MANÃGUA, Nicarágua, 01/02/2012 – (Tierramérica).- Comunidades da bacia de um rio que separa Nicarágua e Honduras se unem para recuperar seu entorno e melhorar sua qualidade com ajuda de agências da ONU e organizações sociais.

O minguado caudal do Rio Coco é usado para uso doméstico, apesar dos cartazes proibindo - Cortesia Unops
No entanto, a esperança retornou à vida de Ignacia, vice-prefeita de Ocotal, capital do departamento de Nueva Segovia. É que ela e os habitantes de sua comunidade aprenderam que ainda podem recuperar aquele caudal de suas lembranças mediante o manejo responsável e integral das bacias desta região fronteiriça com Honduras. Ignacia participa de um projeto binacional para recuperar e explorar de maneira sustentável os recursos naturais e os cursos de água que alimentam o Rio Coco, o mais extenso da América Central, que serpenteia na fronteira de Nicarágua e Honduras.
O Rio Coco corre em direção nordeste ao longo de 822 quilômetros até desembocar no Mar do Caribe, e serve como fronteira entre os dois paÃses em mais de dois terços de seus territórios. O plano de "Fortalecimento das capacidades locais para o manejo integral dos recursos hÃdricos da bacia transfronteiriça do Rio Coco" é executado pelo Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops), com financiamento da União Europeia, em colaboração com as prefeituras locais, organizações sociais, autoridades nacionais e outras agência da Organização das Nações Unidas (ONU).
Assentado na parte média alta da bacia, especificamente nos municÃpios de Nueva Segovia, na Nicarágua, e El ParaÃso, em Honduras, o plano ensina os moradores e autoridades locais como cultivar e gerir de forma mais adequada esta área hidrográfica, depredada sem controle nas duas últimas décadas. O coordenador do projeto na Nicarágua, Lucio Rossini, disse ao Terramérica que com esta ferramenta foram revisadas as leis sobre os recursos naturais dos dois paÃses, para desenvolver acordos ambientais transfronteiriços que, após três anos de estudos, se concretizaram em uma série de programas binacionais e locais.
"Temos em andamento nove planos de gestão da bacia hidrográfica, e será coberta uma área de 5.200 quilômetros quadrados, aproximadamente, onde vivem cerca de 170 mil pessoas", explicou Lucio. Com US$ 1,7 milhão em investimento, busca-se garantir o fornecimento de água potável e seu uso para produção de alimentos, conservação da floresta, exploração dos recursos naturais e geração de energia renovável e atividades com fins turÃsticos, acrescentou.
O projeto estava em andamento desde abril de 2009, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Fundo para o Meio Ambiente (GEF) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), informou ao Terramérica o diretor-adjunto regional do Unops no Panamá do Escritório para a América Latina e no Caribe, Giusseppe Mancinelli.
Por sua vez, Nazario Espósito, representante do Unops-Nicarágua, se mostrou entusiasmado porque a gestão ajudará os dois paÃses a adotarem iniciativas para a implantação de metas e objetivos ambientais acordados em cúpulas e conferências das Nações Unidas relacionadas com questões de água e áreas costeiras. "O objetivo buscado é a sustentabilidade do meio ambiente e a adaptação à mudança climática da região, bem como melhorar as condições socioeconômicas e a qualidade de vida de 1.200 famÃlias assentadas nas microbacias altas e médias do Coco, nos dois paÃses envolvidos", detalhou ao Terramérica.
A grave deterioração do Rio Coco e da zona que o circunda foi causada em parte pelas condições de pobreza extrema das comunidades locais, disse Domingo Rivas, especialista em manejos de bacias e solos da Universidade Nacional Agrária da Nicarágua, que fez o diagnóstico socioambiental do projeto. "A água existe em quantidade suficiente, apesar da perda de volume do rio devido aos efeitos do desmatamento, mas em algumas fontes há uma alta contaminação de coliformes fecais por falta de condições higiênicas e educação das populações", declarou ao Terramérica.
O estudo confirmou a degradação dos recurso naturais em grandes extensões da bacia, falta de planejamento e de manejo integrado dos recursos, contaminação de águas, erosão do solo e desmatamento das florestas de pinheiros e latifoliados (de folhas largas e grandes). Domingo assegurou que a renda média da população neste território oscilava entre US$ 600 e US$ 800 anuais por famÃlia.
As condições socioeconômicas são alarmantes no departamento de Nueva Segovia, onde 78% de sua população vive na pobreza, 50% não conta com água potável e 27% é analfabeta, confirmou o diretor-executivo da Associação de MunicÃpios do distrito, Oscar Mendoza Bustamante. "Estes dados explicam o aumento da degradação dos recursos naturais", afirmou ao Terramérica.
Para Ignacia, o sonho de voltar a ver seu rio da infância com todo o esplendor de antes talvez não seja possÃvel de se concretizar em sua totalidade, mas outros estÃmulos a deixam entusiasmada. "O importante deste esforço é a luta pelo bom aproveitamento e pela proteção do rio, já que sem água todas as nossas atividades ficam paralisadas", afirmou.
* O autor é colaborador da IPS.

