Madri, 20/01/2005 – A utilização obrigatória de energia solar nos novos edifícios a partir do próximo ano, decidida pelo governo da Espanha, redundará em economia de dinheiro para os usuários, na redução do consumo de hidrocarbonos e em menor contaminação atmosférica. O projeto da administração presidida pelo primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero permitirá instalar 4,5 milhões de metros quadrados de painéis solares até 2010, quando está previsto que a União Européia chegará aos cem milhões de metros quadrados. Desse modo, a UE multiplicará por quase 10 os painéis existentes atualmente, 581 mil metros quadrados dos quais correspondem hoje à Espanha.
É imperioso adotar medidas preventivas, porque o desenvolvimento atual baseado nas energias não renováveis, como petróleo, carvão e gás, é insustentável, afirmou à IPS Domingo Jiménez Beltrán, diretor-geral de Desenvolvimento Sustentável no escritório do primeiro-ministro e ex-diretor geral de Meio Ambiente na UE. Também a ministra do Meio Ambiente, Cristina Narbona, advertiu que se continuar o nível atual de consumo, antes do final deste século estarão esgotadas as reservas de petróleo e gás natural no mundo, por isso considera crucial a diversificação das formas de obtenção de energia.
A medida governamental para obrigar a utilização da energia solar nos novos edifícios se baseia no fato de a água quente para uso sanitário representar o maior gasto na conta de energia dos lares espanhóis, depois da calefação. Segundo um estudo do oficial Instituto para a Diversificação e a Economia Energética (Idae), com um painel de apenas dois metros quadrados no teto de uma casa pode-se garantir um fornecimento entre 50% e 70% das necessidades de água quente calculadas para seus moradores. As variações se devem à orientação dos painéis e á localização geográfica do imóvel.
Além disso, uma casa com uma família equipada com energia solar reduz a liberação na atmosfera de uma quantidade de dióxido de carbono (CO2) equivalente a uma tonelada e meia por ano, igual a 20% da média emitida pelos automóveis na Europa, segundo o Idae. Esse instituto calcula que o sistema solar térmico para água quente terá custo entre 1.100 e 1.400 euros (entre US$ 1.430 e US$ 1820) por moradia, com vida útil de 25 anos. A economia no consumo de energia está calculada em torno de cem euros anuais, o que permitiria amortizar o custo do painel em 10 ou 12 anos.
O governo prevê facilitar créditos específicos e a baixo custo para estas instalações, com o objetivo de conseguir que até 2010 tenham sido instalados 4,5 milhões de metros quadrados de painéis solares. Outra medida disporá que nas novas construções seja obrigatório instalar duplas torneiras para a ligação de lavadoras de roupas e de pratos, a fim de que estes eletrodomésticos bitérmicos possam aproveitar a água quente do sistema solar, o que reduzirá entre 80% e 85% seu consumo elétrico. Jiménez Beltrán considera muito necessárias e úteis as medidas anunciadas, mas entende que devem ser adotadas outras se o desejo é ir fundo no problema.
Em primeiro lugar, diz que o alto e crescente consumo de energias não renováveis, além de contaminar, está queimando – "e nunca foi dito de maneira melhor" – matérias-primas necessárias agora e no futuro para a indústria da construção, petroquímica, têxtil e farmacêutica. Para o especialista ambientalista, o aumento dos impostos sobre a venda dos carburantes será inevitável, para reduzir a demanda. Além disso, os países-membros da União Européia deveriam chegar a um acordo para que todos tenham uma política energética comum, "o que redundará em benefício da saúde, da economia e do futuro do planeta", concluiu.
Na União Européia, a nação que produz mais energia solar é a Alemanha, seguida de Grécia, Áustria, França e Espanha. Este último país tem 10 vezes menos instalações do que a Alemanha, apesar de, por sua localização geográfica, receber mais horas de sol por dia, o que torna mais rentáveis as instalações. A ecologista e catedrática de educação ambiental da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), María Novo, disse à IPS que as medidas anunciadas pelo governo espanhol são positivas e devem ser apoiadas, mas advertiu que é preciso atuar com maior visão de futuro e observando o resto do mundo.
Em sua opinião, deve-se explorar outras fontes de energia renovável, como a biomassa, que produz combustíveis a partir dos restos de produção agropecuária, entre eles a palha que sobra como resíduos depois da colheita do trigo, os caroços das azeitonas e as cascas de amêndoas e nozes. Mas, "em especial deve-se olhar para o Sul", porque, explicou, os países do Norte pagam preços baixíssimos pelas matérias-primas do mundo em desenvolvimento, como os hidrocarbonos, e, em troca, lhes vendem muito caros os produtos tecnológicos.
"Não se deve falar tanto de eficiência energética, mas de igualdade social e renunciar, os do Norte, a continuar se apropriando dessas matérias-primas para acabar com elas". Novo concluiu que a sociedade do Norte industrializado deve repensar seu estilo de vida, "já que por aqui todo mundo tem duas ou três casas, dois ou três carros, com seus respectivos eletrodomésticos, enquanto no Sul grande parte da população carece de moradia digna e nem mesmo pensa na possibilidade de poder comprar um carro". (IPS/Envolverde)

