BUENOS AIRES, Argentina, 27/12/2011 – (Tierramérica).- A experiência de gerar energia aproveitando o lixo orgânico de pequenos distritos poderia ser o pontapé inicial de uma rede de municípios verdes na Argentina.

Biodigestor experimental para calefação do recinto das jiboias na fazenda do zoológico Iku-Huasi, na província de Buenos Aires - Juan Moseinco/IPS
O biodigestor é um recinto sem oxigênio onde são colocados resíduos orgânicos – dejetos vegetais e esterco – para que bactérias anaeróbicas se alimentem da matéria e produzam gás metano e fertilizantes ricos em nitrogênio, fósforo e potássio. “O biogás é usado para cozinhar, na calefação e para produzir eletricidade”, explicou ao Terramérica o engenheiro Leonardo Genero, coordenador do Programa sobre Tecnologia Socialmente Apropriada da Proteger e encarregado do treinamento em Cerrito.
Dos cursos participam autoridades e técnicos municipais, profissionais, estudantes, produtores agropecuários e pessoal docente de pelo menos uma dúzia de províncias argentinas e de Bolívia, Chile, Espanha, Paraguai, Peru e Uruguai. “É um fenômeno surpreendente, que cresceu nos dois últimos anos”, disse ao Terramérica o diretor-geral da Proteger, Jorge Cappato. A questão dos resíduos orgânicos “é um assunto em que tudo está por ser feito”, acrescentou.
Além de Cerrito, já incorporaram esta tecnologia os municípios de Emilia e de Zenón Pereyra, na província de Santa Fé, e outras localidades que fazem testes com pequenos reatores. Segundo Jorge, os resíduos municipais costumam ser queimados ou depositados em lixões a céu aberto. No melhor dos casos, vão para aterros sanitários, um método destinado a evitar contaminação do solo e da água subterrânea, mas que tem riscos e é caro.
Leonardo explicou que os biodigestores podem ser construídos para uma casa particular, uma escola, um bairro ou um estabelecimento agropecuário. “A proposta do curso é para áreas rurais afastadas, sem acesso fácil ao gás engarrafado”, afirmou. Além disso, “é uma das poucas tecnologias que servem para mitigar a mudança climática por não emitir nada de gás-estufa”, ressaltou.
Na Argentina, com 40 milhões de habitantes, funcionam apenas entre 70 e cem biodigestores, segundo Leonardo. Contudo, ao contrário de cidades europeias que adotam esta tecnologia, nesta região o potencial de matéria orgânica é muito grande. O prefeito de Cerrito, Orlando Lovera, disse ao Terramérica que “a cidade está muito consciente do aproveitamento dos resíduos e do cuidado com o meio ambiente”.
Um dos biodigestores, construído por meio de convênio entre a Proteger e a Universidade Nacional do Litoral, funciona em um conjunto de casas para 300 pessoas ao lado da estação ferroviária, onde se alojam delegações esportivas e culturais que visitam Cerrito. Fornece a todas as casas combustível para calefação e para cozinhar. Outro reator funciona em um bairro semirrural e fornece gás e eletricidade para sua escola.
O terceiro, em construção, é o mais ambicioso e o que desperta maior entusiasmo local. Está projetado para utilizar resíduos orgânicos de dez mil pessoas, 68% mais do que a população atual, aquecer uma das piscinas do complexo esportivo e iluminar seus estádios. O biogás produzido não é suficiente para se autoabastecer ou substituir por completo o gás engarrafado, mas é um complemento e resolve o problema do lixo orgânico, disse Orlando.
Cerrito tem um aterro sanitário para lixo orgânico, do que poderia prescindir com o terceiro biodigestor, e uma unidade onde processa vidro, papelão e plástico destinado à venda. “O que motiva muitos outros municípios a participarem dos cursos é que o investimento necessário é muito baixo e pode ser feito com recursos próprios”, destacou Orlando.
A bióloga Viviana Granados, do município Malvinas Argentinas, em Buenos Aires, fez o curso da Proteger e conseguiu construir um biodigestor na fazenda do zoológico Yku-Huasi, na cidade Engenheiro Pablo Nogués. “Buscávamos soluções ambientais para o lixo sólido urbano”, contou ao Terramérica. Então, teve início a separação do lixo na origem e foi projetado um biodigestor para o zoológico. “A ideia era aquecer o recinto das jiboias, que precisam de calor”, disse Viviana. Como matéria orgânica é usado “o esterco de vacas da própria fazenda”.
O pequeno reator, para o qual foi usada uma velha caldeira de dois mil litros, exige uma carga diária de 50 litros de esterco. A qualidade do gás que produz “é excelente. Uma chama totalmente azul, com boa quantidade de metano”, contou a bióloga. Entretanto, este esforço não derivou em um plano maior para processar todo o lixo de Engenheiro Pablo Nogués, que tem 320 mil habitantes. De todo modo, disse Jorge, há “uma mudança de mentalidade”.
O adubo resultante é usado em hortas e viveiros municipais. E se cria consciência sobre a necessidade das reservas naturais para o ecoturismo, para gerar “empregos verdes” ou valorizar espécies autóctones para a arborização pública, acrescentou. “Os dirigentes políticos ficam muito motivados nos cursos, e pensamos em lançar, em 2012, uma rede de municípios amigáveis com o meio ambiente, que cumpram certos requisitos, compromissos e orçamentos”, acrescentou.
* A autora é correspondente da IPS.

