PLUMTREE, 03/04/2012 – O desejo de Beauty Moyo de ter acesso a água concretizou-se finalmente. As chuvas que caÃram na semana passada depois de um extenso perÃodo de seca despertaram esta agricultora em pequena escala, que vive numa zona profundamente rural em Plumtree, na fronteira do Zimbabué e do Botsuana, para a realidade das parcas chuvas, alterações climáticas e a resposta que ela e os seus conterrâneos podem dar.
Tal como acontece na maior parte do sudoeste do Zimbabué, Plumtree é conhecida pela baixa precipitação. Mas milhões de agricultores no paÃs estão dependentes da agricultura alimentada pela chuva e dos alimentos que eles próprios produzem, o que deixa aldeões como Moyo com opções difÃceis. "As chuvas que caÃram esta semana fizeram regressar a esperança, visto que enterrámos o nosso próprio reservatório para recolha de água," contou Moyo. Acrescentou que se juntara a outros vizinhos durante o ano para investirem as energias na escavação daquilo que parece ser um reservatório de água num campo de golfe em miniatura. "Esta ideia surgiu depois das pessoas terem chegado à conclusão que nos queixamos todos os anos devido à s parcas chuvas e más colheitas," explicou Moyo à IPS. O reservatório de água está a ser usado em actividades agrÃcolas, e os agricultores de subsistência referem que, em vez de regarem todo o campo com água, apenas regam plantas individuais. "É muito trabalho mas ajuda a conservar a nossa água," afirmou Susan Mathebula, outra aldeã que trabalha no projecto com Moyo. "Tivemos chuvas intensas, algo a que não assistÃamos há muito tempo, e inclusivamente geada, e conseguimos capturar a água neste pequeno reservatório construÃdo por nós," disse Mathebula à IPS. Embora a água potável seja retirada de locais como poços, Mathebula afirma que uma das principais preocupações é o uso da água para irrigação, visto que os agricultores plantam os seus próprios alimentos e não podem depender unicamente das chuvas para o milho e amendoins que plantam em pequenos campos.
Plumtree é uma das áreas situadas na cintura sudoeste que receberam intensas chuvas na última semana de Fevereiro, tendo o Departamento dos Serviços Meteorológicos indicado que o paÃs podia esperar mais precipitação nos próximos dois meses.
A esperança está a regressar que a água que possuem irá garantir uma segurança alimentar adequada numa altura em que as agências humanitárias como o Sistema de Aviso Precoce contra a Fome "“ Rede (FEWS-NET) anunciaram no inÃcio do ano que milhões de Zimbabueanos iriam necessitar de ajuda alimentar.
As alterações climáticas e a falta de água são algumas das questões debatidas na sessão de duas semanas da Comissão das Nações Unidas para a Condição Feminina de 25 de Fevereiro a 7 de Março, na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, que centrou a sua atenção na autonomização das mulheres nas zonas rurais e no seu papel na eliminação da pobreza e da fome e no desenvolvimento sustentável.
As agências de ajuda humanitária têm associado a insegurança alimentar à s alterações climáticas que empurraram as chuvas no Zimbabué para o ano novo, quando muitos agricultores já tinham preparado a terra para o perÃodo de plantação no último trimestre do ano passado.
As chuvas começaram a cair em Fevereiro e os Serviços de Meteorologia anunciaram que os agricultores podiam esperar mais chuva nos próximos dois meses.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), as mulheres continuam a ser a vanguarda da agricultura nas zonas rurais, onde vivem 70 por cento dos Zimbabueanos, e as iniciativas implementadas pelas comunidades como a criação de reservatórios levadas a cabo por Moyo, Mathebula e outros aldeões apenas realçam as difÃceis circunstâncias em que se encontram estas mulheres, que recebem pouca ajuda do governo e das organizações não governamentais.
Josephine Conjwayo, técnica de campo do Ministério da Agricultura que trabalha com os pequenos agricultores, afirmou que o aproveitamento de água para a agricultura pelas comunidades rurais em resposta aos desafios colocados pelas alterações climáticas tem sido limitado pela falta de especialistas nas zonas rurais.
"Em todas as áreas (em Matebeleland) que visitámos para avaliar as actividades agrÃcolas, é normal a existência do problema da baixa precipitação e das más colheitas. O armazenamento da água da chuva é uma das medidas que encorajamos, mas essa água tende a acabar rapidamente visto que as pessoas a usam para outros fins que não a actividade agrÃcola," explicou Conjwayo.
O que tem exacerbado os desafios enfrentados pelos pequenos agricultores como Mathebula é a incapacidade do governo e das organizações agrÃcolas de criarem estratégias para os pequenos agricultores em resposta à s alterações climáticas, obrigando os aldeões a formularem as suas próprias iniciativas.
O Sindicato dos Agricultores Comerciais do Zimbabué afirmou que os pequenos agricultores estão a produzir a maioria do milho consumido nas zonas urbanas, tendo em conta que estes mesmos agricultores não vendem o seu produto através do Conselho de Marketing dos Cereais, e lamentou ainda a ausência de apoio governamental para os agricultores.
No ano passado, a Rede de Conhecimento sobre o Clima e o Desenvolvimento firmou uma parceria com o governo do Zimbabué para desenvolver uma polÃtica de alterações climáticas. De acordo com o estudo inicial, prevê-se que haja uma mudança nos padrões de pluviosidade, assim como um aumento das temperaturas e fenómenos climáticos extremos como cheias e secas.
São estas as condições que afectam os aldeões de Plumtree, e Methebula, Moyo e muitos outros respondem da única maneira que sabem: tomar decisões rapidamente.
"O que podemos fazer aqui é muito pouco," disse Moyo à IPS. "Mas esperamos que a água que acumulamos dure o tempo suficiente até as colheitas estarem desenvolvidas," afirmou, à medida que tratava da pequena colheita de milho que começava a germinar depois das chuvas recentes.

