FSM: A informação ao alcance de todos

PORTO ALEGRE, 26/01/2005 – – A discussão sobre os alcances do sistema dominante e a necessidade de aprofundar o debate a fim de desenvolver ações práticas marcaram o I Fórum Mundial sobre Informação e Comunicação, realizado nesta terça-feira em Porto Alegre. O encontro de um dia aconteceu dentro das atividades preparatórias do Fórum Social Mundial, que desta quarta-feira até o dia 31 realiza sua quinta edição também na capital gaúcha com a intenção de cobrir os grandes vazios do passado no conjunto das organizações participantes.
O fórum de informação e comunicação foi dividido em três painéis, moderados por Mario Lubetkin, diretor-geral da agência de notícias internacionais IPS; Sam O´Siochru, do Nexus Research, e Roberto Sávio, secretário-geral do Media Watch Global (MWG) e presidente emérito da IPS. Participaram da mesa o acadêmico francês Armand Matellard; Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique e presidente da MWG; Adrie Papma, da Novib/Oxfam da Holanda; Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace no Brasil; o italiano Giulietto Chiesa, deputado do Parlamento Europeu, e os acadêmicos norte-americanos Andrew Calabrese e Steve Buckley.
Os participantes foram unânimes em estimar que a cobertura do FSM sempre foi passiva, sem se preocupar em transmitir sua mensagem aos grandes meios de comunicação. O sociólogo Cândido Grzybowski, do secretariado executivo do Fórum, disse que enquanto a Internet "nos permitiu entrar em contato com todo o mundo e o fórum foi possível pela existência dessa tecnologia, esta também nos destrói porque não chega a todos, mas somente às elites". Para o FSM, esta é uma questão política de primeira ordem, um problema que tem de ser resolvido, "com a finalidade de chegar a todas as comunidades, já que neste momento temos mais confusão do que diversidade".
Por sua vez, Lubetkin destacou que cerca de três mil a 3.500 jornalistas credenciados são redatores de publicações de organizações não-governamentais "que se limitam a informar aos seus usuários, sem emitir mensagens globais comuns". A proposta que teve maior consenso foi a de criar um sistema de cobertura dos temas do FSM que não se limite aos cinco dias de cada encontro, mas com prolongamento da informação das atividades da sociedade civil durante todo o ano, através do fomento de uma rede de jornalistas que cobrem estes temas.
Existe um "lamentável vazio na informação externa do FSM, porque até agora nunca se contou com um mecanismo ativo do processo em geral e de suas múltiplas atividades anuais", disse a este respeito o diretor-geral da IPS. Outra deficiência destacada com ênfase por todos no encontro foi a carência da chamada "informação do dia seguinte", por não se entender que um FSM é a síntese do que ocorreu durante um ano. "Este fórum de comunicação e informação é um processo que deve construir uma capacidade superior do FSM para comunicar", afirmou Lubetkin.
Por sua vez, Ramonet disse que no mundo atual "surge um problema novo, que são os grandes meios de comunicação, porque nos damos conta que muitas vezes usam seus mecanismos para criar obstáculos à democracia". Os considerados meios de referência nos Estados Unidos "hoje não possuem capacidade para deter a atitude belicista de Washington nem refletem as críticas da sociedade diante do argumento falso para ir à guerra", afirmou o presidente do MWG. A informação "se converteu em uma mercadoria, que circula segundo a oferta e a procura sob as leis do espetáculo que se impõe usando o dramático e a exploração das emoções, em lugar das realidades concretas, tais como criar um melhor conhecimento da sociedade para poder modificá-la", lamentou o jornalista francês.
"Estamos diante de um sistema complexo, múltiplo, mas não confiável, onde os meios de comunicação, que deveriam ser a expressão de setores sociais nos grandes países são controlados por três ou quatro grupos econômicos", concluiu Ramonet. Matellard também reafirmou sua convicção de que "nos encontramos diante de um mundo marcado pela ofensiva de uma cultura única, no sentido de uma ordem total, enquanto nós defendemos a multiplicidade de culturas e seus atores". Esse pensamento único "é tecnocrático e esta será uma luta difícil, porque tudo que se relaciona ao tema da informação e comunicação é difícil de mobilizar as pessoas, embora seja algo que afeta sua vida diária", acrescentou.
As intervenções da maior parte dos presentes coincidiram em que as privatizações dos meios de comunicação não garantem o pluralismo informativo, porque, como sintetizou o jornalista italiano Gianni Miná,"um empresário hoje compra um veículo de comunicação para promover seus negócios e ser favorecido pelo governo". Uma jornalista que não se identificou afirmou que é necessário penetrar com a informação que interessa à sociedade civil nos grandes meios, especialmente audiovisuais, produzindo material de boa qualidade que possa ser usados pelas emissoras de televisão, citando o êxito da organização Greenpeace nesse campo.
As conclusões do I Fórum Mundial sobre Informação e Comunicação estiveram a cargo de Sávio, que recordou que os Estados Unidos consideram politicamente incorreto falar de imprensa, porque este é um assunto do mercado e tudo o reduz à liberdade de propriedade. A concentração da propriedade dos meios de comunicação hoje se identifica, mais do que nunca, com o pensamento único, mas os temas de 30 anos atrás, do debate sobre a nova ordem informativa internacional, continuam atuais, destacou. Sávio entende que os jornalistas contam com uma autonomia relativa, porque é o editor quem determina sua atividade profissional mediante a seleção de temas que possam ser vendidos com critérios de mercado, que cada dia mais é baseado nos acontecimentos, em detrimento dos processos.
Outro aspecto preocupante no mundo dos meios de comunicação é a enorme relação de dependência da política com a informação e hoje se chega até a inventar candidatos, ressaltou o presidente emérito da IPS. Sávio insistiu em que, apesar das milhares de associações de defesa do consumidor existentes no mundo, não há uma única que se ocupe dos direitos dos cidadãos à informação. Estamos muito longe do ponto em que a sociedade civil possa ter um verdadeiro sistema de comunicações. É necessário criar um mecanismo de vinculação permanente do FSM e lutar para que o direito à informação seja um dos direitos humanos básicos, concluiu Sávio.

Mario de Queiroz

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