DEFESA: Menos dinheiro para a pólvora

Nova York, Estados Unidos, 18/04/2012 – A crise econômica global, surgida em 2008, também afetou o gasto militar mundial nos últimos anos, afirma um estudo do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Estados Unidos, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Brasil e Índia, alguns dos países com maior gasto militar, reduziram seus orçamentos nesse setor ou os aumentaram muito pouco nos últimos anos.

Os governos de Grécia, Espanha, Itália e Irlanda, por sua vez, também fizeram "grandes reduções devido às suas crises de dívida soberana", e a maioria das nações da Europa central realizaram "severos cortes" no gasto militar segundo a pesquisa do Sipri divulgada ontem.

"As consequências da crise econômica global, especialmente as medidas de redução de déficit nos Estados Unidos e na Europa, puseram fim a uma década de aumentos nos gastos com defesa, pelo menos no momento", apontou o chefe do Projeto sobre Gasto Militar do Sipri, Sam Perlo-Freeman. Segundo o estudo, o orçamento militar dos Estados Unidos, país que mais gasta nesse setor, caiu 1,2% em termos reais, ou US$ 8,7 bilhões, segundo os preços de 2010.

Em parte, isto é atribuído ao fato de o Congresso norte-americano ter demorado em acordar um orçamento para 2011, em meio aos enfrentamentos entre o presidente Barack Obama e o opositor Partido Republicano para reduzir o déficit. "Esta tendência provavelmente continuará, enquanto as medidas de redução de déficit aprovadas pelos congressistas no ano passado restringirão o crescimento do orçamento militar", prevê o estudo. Além disso, espera-se que a retirada das forças militares norte-americanas do Iraque e a redução de sua presença no Afeganistão derivem também em uma queda ainda maior do gasto bélico de Washington.

Por outro lado, os três maiores investidores em defesa da Europa ocidental – França, Alemanha e Grã-Bretanha – começaram a diminuir seus gastos como parte de uma série de medidas de austeridade. No mesmo período, o gasto militar da França caiu 4% desde 2008, enquanto o da Alemanha diminuiu 1,4% e o britânico 0,6%. Estes dois últimos preveem também realizar novos cortes nos próximos anos, de acordo com o Sipri.

As notáveis exceções fora da Europa foram China e Rússia, que aumentaram acentuadamente seu orçamento militar. Moscou elevou seu gasto em 9,3% no ano passado, chegando a US$ 71,9 bilhões, convertendo-se no terceiro maior investidor em defesa, superando Grã-Bretanha e França. De todo modo, o gasto mundial em armas no ano passado chegou a US$ 1,74 trilhão, quase a mesma quantia de 2010 em termos reais. O marginal aumento de 0,3% no ano passado freou uma longa tendência de alta nos orçamentos militares iniciada em 1998. O aumento médio anual entre 2001 e 2009 foi de 4,5%, segundo o Sipri.

Perlo-Freeman disse que é muito cedo para afirmar se a redução do gasto representa uma mudança da tendência no longo prazo em nível mundial. "Embora, provavelmente, vejamos maiores quedas nos Estados Unidos e na Europa nas próximas semanas, as tendências na Ásia, África e no Oriente Médio continuarão em alta no momento, e qualquer grande guerra pode mudar o cenário drasticamente", alertou.

Por sua vez, Natalie J. Goldring, pesquisadora do Centro para Estudos de Segurança na Escola Edmund A. Walsh de Relações Internacionais, da Universidade de Georgetown, afirmou à IPS que o estudo do Sipri somente indica uma relativa estabilidade nos gastos militares entre 2010 e 2011. "Os dados que acompanham o relatório, porém, mostram outra história", ressaltou.

Segundo Goldring, o estudo do Sipri não se aprofunda em seus próprios dados, que revelam enorme aumento no gasto militar mundial desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. A informação recompilada pelo Sipri mostra que, entre 2002 e 2011, o gasto militar mundial cresceu de US$ 1,15 trilhão para US$ 1,63 trilhão, mesmo considerando a inflação do período. "É um gigantesco aumento de mais de 40% em nível global", enfatizou Goldring.

Os dados do Sipri indicam que o aumento no gasto mundial em defesa, entre 2002 e 2011, girou em torno dos US$ 500 bilhões. "Isto é alarmante. Porém, mais perturbador ainda é que o aumento dos Estados Unidos representou mais da metade do crescimento mundial", alertou Goldring. O orçamento militar de Washington cresceu mais de 50% nesse período, observou. No ano passado, os Estados Unidos responderam por mais de 40% do gasto militar global, seguidos por Rússia e China.

O informe enfatiza o aumento do gasto militar russo. Mesmo assim, o orçamento de Moscou é apenas um décimo do de Washington, segundo Goldring. E a atenção dada ultimamente ao desenvolvimento militar da China não leva em conta que o gasto em defesa desse país equivale a apenas 20% do praticado pelos norte-americanos.

Os especialistas do Sipri concordam que a redução no gasto mundial se deve principalmente à crise financeira global, o que sugere que os orçamentos poderão se recuperar uma vez superadas as dificuldades econômicas. "Em lugar de aumentar seus gastos quando a economia melhorar, os países deveriam aproveitar para considerar mais seriamente suas prioridades", destacou Goldring. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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