uma Ameaça Maior à Mudança Climática”, publicado em setembro de 2010. Em maio, a representante das Nações Unidas na Bolívia, Yoriko Yasukawa, afirmou que, “embora a Bolívia não seja um dos grandes culpados pelo aquecimento global, tampouco cremos que apoia suficientemente a redução de emissões, se pensarmos que todos os anos são destruídos no país 300 mil hectares de floresta”.

Para Teresa Flores, a estrada representa “uma abertura para a colonização e o plantio de coca”. O governo concedeu terras aos cultivadores do vegetal no departamento de Pando (norte), mas, segundo a analista, a concentração de alcaloide nas plantas dessa área é menor e por isso os produtores têm os olhos voltados para o Tipnis. Cultivo de coca para usos cerimoniais e alimentares é legal na Bolívia, mas há extensas áreas plantadas com fins ilegais.

No dia 28 de setembro de 2009, funcionários do Serviço Nacional de Áreas Protegidas e dirigentes indígenas denunciaram a presença no Tipnis de pessoas com armas de fogo, presumivelmente vinculadas ao narcotráfico, às quais foram atribuídas ações violentas que terminaram com um morto e dois feridos. Um dia depois, o então vice-ministro de Terras, Alejandro Almaraz, disse suspeitar que os assentamentos de colonos e as plantações de coca se relacionavam com o narcotráfico e que havia entre quatro mil e cinco mil hectares plantados com coca ilegais na reserva. Em 2 de fevereiro de 2010, Almaraz renunciou ao cargo e hoje é um dos ativistas contra a estrada.

Os produtores de coca consideram “legítimo” despojar os indígenas de suas terras baixas porque os veem como “selvagens” e, portanto, sem capacidade para produzir alimentos, disse Teresa Flores. De fato, o avanço da produção de coca na zona tropical de Cochabamba, especialmente no Chapare, obrigou o povo yuracaré a deixar terras agora cobertas de coca e se refugiarem no Tipnis, recordou a analista ambiental. “O impacto não é apenas ambiental, é cultural”, acrescentou.

O governo acredita que a estrada permitirá combater as irregularidades e acertar entre todas as partes a preservação do território, disse ao Terramérica o secretário-geral da ABC, Antonio Mullisaca. Contudo, ainda não houve uma consulta prévia sobre o projeto com as comunidades indígenas, prevista na Constituição e em várias leis, e esse mecanismo não está regulamentado.

Na opinião do ex-ministro da Presidência e diretor da estatal Agência para o Desenvolvimento de Macrorregiões e Zonas Fronteiriças, Juan Ramón Quintana, a marcha contra a estrada, que cerca de mil indígenas amazônicos realizam com destino a La Paz, é incitada por organizações não governamentais que defendem uma política ambiental do mundo desenvolvido. Quintana, major da reserva e homem de confiança do presidente Evo Morales, acusou inclusive a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) de promover a caminhada, de 600 quilômetros, para criar um ambiente de desestabilização, e propôs expulsá-la do país, mas o governo não aderiu a essa sugestão

* * O autor é correspondente da IPS.

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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