Washington, 18/01/2005 – O Pacto Global da Organização das Nações Unidas reuniu em sua cúpula do final de junho mais de 400 dirigentes de corporações empresariais, sindicatos e da sociedade civil. O que agora é uma rede mundial com 1.500 empresas signatárias começou em 2000 como um desafio apresentado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para que as companhias adotassem nove princípios de bom comportamento com relação aos direitos humanos, às pautas de trabalho e ao meio ambiente. O Pacto Global engendrou organizações nacionais e incorporou membros em 70 países.
As companhias norte-americanas estão praticamente ausentes, já que constituem menos de 5% do grupo, embora seus temores diante de possíveis litígios e reclamações de responsabilidade tenham se acalmado no momento graças a um documento redigido com a ajuda do Colégio de Advogados Norte-americanos, cuja intenção é a de limitar a responsabilidade das empresas signatárias do Pacto Global. Nenhuma companhia não-norte-americana pediu tal proteção. A recente cúpula do Pacto Global aprovou um décimo princípio, sobre a corrupção, com unânimes compromissos de combater este problema como pré-condição para a concretização de um bom comportamento cidadão das empresas.
O pacto, inicialmente um sistema de compromisso voluntário com poucos controles ou responsabilidades, foi se convertendo durante a cúpula em um grupo de pressão mútua. Muitos executivos apoiaram a entrada em vigor dos princípios e a tomada de responsabilidades. Afirmaram que apóiam o princípio de responsabilidade social das empresas não só por motivos de relações públicas, mas, também, por razões comerciais. Os participantes mais seriamente dedicados ao tema da responsabilidade social foram os membros de um amplo grupo de companhias brasileiras, encabeçadas pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, com sede em São Paulo, e por seu presidente, Oded Grajew, bem como por Raymundo Magliano Filho, presidente da BOVESPA, Bolsa de Valores de São Paulo.
O formato inovador da cúpula também foi o resultado de uma iniciativa por parte do Brasil e criou o reforço do autodesafiante grupo de pressão, que produziu novos compromissos no sentido de melhorar a responsabilidade, acelerar a implementação dos princípios e dar um completo apoio financeiro ao Pacto através de quotas a cargo dos membros. Muitos propuseram que cada empresa se comprometa a recrutar pelo menos uma nova companhia. Após a liderança da BOVESPA, outras nove bolsas de valores subscreveram o pacto.
O espírito desses compromissos se tornará realidade? O Pacto Global será realmente independente e se converterá em uma organização global autofinanciada que impulsione a responsabilidade social empresarial para uma completa responsabilidade? Somente o tempo dirá. Por sua vez, a declaração conjunta da sociedade civil, que manteve sua própria "contra-cúpula", defendeu uma total responsabilidade empresarial baseada nas normas de um contexto legal. As organizações da sociedade civil encabeçadas pela Earth Rights Foundation afirmaram que o Pacto Global é uma distração da verdadeira tarefa da ONU e dos governos em estabelecer efetivos contextos intergovernamentais para a responsabilidade das corporações.
Esse grupo de organizações da sociedade civil apontou signatários do Pacto, incluindo Shell, Total, Rio Tinto, Nestlé e British Petroleum, como violadores dos próprios princípios do pacto e insistiu em que as Normas para o Comércio adotadas pela Comissão de Direitos Humanos da ONU em 2003 foram um passo importante para tal contexto legal global. Essas organizações exortaram a dissolução do Pacto por ser uma ameaça para a credibilidade da ONU.
O comportamento mais sábio a seguir parece ser o de separar o Pacto da ONU e fazer do mesmo uma organização independente. Isso poria à prova o cumprimento dos compromissos por parte de suas empresas signatárias, dos governos, dos organismos da ONU, dos sindicatos e das organizações não-governamentais que a integram. Também protegeria a reputação global da ONU e, ao mesmo tempo, daria impulso para um melhor rendimento empresarial e a um plano de ação próprio, de maneira a melhorar a própria reputação do Pacto Global. (IPS/Envolverde)
(*) Hazel Henderson é autora de Planetary Citizenship e de muitos outros livros sobre sustentabilidade global e reformas financeiras, bem como fundadora e presidente do Ethical Marketplace.
Estes dois colossos atlânticos, aliados não isentos de mancha, mas dotados de credibilidade, formaram o que se conhece como "Ocidente", ou, durante a Guerra Fria, como o "mundo livre", considerando-se portadores de uma civilização universal ou com pretensões de vir a sê-lo. Por este caminho entraram, no início do novo século, em um processo muito perigoso, de progressiva irresponsabilidade política que já se manifestava no âmbito dos negócios e em outros campos da vida social.
Os atentados terroristas cometidos contra os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, acabando com o mito da invulnerabilidade norte-americana, causaram um tremendo choque psicológico na cidadania, que teve reflexos imediatos e provocou grandes divisões na Europa. Sobretudo, pela resposta dada pelo governo Bush em termos de represália, de "vale-tudo" independentemente dos valores proclamados. Esta nova política, que relegou as Nações Unidas e afirmou o unilateralismo do "império", contribuiu gravemente para reduzir a credibilidade da maior potência militar do planeta. Foi completamente irresponsável, como o passar do tempo demonstra cada vez mais.
O clímax se registrou com a infeliz Cúpula dos Açores, um estigma que marcou seus participantes. Altos dirigentes políticos do Ocidente mentiram conscientemente aos eleitores para justificarem uma guerra injustificável. E, aparentemente, nada aconteceu, se excetuarmos o pobre José Maria Aznar, cujo partido perdeu as eleições e ele o poder – graças à velha sabedoria do povo espanhol. Mais ainda: diante da deterioração crescente da situação no Iraque, Bush e Blair resolveram antecipar, em uma cerimônia clandestina improvisada, a transferência de poderes ao governo iraquiano, que não tem nem consegue exercer nenhuma autoridade. Com a intenção de enganar a quem?
Bush esteve na Turquia, depois de ter estado semanas antes na Normandia, para fazer crer que está tudo bem nas relações euro-americanas. Pensa, com certeza, que tem poderes mágicos para apagar a memória das pessoas, mas, ficou demonstrado que não é bem assim. Também resolveu opinar sobre a participação da Turquia na um: "Os turcos, apesar de serem majoritariamente muçulmanos, têm todo o direito de entrar na União Européia". Isso provocou uma resposta do presidente Chirac, inimaginável até poucos anos atrás: "O senhor Bush não tem nada que opinar sobre os assuntos internos referentes à União Européia".
Como se vê, a irresponsabilidade leve à completa perda de respeito. Mas, a irresponsabilidade política não é uma exclusividade de Bush nem de Blair. Os dirigentes da Velha Europa acabam de dar um bom exemplo de irresponsabilidade política ao escolherem José Manuel Durão Barroso como presidente da Comissão Européia. Os que o elegeram, presumivelmente, pertencem ao grupo dos que perderam clamorosamente as recentes eleições européias: Blair, Schroeder, Berlusconi, Chirac e companhia. O escolhido pertence ao mesmo clube de perdedores, com a agravante de ter sido o anfitrião da Cúpula dos Açores e amigo dileto de Bush.
Pior ainda: abandonou seu país jogando-o em uma tremenda crise – na primeira oportunidade que lhe deram. Irresponsabilidade política total, descrédito de um estranho sistema democrático no qual a vontade dos eleitores não é levada em conta. E, finalmente – custa dizer, mas, é verdade – uma grande falta de vergonha. Felizmente, desta hecatombe de princípios e valores que assistimos, está emergindo a cidadania global, que se manifesta pouco, mas o faz em todas as partes. Assim, tenhamos esperanças e persistência em nosso caminho, com fidelidade responsável aos valores de sempre. (IPS/Envolverde)

