Lisboa, 12/08/2005 – Quando o sul da Europa arde no verão, a fatura maior é paga por Portugal, onde as áreas verdes queimadas superaram em 24 vezes as da França, quatro as da Espanha e triplicam as da Grécia e Itália. Esta alarmante conclusão consta de um relatório da União Européia, divulgado na quarta-feira, na sede comunitária de Bruxelas, que analisa, em especial, o caso de Portugal, o único país do sul deste continente que nos últimos 25 anos aumentou a média anual de florestas consumidas pelo fogo. Os números divulgados pela Comissão da UE mostram que de janeiro até 31 de julho, 60% das florestas que queimaram nesses cinco países do sul da Europa ficavam em território português.
Pelos números se depreende, também, que este ano em Portugal foi queimado o dobro da área florestal do que na vizinha Espanha, cujo território é 5,6 vezes maior e que enfrenta igualmente uma situação de seca extrema. Na primeira semana deste mês, o sul da península Ibérica registrou temperaturas de até 45 graus e no mais frondoso centro de Portugal chegou à faixa entre 39 e 43 graus, provocando os priores incêndios do ano, que devastaram várias aldeias do parque natural Serra da Estrela. Portugal é o único país com menor êxito no combate a incêndios florestais, sendo o único membro da UE onde, em 2004, queimaram mais áreas verdes do que a média anual desde 1980, diz o relatório da União Européia, que também inclui Espanha, França, Grécia, Itália, nos quais em 2004 o total de área queimada foi inferior à média dos últimos 25 anos.
A superfície queimada em Portugal torna-se mais alarmante se for considerado que seu território continental, sem contemplar os arquipélagos atlânticos de Açores e Madeira, é de 89 mil quilômetros quadrados, contra 550 mil da França, 504 mil da Espanha, 301 mil da Itália e 131 mil da Grécia.
A análise dos progressos na luta contra os incêndios florestais indica que na Itália e Grécia a totalidade de área queimada no ano passado foi quase a metade da média dos últimos 25 anos, a França conseguiu reduzi-la em quase dois terços e a Espanha em 30%. Por sua vez, Portugal registrou aumento, com sua área verde devastada em cinco anos correspondendo a 37% do total dos incêndios ocorridos nos cinco países da Europa meridional nesse período, e o número de incêndios constitui 41% do conjunto.
A Espanha, que ocupa 85% da Península Ibérica compartilhada com Portugal, no período contemplado pelo estudo queimou 39% do total da área florestal afetada pelos incêndios ocorridos nos cinco países, na Itália foram 17%; na França 4% e na Grécia 3%. Em número de incêndios, "Portugal tem sete vez mais incêndios por mil hectares do que a Espanha, 20 vezes mais do que a França, sete vezes mais do que a Itália e 22 vezes mais do que a Grécia", diz, por sua vez, a organização não-governamental Liga para a Proteção da Natureza (LPN), ao analisar os dados da UE. Nos últimos cinco anos, Portugal perdeu 25% de sua reserva verde. Em 2003, o fogo consumiu 424 mil hectares e no ano passado a área queimada chegou a 131 mil hectares.
Entre 1º de janeiro e 31 de julho, o governo indicou que o fogo destruiu mais de 70 mil hectares, com prejuízo econômico equivalente a 1,5% do produto interno bruto e de 130,033 bilhões de euros, equivalentes a US$ 160,6 bilhões no câmbio do último dia do mês passado. Por sua vez, a União Européia afirma que nesse período foram afetados pelas chamas, em Portugal, cerca de cem mil hectares. Entretanto, nesta quinta-feira à tarde, o próprio ministro português do Interior, Antonio Costa, admitiu perante uma comissão de investigação do parlamento que a área queimada aumentou e, na noite de quarta-feira, chegou a 119 mil hectares.
Esse número contrasta com os divulgados até agora pela também estatal Direção Geral de Recursos Florestais (DGRF), que contabiliza somente 68.166 hectares queimados este ano. A diferença se deve ao método de medição: enquanto a Comissão da UE o faz através de imagens fornecidas por satélite, que são analisadas diariamente, a DGRF mede a área queimada com visitas ao local, o que causa uma lentidão no processamento dos dados. Agora, do começo de 2001 até julho deste ano, Portugal perdeu 820 mil dos 3,4 milhões de hectares que compunham seu área florestal.
O elevado índice de incêndios em Portugal se deve, sobretudo, à falta de educação e à escassa intervenção do governo no combate à negligência, segundo a LPN, uma organização não-governamental fundada em 1948, sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública. A LPN foi a primeira associação de defesa do meio ambiente criada em Portugal e tem como principais objetivos a conservação do patrimônio natural, da diversidade das espécies e dos ecossistemas. "O clima, a quantidade de combustíveis florestais e o sistema de detecção e combate não são justificativas para as diferenças entre Portugal e o restante da Europa", diz a organização, que, a seguir, recorda que os outros dois países citados no relatório "têm uma área florestal e população muito superiores".
Para evitar atividades de alto risco, como queima de lixo agrícola, a LPN afirma que é necessário sensibilizar as pessoas. "O que foi feito neste campo foi muito pouco", afirmam os ambientalistas. Por sua vez, o presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, Duarte Caldeira, lamentou em declarações à imprensa, nesta quinta-feira, que os demais países (incluídos no estudo) aprenderam com seus próprios erros e não se perderam em discussões estéreis". Portugal, no entanto, "fez exatamente o contrário, usando o problema dos incêndios como arma de ataque político-partidário, ao que se une uma falta de coragem para colocar em prática a legislação existente", reclamou Caldeira. (IPS/Envolverde)"

