Comunicações: Zona perigosa na Ásia

Bangkok, 20/01/2005 – Na Ásia há cada vez mais meios de comunicação, mas continua sendo o lugar mais perigoso para o trabalho jornalístico, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras. Na classificação de países com maior liberdade de imprensa elaborado pela RSF anualmente, os países da Ásia oriental e do Oriente Médio ocupam as últimas posições. A Coréia do Norte fecha a lista em 167 lugar, a China está em 162, Vietnã em 161, Laos em 153, Arábia Saudita 159, Irã 158, Síria 155 e Iraque 148.

"Nesses países, a liberdade de imprensa simplesmente não existe e os jornalistas estão submetidos à repressão e censura cotidianas. Ali não estão garantidas nem a liberdade de informação nem a segurança dos jornalistas. No Iraque a guerra que perdura é a mais assassina dos últimos anos para a profissão (44 jornalistas foram assassinados desde o início do conflito, em março de 2003)", diz a organização. O continente asiático também está caracterizado pelas contradições. As Filipinas são um dos países da Ásia com maior liberdade de expressão, mas não é um lugar seguro para os jornalistas. Neste arquipélago do sudeste da Ásia morreram oito profissionais este ano, um a mais do que em 2003.

Bangladesh, Nepal, Paquistão e Sri Lanka foram outros países asiáticos onde morreram jornalistas no cumprimento de sua atividade, diz o "Índice Mundial de Liberdade de Imprensa", divulgado na semana passada. O número total de jornalistas assassinados este ano na Ásia é de 44, quatro a mais do que em 2003 e 18 a mais do que 2002, segundo a RSF. A Ásia também se destaca por ser o continente com maior número de jornalistas na prisão. Este ano foram presos 128 repórteres por exercerem sua profissão. O país onde há mais jornalistas presos é a China, com 26, seguida da Birmânia com 11 e Vietnã com três. "No final dos anos 90 havia esperança de que a situação na região melhoraria, mas isso se converteu em ilusão", disse à IPS o representante da RSF para a Ásia , Philippe Latour.

"O pequeno avanço que testemunhamos naquela oportunidade agora está paralisado, e não creio que as coisas melhorem em lugares como Birmânia", acrescentou. Por sua vez, a ativista Kulachada Chaipipat, da Aliança Jornalística do Sudeste de Ásia, disse à IPS que com freqüência os repórteres são ameaçados por governos, poderosos empresários e, inclusive, por juízes. "O pior é que os ataques contra os jornalistas permanecem na maior impunidade. Nunca vimos pessoas que estivessem por trás dos assassinatos de jornalistas serem levadas à Justiça nas Filipinas", disse Chaipipat. A debilidade do Poder Judicial em alguns países da Ásia permite que sejam cometidos todo tipo de violações da liberdade de imprensa e se censure alguns meios, acrescentou.

A última vítima foi Bambang Harymurti, editor da revista Tempo, uma das principais da Indonésia. O jornalista foi condenado, em setembro, a um ano de prisão por ter "difamado" um empresário em um artigo onde apresentava dados que o ligavam a um incêndio intencional que destruiu um mercado têxtil em Jacarta no ano passado. A sentença contra o jornalista foi "uma vergonha", escreveu Kavi Chongkittavorn, editor e colunista do jornal tailandês The Nation. "Vai contra o vibrante processo de democratização iniciado na Indonésia desde a queda (da ditadura do general Ali) Suharto, em 1998", afirmou Chongkittavorn. "É imperativo que a comunidade jornalística regional trabalhe unida para que os governos anulem as leis sobre difamação" que atentam contra a liberdade de imprensa, acrescentou.

A RSF assinalou que em todo o continente asiático são cada vez mais freqüentes os paradoxos como os das Filipinas e da Indonésia, onde, a par de uma maior pregação sobre a liberdade de expressão, aumentam os ataques contra os meios de comunicação. Por exemplo, a situação em Cingapura é semelhante à do Laos e Vietnã, diz a organização. "Nesses países, a imprensa independente não existe ou é perseguida e censurada todos os dias. A liberdade de informação e a segurança dos jornalistas não estão garantidas", diz o relatório.

Por outro lado, os dois países mais pobres do sudoeste da Ásia, Timor Leste e Camboja, estão entre as nações do continente com melhor ambiente para o jornalismo, em 65 e 109 lugares, respectivamente na classificação. "Cingapura é hostil aos meios de comunicação. Há um monopólio sobre a imprensa, e a companhia que a controla está vinculada com o Estado. Por isso, há muitos assuntos que são tabu", disse Latour. A situação é um pouco melhor no Camboja, onde existem alguns limites à liberdade de expressão, mas pelo menos há mais espaço para a imprensa funcionar, acrescentou. A China também segue o paradoxo do continente, segundo a RSF, pois, apesar de contar com cada vez mais meios de comunicação, "o Partido Comunista continua usando a violência" para colocar-lhes freio. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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