Zimbábue: A vez da sociedade civil

Johannesburgo, 18/08/2005 – A crise política e econômica que vive o Zimbábue, há cinco anos, coloca em xeque o papel da sociedade civil africana para ajudar o país a enfrentar seus problemas. Tapera Kapuya, um ex-líder estudantil que agora vive na África do Sul, acredita que as organizações civis em toda a África austral estão assumindo os desafios que o Zimbábue enfrenta. "Hoje existe um conhecimento cada vez maior em relação a dois ou três anos atrás", disse à IPS este estudante de Direito na Universidade de KwaZulu-Natal, na cidade de Durban, e secretário para a África da União Internacional de Estudantes. Em 2001, ele foi expulso da Universidade do Zimbábue, preso e torturado.

"Cada vez há maior consciência de que não foi o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, quem arrasou as casas das pessoas. Não foi o presidente norte-americano, George W. Bush, quem torturou no Zimbábue", acrescentou Kapuya. O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe (no poder desde 1980) acusa governantes ocidentais, especialmente Blair e Bush, de tentarem enfraquecer seu país. Outro ativista zimbabuano, Simon Spooner, afirma que a campanha de demolição de assentamentos precários, ocorrida em zonas urbanas do país, pode ter servido como ponto de inflexão para as organizações não-governamentais.

A "Operação Murambtsvina" (Tirar a Sujeira, na língua shona, falada pela maioria no Zimbábue) destruiu lares de 700 mil pessoas desde maio. As autoridades dizem que a iniciativa tem o objetivo de reduzir o crime e liberar zonas urbanas de construções ilegais. A enviada especial da Organização das Nações Unidas para Assuntos de Assentamentos Humanos no Zimbábue, Anna Tibaijuka, divulgou um relatório muito crítico sobre essa operação. "A demolição alertou organizações civis e a comunidade internacional", disse Spooner à IPS. Entretanto, o ativista acredita que as ongs deveriam ter adotado a mais tempo um enfoque mais firme em relação ao Zimbábue.

"Se tivessem agido antes, teriam evitado muito sofrimento", afirmou Spooner, que diz ter sido "detido várias vezes" por funcionários zimbabuanos. "Este grau de sofrimento obrigou a sociedade civil a se dar conta do alcance da tragédia no Zimbábue". No dia 23 de junho, uma coalizão de mais de 200 ongs africanas e internacionais apresentaram uma petição conjunta sem precedentes à ONU e à União Africana, para que interviessem em ajuda aos habitantes do Zimbábue, cujas casas foram demolidas. "Agora, as igrejas estão pegando o trem e a pressão ganha força. Não creio que possam ignorar o problema do Zimbábue, que agora têm o compromisso de enfrentar", acrescentou Spooner.

Há duas semanas, o Conselho Sul-Africano de Igrejas enviou ajuda humanitária ao Zimbábue, para socorrer as vítimas da campanha urbana. O envio incluía 4,5 mil cobertores e 37 toneladas de milho, favas e óleo. O Conselho agora tenta enviar mais três caminhões com alimentos e outros produtos básicos, que não estão conseguindo entrar no país, aparentemente porque funcionários zimbabuanos querem provas de que os alimentos não contêm organismos geneticamente modificados. Entretanto, o Departamento de Agricultura da África do Sul confirmou no dia 9, que esses alimentos estão livres de qualquer produto transgênico.

Desde 2000, o Zimbábue vive controvertidos confiscos de moradias e propriedades rurais da minoria branca, no contexto de uma reforma agrária cujo objetivo declarado era dar terras à maioria negra sem posses. No mesmo período, aconteceram três eleições com vitórias do oficialismo, marcadas por denúncias de irregularidades, fraudes e abusos, a maioria dirigida à oposição. As ocupações de terras foram inicialmente retratadas como uma tentativa dos veteranos da guerra de libertação contra o império britânico de retificar as desigualdades raciais com relação à propriedade da terra, legado do período colonial. Entretanto, opositores do governo dizem que os confiscos foram orquestrados pelo governo para ganhar votos, antes das eleições parlamentares de 2000.

Estima-se que 4,5 milhões de zimbabuanos abandonaram o país em busca de uma vida nova. Segundo Daniel Molokela, um advogado zimbabuano que trabalha para o Projeto Paz e Democracia, uma ong com sede em Johannesburgo, somente a África do Sul abriga mais de dois milhões de imigrantes de seu país. Molokela se dedica a organizar os membros da diáspora para que impulsionem uma mudança em sua terra natal. Junto com a seca, as ocupações de terras agrícolas contribuíram para aprofundar a escassez de cultivos no Zimbábue. O Programa Mundial de Alimentos da ONU acredita que 4,2 milhões de zimbabuanos precisarão de ajuda alimentar durante os próximos meses.

Os fatos dos últimos cinco anos também geraram uma severa crise econômica no país. A inflação é de 140% e as reservas de divisas estão baixas, o que agrava a escassez de combustíveis e outras matérias-primas importadas. O desemprego é de 75% da população economicamente ativa e mais de 70% dos 12,7 milhões de habitantes vivem na pobreza, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). "Quanto às relações entre a África e os doadores, as organizações civis africanas são muito críticas. Porém, quando aparecem em cena assuntos domésticos com implicações internacionais, como o do Zimbábue, não ouvimos comentários semelhantes", disse Sam Dube, do Zimbábue Action, um grupo de pressão com sede na África do Sul.

"Este é uma via de mão dupla. Esperamos que as ongs na África do Sul confessem e denunciem os abusos de direitos humanos, ocorram eles no Zimbábue, na República Democrática do Congo ou em qualquer outro lugar do continente", acrescentou Dube. Por sua vez, Spooner pede que as ongs cerrem fileiras em apoio aos zimbabuanos. "No Zimbábue, a luta é entre o povo e seu governo. Isto dificulta a mudança para pessoas que não têm recursos, acesso aos meios de comunicação, nem transporte. Não podemos imprimir notícias porque não temos possibilidades. por isso necessitamos de apoio de nossos irmãos e irmãs africanos", concluiu. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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