Bagdá, 20/01/2005 – O governo interino do Iraque detém e ameaça cada vez mais jornalistas. Os meios de comunicação tiveram de restringir sua cobertura sobre o ataque à cidade de Faluja. Entre os cem decretos emitidos pelo ex-chefe da hoje extinta Autoridade Provisória da Coalizão, encabeçada pelos Estados Unidos, Paul Bremer, o de número 65 do dia 20 de março estabelece a Comissão Iraquiana de Comunicação e Meios. Este órgão controla os meios de comunicação através de licenças e regulamentação das telecomunicações, emissões de rádio e televisão, os serviços informativos e a imprensa.
Washington entregou no dia 28 de junho o poder a um governo interino iraquiano "soberano" liderado por Ayad Allawi, ligado ao serviço de inteligência britânico M16 e à norte-americana Agência Central de Inteligência (CIA). Um dos meios que mais sofreram repressão é o canal de televisão via satélite Al Jazeera, que transmite para todo o mundo árabe desde o Qatar. Poucos dias antes da "entrega da soberania", o escritório da emissora em Bagdá foi invadido e fechado pelas forças de segurança. A rede foi acusada de informar de maneira inadequada e proibida, inicialmente por um mês, de enviar suas reportagens para fora do Iraque. Em seguida, a proibição foi ampliada "por tempo indeterminado".
Na última terça-feira, 16/11, o governo anunciou que qualquer jornalista da Al Jazeera que fosse encontrado trabalhando seria detido. O escritório da emissora na capital iraquiana foi bombardeado por um avião em março passado, poucos dias depois de iniciada a invasão liderada por Estados Unidos e Grã-Bretanha. Um jornalista foi morto. Entretanto, a direção da rede havia informado ao Departamento de Defesa norte-americano a exata localização do prédio para evitar por antecipação que isso ocorresse. Agora, a Al Jazeera transmite todos os dias uma desculpa ao público por "não poder notíciar desde o Iraque, pois seus escritórios foram fechados há mais de três meses por ordens do governo interino".
A Comissão de Comunicações recentemente ordenou aos meios de comunicação "que adotassem a linha do governo a respeito da ofensiva dos Estados Unidos em Faluja", ou, do contrário, "enfrentariam ações legais". A advertência foi comunicada em papel timbrado de Ayad Allawi. O documento também solicitava aos meios de comunicação: "Reservem espaço em sua cobertura noticiosa para a posição do governo iraquiano, que expressa claramente as aspirações da maioria dos iraquianos". Há alguns dias, um jornalista da rede de TV Al Arabiya foi detido por forças norte-americanas nos arredores de Faluja quando tentava entrar na cidade.
O Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ) informou que a Al Arabiya havia perdido contato no último dia 11 com o repórter e fotógrafo Abdel Kader Saadi, que vive e trabalha em Faluja. O fotógrafo independente francês Corentin Fleury e seu tradutor, Bahktiyar Abdulla Hadad, foi detido por militares dos Estados Unidos quando abandonavam Faluja, pouco antes do início do ataque. Fleury e Hadad, que estiveram trabalhando na cidade por nove dias, foram mantidos em detenção militar por cinco dias em uma instalação nos limites desse bastião sunita. "Estavam muito nervosos e nos perguntavam o que havíamos visto. Olharam todas minhas fotos e fizeram perguntas sobre elas. Queriam saber onde estavam as armas, coisas assim", contou Fleury à IPS.
O fotógrafo francês havia registrado imagens de casas destruídas por bombardeio aéreo norte-americano e da vida na cidade antes de ser sitiada. "Meu tradutor ainda está detido. Deve ser porque fiz uma foto boba dele com um rifle. Há cinco dias que busco informações sobre Hadad, e a embaixada da França também trabalha nesse sentido. Jornalistas que trabalham com ele enviam cartas, mas até agora não tivemos sorte", disse. (IPS/Envolverde)

