MOGADÃSCIO, 02/03/2012 – Enquanto o governo de transição da Somália e os vários intervenientes se preparam para a reunião de quarta-feira para debater a inclusão dos clãs no novo governo, os polÃticos do sexo feminino apelaram a um maior papel na governação desta nação da Ãfrica Oriental. O governo somali, as autonomias regionais, a sociedade civil e o grupo islamista não-militante Ahlu Sunna Waljama vão reunir-se em Garowe. no estado de Puntlândia, de 15 a 16 de Fevereiro, para debater a composição do novo parlamento do paÃs. Numa entrevista exclusiva à IPS, a Ministra para o Desenvolvimento das Mulheres e Cuidados Familiares, a Drª Mariam Aweis Jama, e a Directora da Condição Feminina no Palácio Presidencial, Malyun Sheik Heidar, afirmaram ser a primeira vez que as mulheres somalis estavam a desempenhar um papel chave na liderança do paÃs. Jama disse que as mulheres somalis não têm acesso à liderança e acusou os homens somalis de não respeitarem as mulheres e evitarem que estas tenham um maior papel na polÃtica. Só uma mulher é que ocupou o cargo de Ministra para o Desenvolvimento das Mulheres e Cuidados Familiares, e nenhuma outra mulher foi nomeada para qualquer outro cargo ministerial. "Tanto quanto me recordo, na história do paÃs só o Ministério para o Desenvolvimento das Mulheres e Cuidados Familiares é que esteve sempre entregue a mulheres somalis. Mas esse tempo já passou e temos de ter uma participação equitativa num futuro governo," disse Heidar. Tanto Jama como Heidar afirmaram que queriam ver um maior número de mulheres em cargos ministeriais e a partilhar cargos superiores na liderança do paÃs. Heidar referiu ser vergonhoso o facto de não haver uma governadora regional no paÃs, que compreende 18 regiões e quase 100 distritos. "Só temos uma Comissária de Distrito em MogadÃscio, o que é inaceitável," disse, referindo-se a Dego Abdulkader, comissária do distrito de Wardhigley, em MogadÃscio. "As mulheres perfazem cerca de 70 por cento da população e é por isso que o Islão permitiu que um homem case com quatro mulheres, portanto é uma infelicidade não prestar atenção ao papel das mulheres, que são a maioria em todas as comunidades. Precisamos de fazer parte da Presidência, precisamos de ter uma mulher como Primeiro-Ministro ou Presidente do Parlamento," disse Jama, acrescentando que as mulheres somalis também estavam a exercer pressão para liderarem missões diplomáticas no estrangeiro. Jama referiu que, de acordo com o Artigo 29° da Carta Federal de Transição da Somália, redigida durante a Conferência Nacional de Reconciliação Somali no Quénia em 2004, as mulheres têm de preencher 12 por cento dos lugares no parlamento de transição. No entanto, acha que as mulheres foram enganadas, ao não lhes terem sido atribuÃdos cargos suficientes no actual governo. Só 41 dos 550 deputados do parlamento somali são mulheres "“ apenas 7 por cento. A Comissão dos Direitos Humanos é a única das 27 sub-comissões parlamentares presidida por uma mulher, Hawa Adbullahi Qayad. No entanto, a representação feminina nos 20 partidos polÃticos do paÃs aumentou de cinco por cento para pelo menos onze por cento desde 2004, embora as mulheres trabalhem em relações públicas e assuntos relacionados com o sexo feminino. Prevê-se que a representação feminina no parlamento aumente para 30 por cento quando o perÃodo de transição acabar em Agosto. Durante a conferência que elaborou a nova constituição do paÃs em Djibouti, que ocorreu de 6 a 12 de Janeiro, os participantes aceitaram unanimemente uma moção apontando que 30 por cento dos assentos no próximo parlamento deviam ser entregues à s mulheres. O Xeque Hajji Hussein, legislador somali e também religioso moderado e polÃtico de longa data, referiu que foi ele que apresentou esta recomendação.
"Na epóca do profeta Mohamed…. as mulheres ensinavam nas escolas islâmicas e as mulheres do profeta ensinavam os seus companheiros. Portanto, se usarmos este exemplo, as mulheres podem desempenhar um importante papel na comunidade e não interessa se servem como polÃticas ou se uma mulher se torna Primeira-Ministra da Somália ou Presidente do Parlamento," disse Hussein.
Mas Jama afirma que uma representação feminina de 30 por cento de no próximo parlamento não é suficiente.
"Não estamos satisfeitas com 30 por cento, e digo em voz alta que, depois do perÃodo de transição terminar, queremos que 50 por cento dos assentos parlamentares sejam postos à disposição das mulheres," disse Jama. "Há milhares de mulheres altamente qualificadas, incluindo centenas que se especializaram em polÃtica, portanto estou confiante que actualmente as mulheres somalis têm o conhecimento e o poder necessários para liderarem," acrescentou Jama. Por sua parte, Heidar quer ser chefe do governo. "Daqui em diante nada nos impede de ocupar cargos elevados na liderança do paÃs, e no futuro quero ser Primeira-Ministra da Somália." O cargo de Primeiro-Ministro é o segundo cargo mais elevado na Somália depois do Presidente. "Nos próximos anos quero disputar o cargo de Presidente do parlamento…. tenho a certeza que um dia uma mulher somali irá liderar o parlamento ou todo o paÃs," explicou Heidar, ao falar do seu plano para ocupar um dos cargos mais importantes na Somália. Contudo, as mulheres continuam a enfrentar resistência visto que os homens somalis têm pontos de vista diferentes sobre o papel das mulheres no governo. A maior parte não aceita que as mulheres tenham um papel no desenvolvimento da polÃtica ou da governação. Aqui, neste paÃs do Corno de Ãfrica, os radicais religiosos ou culturais proclamam que as mulheres não devem desempenhar nenhum papel na polÃtica. "A nossa religião islâmica ensina-nos que aqueles que são liderados por uma mulher fracassam e, portanto, de acordo com o Islão, as mulheres devem abster-se da ambição de dirigirem o paÃs e de estarem representadas na polÃtica," afirmou à IPS um conhecido lÃder tribal somali, Ugas Abokar Islow Hassan, acrescentando que as mulheres se devem abster de ambicionar ocupar cargos polÃticos. O Xeque Farah Yusuf Mohamed, pregador fundamentalista e imã na mesquita de al-Huda, na capital do paÃs, acredita que a "mente de uma mulher é incompleta para liderar um paÃs" e que, de acordo com o Islão, apenas são autorizadas a tomar conta das suas casas. Mas Ali Mohammed Nuh, lÃder do Partido Republicano Unido da Somália, acredita que as mulheres somalis devem ser autorizadas a desempenhar um papel na polÃtica. "No meu partido, a representação das mulheres tem aumentado e estou a dar prioridade à s mulheres para que tenham maior representatividade nos partidos polÃticos "“ no meu partido temos uma mulher como vice-presidente dos assuntos públicos," explicou Nuh. "Agora as mulheres representam perto de dez por cento dos membros do nosso partido e tenho esperança que o número de mulheres no Partido Republicano Unido da Somália aumente nos próximos anos," acrescentou Nuh.

