Montevidéu, 20/01/2005 – No Afeganistão "há intimidação, violência, problemas de segurança", mas "o que mais custa é liberar perguntas sem as quais um jornalista não existe. Perguntar por que e para que", explica o argentino Ricardo Grassi, embarcado na tarefa de criar uma imprensa independente nesse país em guerra. Pajhwok Afghan News (algo como Notícias Afegãs Eco) começou a transmitir informações pouco antes das eleições nacionais de 9 de outubro. Na quarta-feira passada foi anunciada oficialmente a vitória do até agora presidente interino, Hamid Kazai. O Afeganistão continua ocupado por 20 mil soldados norte-americanos e cerca de mais três mil da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Grassi, 35 anos de jornalismo, militante de esquerda nos anos 70 em seu país, ex-editor e ex-chefe de redação da agência IPS, estava no Afeganistão investigando mecanismos para fomentar o desenvolvimento de meios de comunicação a serviço da União Européia quando lhe propuseram organizar e dirigir uma agência de notícias independente. Foi quando descobriu que ser latino-americano apresentava uma vantagem comparativa. "Na América Latina desenvolvemos uma visão crítica sobre a circulação de informação e os atores presentes nela", disse à IPS desde Cabul, em entrevista por e-mail
P- Qual sua opinião sobre as eleições?
R- Antes coincidia com os afegãos que tentaram adiá-las para dar tempo de criar forças políticas representativas, capazes de negociar com dignidade com os Estados Unidos. Mas, isto não interessa a Washington e muito menos a George W. Bush, que queria dizer "democratizamos o Afeganistão" antes de colocar em jogo sua presidência. Tampouco a empresa petrolífera Unical, da qual foram consultores os dois "presidentes" deste país, Karzai e Zalmai Khalilzad, o embaixador norte-americano. Há alguns anos a Unical deseja construir um gasoduto atravessando o Afeganistão de norte a sul. As eleições podem ser vistas como uma farsa que coroa a verdadeira história. Mas votaram oito milhões de pessoas em um total de 11,5 milhões registradas. Essa mobilização agrega um valor que supera qualquer farsa e muda o país. Agora é preciso ver como as coisas correm. Ao longo da história, os afegãos sempre têm nítido quem ocupou o país: Ciro o Grande, Alexandre Magno, Genghis Khan, russos, ingleses, soviéticos.
P- Como chegou ao Afeganistão e acabou dirigindo a Pajhwok?
R- Foi em maio, e de um modo inesperado. Em 2003, a Comissão Européia (órgão executivo da União Européia) contratou o jornalista inglês Nick Nugent e a mim para prepararmos um relatório sobre os meios de comunicação no Afeganistão, recomendar políticas e continuar apoiando meios independentes, e, mais decididamente, a criação de um sistema público, a reorganização da Rádio e TV (RTA) e da agência nacional de notícias Bakhtar International Agency (BIA). RTA e BIA são governamentais, segundo o modelo da extinta União Soviética, ainda não modificado. Propusemos colocá-las fora do controle governamental, com uma primeira fase de financiamento estatal e, quando existir, do parlamento, segundo o modelo de países europeus, e com um conselho de administração soberano integrado por figuras independentes. Cuidei de planejar e armar o orçamento da nova agência nacional de notícias. Meu desejo era reorganizar a Bakhtar. Em abril, o Instituto for War and Peace Reporting (IWPR, Instituto para o Reporte sobre Paz e Guerra) me propôs organizar e dirigir uma agência de notícias independente, que agora se chama Pajhwok Afghan News. Pajhwok quer dizer "eco" em idiomas farsi (persa) e Pashto.
P- Qual o papel do IWPR?
R- É a organização não-governamental mais séria de todas as que vieram ao Afeganistão para formar jornalistas. A única com método e vontade de treinar formadores de jornalistas afegãos. Já há 10 jornalistas afegãos em condições de treinarem outros. Começaram aqui há dois anos, sob a direção de duas pessoas extraordinárias, Lisa Schnellinger e Toma Willard, norte-americanas, embora a sede central do IWPR fique em Londres e esteja presente em 22 países. Em janeiro decidiram levar o processo ao extremo: cobrir e distribuir informação diária, uma agência de notícias que fosse, por sua vez, um centro de formação. Conseguiram os fundos. Meu orçamento é de US$ 2,3 milhões. O plano é fazer com que a Pajhwok seja totalmente afegã quanto meu trabalho terminar, em março.
P- Como funciona a agência?
R- O contexto é sempre de formação, embora seja um trabalho pago. Cada repórter, editor, tradutor, motorista ou arquivista é avaliado pelos formadores afegãos e por jornalistas estrangeiros da sala de notícias, uma búlgara, duas afegãs-norte-americanas, uma norte-americana, um inglês e eu, que descobri a enorme vantagem de ser latino-americano.
P- Qual vantagem?
R- A América Latina é pobre. Para exercer nossa profissão aprendemos a arte do detalhe, e a paixão é mais forte do que a compensação financeira. Essa bagagem permite quebrar aqui a relação malsã que tende a se estabelecer com os ricos que chegam da Europa ou da América do Norte. Porém há algo mais importante: na América Latina desenvolvemos uma visão crítica sobre a circulação de informação e os atores presentes nelas. Todos tendem a colocar um país do Norte como o ator principal: é o Japão ou a Alemanha que dá um empréstimo a um país do sul, e quase nunca o país do Sul é protagonista. Esta diferença é vital e dificilmente percebida por um jornalista do Norte, e os do Sul repetem este esquema mecanicamente, até que chega um latino-americano e diz que deve ser o contrário. Na Pajhwok procuramos fazer com que o Afeganistão e sua população sempre sejam o ator principal.
P- Existe jornalismo afegão?
R- Antes do regime Taliban (que controlou o país entre 1996 e 2001), o Afeganistão estava ocupado pelos soviéticos, que o invadiram em dezembro de 1979 para apoiar o regime comunista instalado em abril de 1978. Todos os meios de comunicação eram e são governamentais. O que mudou agora é que há independentes, embora todos necessitem ser financiados por alguma agência de cooperação. Ainda não existe um mercado publicitário que possa assegurar a auto-suficiência, mas haverá.
P- Não havia experiências de jornalismo independente?
R- Sim, mas poucas e distantes. A maior parte dos jornalistas que trabalham comigo têm entre 20 e 35 anos, sendo que 24 deles viveram na guerra. Ou seja, conhecem pouco e nada de algo diferente.
P- A Pajhwok começou a transmitir notícias nos dias anteriores à eleição de 9 de outubro. Qual o resultado?
R- Bom e um tanto desordenado. Aqui há pouca ou nenhuma experiência em promoção e marketing. Tínhamos de começar antes das eleições, embora não estivéssemos totalmente prontos. Montamos uma web provisória, mas estou organizando um relançamento para quando tivermos a definitiva. Há uma grande vantagem, podemos cobrir coisas inacessíveis para um estrangeiro, e nossos jornalistas têm um conhecimento interno que se demora anos para conseguir. Este é um país multicultural, tribal, com camadas que foram se sobrepondo ao longo de milhares de anos de história. Os meios de comunicação locais usam bastante nosso material, e continuam festejando cada vez que alguém o faz dando o devido crédito. Cada vez são mais. Porém, a distribuição é complexa. Pouquíssimos meios possuem Internet, entre 80% e 90% dos afegãos são analfabetos, as rádios locais são o meio mais importante, já que a produção de televisão é complexa, cara e caminha lentamente.
P- Qual a infra-estrutura da Pajhwok?
R- A central fica em Cabul, onde somos cerca de 120 pessoas. Há quatro sucursais, em Herat, Jalalabad, Mazar-e-Sharif e Kandahar, com dois correspondentes em cada uma e muitos colaboradores externos. Agora expandiremos a rede para as principais cidades e províncias. Temos toda a tecnologia moderna e uma casa muito grande em Cabul, com um jardim verde rodeado por rosas altas.
P- Como consegue jornalistas?
R- Colocamos anúncios e as pessoas aparecem. Muitos não são jornalistas, mas estão atraídos pela idéia de sê-lo. Todos passam pelo curso básico de formação. Cada manhã temos uma reunião para decidir a pauta do dia. A mecânica requer um intérprete, mas é tão natural que já nem nos damos conta. Também aqui há formação: perguntar sem piedade o por que de cada nota, como será coberta, quais serão as fontes consultadas. Muitos possuem um insuficiente conhecimento gramatical de farsi ou pashto, os dois idiomas nos quais produzimos nosso material.
P- Há mulheres entre seu pessoal?
R- Mais do que homens, o que é um problema para cobrir certos assuntos e em determinadas horas do dia. Esta é uma realidade "naturalmente" machista. Mas as mulheres não convivem com isso do modo dramático que é pintado pelo Ocidente. Os homens acreditam que dominam, e o conseguem na superfície. As mulheres padecem nessa superfície, cruelmente, mas seus recursos as levam a profundidades e sutilezas que os homens nem imaginam. Agora estamos no Ramadan (mês sagrado muçulmano). Não se come nem se bebe água até às 17h25. a maioria deixa de trabalhar entre 1h e 15h, e a tradição é que as mulheres tenham a comida pronta às 17h25. na agência decidimos que se deveria continuar trabalhando pelo menos até 18h, organizando turnos. A primeira reação dos homens foi dizer que as mulheres não poderiam participar do rodízio. Insisti que deveriam dizer isso a elas. Dá para imaginar o resultado. Sempre acontece alguma.
P- De longe se vê como bastante difícil o trabalho de recolher informação e divulgá-la em clima de guerra.
R- Existe intimidação, violência, sérios problemas de segurança e o país está geograficamente muito incomunicável. Mas as dificuldades principais são as que mencionei antes, e o que mais custa é liberar as perguntas sem as quais um jornalista não existe. Perguntar, sobretudo, por que? e para que? Questionar tudo, inclusive o modo como escrevemos.
P – Ficará vivendo no Afeganistão?
R- Meu contrato com a Pajhwok termina dia 28 de fevereiro, embora já se saiba que não será suficiente. Quanto tempo viverei aqui? Quem sabe? Quando vim pela primeira vez era apenas por três meses. Já estou aqui há um ano. Agora comecei a estudar farsi. Tenho alguns amigos muito bons. Sinto falta da minha mulher e dos meus filhos, embora eles já vivam por sua própria conta.(IPS/Envolverde)

