Caracas, Venezuela, 10/04/2012 – A América Latina e o Caribe formam uma região com potencial para desacoplar seu crescimento do consumo de combustÃveis fósseis e passar para uma economia verde baseada em energias mais limpas, mas com a condição de reduzir as brechas sociais.
Para Rivera, "não se trata de mudar da noite para o dia os padrões de produção e consumo, mas de avançar nessa direção, construindo consensos regionais para investimentos, polÃticas públicas, incentivos, subsÃdios, normas, trabalho de formação e conscientização, além da cooperação internacional.
O Sela, que reúne 28 Estados latino-americanos e caribenhos, produziu um estudo que assume, como condição básica para "deixar verde uma economia marrom", o estabelecimento de uma nova matriz energética na região, apressando a passagem de uma economia baseada na energia de carbono para outra, de energias renováveis e limpas.
Ao examinar a atual matriz energética, o estudo constatou que em 2009 a região produziu o equivalente a 7,424 bilhões de barris de petróleo (de 159 litros cada), 80% dos quais baseados em hidrocarbonos e carvão. A distribuição por tipo de combustÃveis foi a seguinte: 50,2% petróleo, 23,9% gás, 10,8% biomassa (lenha e cana, com 5,4% cada uma), 6,6% hidroenergia, 6% carvão mineral, 1,3% o conjunto de eólica, solar e outras renováveis, 0,6% nuclear e 0,6% geotérmica.
Os principais paÃses produtores são México com 24,7%, Brasil com 22,9%, Venezuela 20,4%, Colômbia 9,8%, Argentina 7,7%, Trinidad e Tobago 4,2%, e Equador com 2,8%. A Venezuela é lÃder na produção de petróleo, seguida de México e Brasil. O México é lÃder em gás, seguido de Argentina e Trinidad e Tobago, enquanto a Colômbia produz três quintos do carvão, o Brasil lidera na produção de lenha, cana, hidroenergia e outras energias renováveis, o México em geotermia, e Brasil e México são produtores nucleares. Do conjunto da oferta energética regional, 74,4% tem origem em fontes não renováveis e 87,6% são de energias muito contaminantes, com altas emissões de dióxido de carbono (CO²).
A América Latina "tem enormes possibilidades de contar com uma energia mais verde, começando pelo grande potencial de energia hidrelétrica, primeiro no Brasil e depois na Venezuela, México, Colômbia, Paraguai e Argentina", explicou à IPS o especialista Juan Carlos Sánchez, do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC).
Só a Venezuela, com capacidade hÃdrica e térmica para gerar 20 mil megawatts/hora de eletricidade, poderia instalar capacidade para outros 100 mil megawatts/hora de fontes hÃdricas, eólicas e de biomassa. Outras fontes para as quais há grande potencial, segundo Sánchez, embora exijam fortes investimentos ainda muito incipientes, são as energias solar e eólica.
"Contudo, ao se tratar de fontes chamadas verdes, independente de serem renováveis ou não, é imprescindÃvel considerar todas as implicações, como é o caso dos agro ou biocombustÃveis, como bioetanol ou biodiesel, causadores de problemas terrÃveis de posse e uso da terra, mais contaminação por agroquÃmicos, o que também leva a problemas sociais muito sérios", destacou Sánchez.
O agrônomo Edgar Jaimes, professor titular da venezuelana Universidade de Los Andes, observou que "a economia verde constitui uma nova visão capitalista do mundo, cujo objetivo principal é utilizar a biomassa terrestre com a finalidade última de continuar potencializando os sistemas produtivos, que nos últimos 50 anos depredaram e exploraram os bens naturais e o próprio homem". "A produção primária do planeta ultrapassa os 250 bilhões de toneladas de biomassa ou matéria viva. Apenas 62 bilhões de toneladas são usadas para atender as necessidades humanas e industriais atuais. A diferença fica para o novo modelo "˜verde"™, com fins de renda ou lucro capitalista", afirmou.
Com essas advertências, a região da América Latina e do Caribe "deve buscar a forma de passar para um crescimento sustentável. Existe consenso de que a economia baseada em carbono está chegando ao seu limite", afirma o Sela. Julio Centeno, também professor na Universidade de Los Andes, resume que "se trata de desacoplar a energia do consumo de combustÃveis fósseis e levá-la para energias mais limpas, um desafio para nações como as da Organização de PaÃses Exportadores de Petróleo (Opep)", cujos sócios regionais são Venezuela e Equador.
O Sela alerta que "é necessária a intervenção direta do Estado por meio de polÃticas públicas que facilitem e incentivem a transição, mas não só isso: o tema está na necessidade de fazer uma transição inclusiva", pois "são precisos ajustes para garantir o emprego e a capacitação" a fim de trabalhar na economia verde. Também se necessitará dar atenção especial aos setores produtivos que poderiam perder viabilidade ao se desfazerem dos combustÃveis fósseis e abraçarem energias mais limpas.
O Sela propõe aos Estados da região começar um inventário dos elementos que devem integrar uma matriz de economia verde, para poder elaborar polÃticas que sustentem a transição. Também recomenda elaborar um estudo sobre o capital natural (bens e serviços ambientais disponÃveis) na região e sua relação com a energia do carbono, e definir áreas temáticas e projetos que possam somar as vantagens comparativas tanto regionais como de cada paÃs.
Além disso, a região deveria estabelecer mecanismos de acompanhamento destas polÃticas e destes projetos, coordenar suas ações, desenvolver programas de cooperação Sul-Sul sobre economia verde e identificar fontes de financiamento para seus novos projetos. A caminho da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá entre 20 e 22 de junho no Rio de Janeiro, Rivera propõe que a região adote e desenvolva seu próprio decálogo de marcha para uma economia verde no contexto da nova Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Envolverde/IPS


