Caput Mundi

Barcelona, Espanha, 08/12/2011 – Dizem os entendidos que um dos melhores cafés do mundo é o serviço na cafeteria Sant’Eustachio, em Roma, em pleno centro da Cidade Eterna.

Manuel Manonelles -

Manuel Manonelles -

Desde 1938 seu “gran caffè” é motivo de peregrinação e apurada degustação por parte dos mais requintados, e de filas nas horas de maior movimento.

Existem diversas lendas sobre o segredo que lhe proporciona seu sabor e aroma tão especial. Sabe-se, e isso é um fato, que a torrefação do grão de café ainda é feita com lenha. Agora, há quem diga que parte de sua particularidade está na água utilizada, puríssima e que viria de um antigo aqueduto que ainda funciona. Se assim for, não seria estranho, já que é bem conhecido que alguns edifícios da zona antiga de Roma ainda recebem a água desta maneira.

Outros apontam que seu segredo está no momento de sua elaboração, mito que é alimentado pelo fato de as duas máquinas de café do local estarem instaladas de maneira a impedir totalmente que alguém observe os detalhes da preparação da famosa bebida.

Entretanto, o que seguramente ninguém espera ao visitar esta meca dos adeptos da cafeína é descobrir que todo café que ali é servido em milhares e milhares de xícaras a cada semana provém do comércio justo, concretamente por intermédio da organização italiana Altromercato. Esta é uma entidade que, há anos, é pioneira no setor do comércio justo. Por meio dela, e graças também a contatos diretos e viagens regulares às zonas produtoras, a Sant’Eustachio se nutre do melhor produto procedente de Brasil, Etiópia, Guatemala, República Dominicana, Ilhas Galápagos ou Santa Elena.

E tudo isso respeitando os princípios do comércio justo e da produção biológica. Como recordam os proprietários do local, adquirir um produto de comércio justo e solidário significa pagar um preço justo, superior ao habitual do mercado, e criar relações comerciais de longa duração, de forma a garantir o financiamento dos projetos locais de desenvolvimento ambiental e social. E não só isso, no caso em questão, quando se adquire café justo e solidário cria-se uma relação mais direta e concreta entre os torrefadores e os produtores, contribuindo, assim, para a busca da qualidade do produto por ambas as partes.

O exemplo da prestigiosa cafeteria – a lista de seus clientes famosos é interminável – fulmina prejuízos e passa a modelo. Demonstra de maneira incontestável que, ao contrário dos mantras repetidos reiteradamente pelos gurus dos “mercados”, a qualidade, o êxito comercial e a justiça social não apenas são totalmente compatíveis, como de sua conjunção podem surgir resultados de máximo nível.

Vivemos tempos de graves turbulências econômicas e financeiras que geram incertezas e preocupações a respeito do futuro. E, seja por inconsciência ou por uma perigosa inércia, respondemos obcecados aplicando as mesmas receitas que até aí nos levaram.

Um passeio pela Roma histórica e uma visita à cafeteria de Sant’Eustachio nos mostra que há alternativas de modelo empresarial e econômico, nas quais o ser humano é levado em conta e passa a ser um valor agregado, que são completamente factíveis e viáveis. Pensemos nisso, e esperemos que seja a tempo. Envolverde/IPS

* Manuel Manonelles é diretor da Fundação Cultura de Paz-Barcelona.

Manuel Manonelles

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