Kigali, 19/08/2005 – Aos 93 anos, a norte-americana Rosamond Carr continua responsável pelo orfanato Imbabazi, que significa "um lar onde se pode receber o amor de uma mãe", criado em conseqüência do genocídio ocorrido em 1994. O Imbabazi funciona na cidade de Gisenyi, oeste de Ruanda, e abriga 122 meninos e meninas. Há 11 anos, quando fundou o abrigo, Rosamond tinha apenas US$ 6 mil, e metade deles usou para transformar uma velha construção onde se realizava o processamento de piretro, um inseticida natural, em um lar para crianças. Na época havia poucos lugares seguros para órfãos.
Pequena e calma ao falar, à primeira vista Rosamond pode não parecer uma candidata adequada para liderar um orfanato em uma região especialmente pobre e conflitiva da África. "A maioria de nossas crianças viu os pais morrerem", contou. Mais de 800 mil tutsis e alguns hutus moderados foram assassinados em 1994, em um dos mais graves genocídios da história, segundo a Organização das Nações Unidas. O abrigo recebeu seus primeiros hóspedes no final daquele ano. Desde então, muitos menores se reencontraram com tias, tios e avós, mas o Imbabazi continua funcionando.
Amiel Ngabo, secretário-executivo da província de Gisenyi, considera Rosamond "insubstituível". Entretanto, ela sente que chegou o momento de deixar a direção do orfanato. "Estou muito velha e sempre cansada", disse durante entrevista em sua casa, próxima do Lago Kivum, um lar repleto de fotografias de crianças. O governo planeja encontrar alguém para dirigir o Imbabazi, mas Ngabo afirma que, a longo prazo, preferiria que as crianças vivessem com suas próprias famílias ou em lares adotivos.
Antes de se mudar para a África, Rosamond vivia em Nova York e trabalhava como ilustradora de moda para catálogos de lojas. Nos anos 30, se casou com Kenneth Carr, cidadão britânico 24 anos mais velho que ela, que a descrevia como "uma caçadora maior e ótima fotógrafa". Kenneth havia viajado muito e possuía plantações de café em Uganda. Em 1949, o casal foi para o Congo (depois batizado de Zaire e, atualmente, República Democrática do Congo – RDC). Quatro anos depois, Rosamond se divorciou e mudou para Ruanda, onde realizou diversos trabalhos para se manter, desde dirigir uma plantação de flores de piretro até administrar o hotel Palm Beach, em Gisenyi. Kenneth não queria ter filhos, enquanto sua mulher os desejava.
Após a separação, ela queria voltar para os Estados Unidos, se casar novamente e começar uma família, mas, aos 40 anos, decidiu que era tarde para isso. Rejeitou a proposta de um pretendente também britânico porque ele queria deixar a África. "Na realidade, eu estava apaixonada pela vida, não por ninguém em especial", contou Rosamond. "Poderia ter tido tantos amantes quantos quisesse, mas todos os homens mais agradáveis estavam casados". Por fim, conseguiu uma família. "Passei toda minha vida querendo filhos, e tive os primeiros aos 82 anos", contou.
Rosamond suportou o que descreve como "a guerra dura", do início dos anos 90, quando a rebelde Frente Patriótica Ruandesa (FPR), formada principalmente por membros da etnia tutsi, tentou derrubar o governo dominado pelos hutus. Rosamond foi obrigada a fugir do país durante as matanças de 1994. Depois, a FPR assumiu o poder, o que levou muitos hutus responsáveis pelo genocídio a se dirigirem para o então Zaire, de onde procuravam desestabilizar Ruanda. "O pior para mim foi que as crianças estavam em perigo constante. As armas nunca se calavam, inclusive em 1998", disse. Esse foi o ano em que Ruanda começou a apoiar os rebeldes que queriam derrubar o presidente da RDC, Lurent Kabila (1997-2001), após sua fracassada tentativa de expulsar os extremistas hutus que haviam participado do genocídio.
Rosamond "agradou os moradores", disse Aloys Kaberuka, coordenador de uma organização não-governamental em Gisenyi. "Ela ama as crianças", acrescentou. Quando os ruadenses se aproximavam dizendo "vim em busca de comida para meus filhos", ou "não posso pagar a escola de meus filhos", ela os ajudava. Também ofereceu aos país trabalho em sua fazenda. As experiências de Rosamond estão detalhadas em sua autobriografia publicada em 1999, "Land of a Thousand Hills" (Terra das Mil Colinas).
A atriz norte-americana Sigourney Weaver, que em 1988 viajou a Ruanda para filmar "Gorilas no Nevoeiro", foi quem fez a primeira doação, de US$ 1 mil, ao Imbabazi. O filme é baseado na vida de Dian Fossey, uma conservacionista que foi assassinada em Ruanda, supostamente por caçadores, depois de mais de uma década dedicada à proteção dos gorilas das montanhas da África central, em risco de extinção. No mês passado, Weaver voltou a Ruanda para filmar um documentário intitulado "Gorilas Revisited" (Gorilas Revisitados). Neste filme, que proporciona um olhar atual sobre a situação dos primatas, também aparece Rosamond. (IPS/Envolverde)

