Arcada, 18/01/2005 – No curto prazo, a renovação da equipe de George W. Bush pareceria permitir aos neoconservadores dar rédea solta aos seus sonhos imperiais. Porém, uma série de fatores que estão fora de seu controle ameaça não só reduzir seu impulso como, também, levar o império a um final antecipado, inclusive da forma que presumem seus adversários. As recentes eleições serviram apenas para aumentar as profundas divisões existentes na política norte-americana. Essas contradições poderiam fatalmente debilitar o propósito dos Estados Unidos de levar adiante seus planos, como ocorreu no Vietnã.
A insurgência iraquiana está intensificando a determinação dos adversários do império – que desta vez vêm tanto da direita e da esquerda dos Estados Unidos quanto do estrangeiro – de deter o que eles vêem como uma autodestrutiva busca de inatingíveis desígnios de domínio mundial. Em seu segundo mandato, Bush provavelmente experimentará um isolamento do resto do mundo ainda mais intenso, transformando-se em um "superpária" entre as nações. E com seus sempre crescentes custos financeiros, a acelerada perseguição do sonho imperial devastará a economia norte-americana, que já sabotou seu futuro ao comprometer a parte do leão de seus recursos humanos, financeiros e materiais – com gastos militares não produtivos, consumo insustentável, recessivos cortes de impostos e uma corrupção empresarial e estatal sem precedentes.
Ao contrário de seus antecessores conservadores mais moderados, a pequena camarilha que atualmente controla a Casa Branca fala sem pudor de suas ambições imperiais. O xis da vulnerabilidade do império está em sua teimosa negação dos fatos e na cegueira com relação aos limites de seu próprio poder. Alguns analistas dos Estados Unidos duvidam que o mundo queira tolerar outro "século americano" e vêem uma gradual redução do poder norte-americano no decorrer dos próximos 30 anos, na medida em que outras grandes potências, com União Européia, China e Índia, desafiarem o domínio norte-americano.
Contudo, o império norte-americano talvez não dure tanto. No ritmo em que se movem as tendências negativas, tanto dentro quanto fora de seus confins, pode acelerar os tempos. Rico e poderoso como ainda aparece, o governo Bush está perseguindo políticas autodestrutivas que juntas podem criar "a tempestade perfeita" com uma dinâmica não muito diferente daquela do colapso do império soviético. Essas políticas são:
– Mentir compulsivamente para si mesmo, seu próprio povo e para o mundo. O engano deliberado não cega apenas o regime com relação às conseqüências de suas ações, mas, também causa erosão na credibilidade de suas professas intenções e solapa fatalmente a confiança em sua liderança.
– Dividir seu próprio povo, colocando uns contra outros. Karl Rove, o estrategista de Bush, demonstrou ser devastadoramente eficaz em incitar o fervor partidário para roubar ou ganhar eleições, um processo que também devasta a unidade nacional. Essas divisões também se estendem pela base conservadora do Partido Republicano. Além disso, à medida que o império enfraquece no Iraque e mais além, forma-se uma potente oposição entre os militares norte-americanos e dentro os conservadores tradicionais, receosos diante das encrencas estrangeiras e da intrusão do poder estatal.
– Trair os valores e as preferências do povo norte-americano. Ao contrário do que muitos observadores dos Estados Unidos e estrangeiros presumem, pesquisas feitas pelo Chicago Council on Foreign Relations e pela Universidade de Maryland revelam que a maioria dos norte-americanos, incluindo muitos conservadores tradicionais, apóia os tratados internacionais e os enfoques multilaterais na política externa na mesma proporção que os europeus. Curiosamente, de forma errônea muitos também acreditam que Bush persegue essas políticas.
– Levar a economia norte-americana à bancarrota. Mesmo a nação mais rica da Terra não pode sustentar por muito tempo uma economia baseada em hemorrágicas dívidas – estatal, empresarial e pessoal – e em altíssimos déficits comerciais. Uma das primeiras baixas poderá ser o próprio dólar, podendo perder sua condição de moeda de reserva mundial para o euro.
– Enquanto a influência cultural da "Marca Estados Unidos" continua sendo formidável, o sentimento antinorte-americano já está, na prática, reduzindo o lucro das empresas norte-americanas no exterior. Está ficando tão em moda ser antinorte-americano como antes era imitar os norte-americanos. O jornalista Seymour Hersh previu que "se transformará em um mantra não comprar produtos norte-americanos". Tendo desafiado a opinião pública mundial no Iraque e em outras partes, Bush agora enfrenta o fato de que os dirigentes e povos estrangeiros se mostram menos intimidados diante de suas ameaças. Eles estão começando a instrumentalizar acordos globais como o Tratado de Kyoto mesmo sem a participação dos Estados Unidos.
Como muitos norte-americanos, considero a decadência do império não como uma derrota, mas como uma perspectiva de vitória para a grande tradição democrática que se originou em solo norte-americano. A pergunta urgente para o resto de nós é como lidar com esta implosão, levando-a a um processo de deliberada devolução de poderes, de modo que sua reversão para uma república democrática provoque o menor dano a todos os envolvidos. (IPS/Envolverde)
(*) Mark Sommer dirige o Mainstream Media Project, com sede nos Estados Unidos, e apresenta o premiado programa de rádio A World of Possibilities.

