Metano: Café orgânico em lugar de coca

BOGOTÁ, 20/01/2005 – Uma companhia exportadora de café da Colômbia, propriedade de famílias camponesas que antes cultivavam folha de coca, exportou em 2004 cerca de cinco mil sacas de café orgânico e agora busca consolidar-se para melhorar o bem-estar de suas comunidades. Exposurca é a empresa exportadora da Cosurca, uma cooperativa de camponeses e indígenas do departamento de Cauca (zona montanhosa do sudoeste da Colômbia, apta para o cultivo ilegal da coca), constituída há cinco anos e que agrupa 1.624 famílias, das quais cerca de 1,2 mil de pequenos cafeicultores. As plantações de café livre de fertilizantes químicos alcançam cerca de 78 hectares, em um total de 148 onde era plantada coca (matéria-prima da cocaína).

O café, que corresponde às variedades Typica, Caturra e Colômbia, é exportado em sacas de 60 quilos para Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Holanda e Japão, entre outros países, que pagam em média cerca de US$ 2 a libra (aproximadamente 0,45 quilos), enquanto a cotação do café colombiano na bolsa de Nova York é de menos de US$ 1 por libra. "Nossa empresa quebrou o esquema tradicional de comercialização, já que os camponeses acabaram com a intermediação e recebem mais por seu café", disse ao Terramérica René Ausecha, diretor da Exposurca. A Consurca começou a exportar através de intermediários em 2001, e a Exposurca foi criada no início de 2004, com investimento de US$ 2 milhões por parte da Organização das Nações Unidas e contribuições do governo colombiano.

Para Floro Ruiz, produtor do município de Argélia, o projeto de café orgânico é uma proposta séria, que permitiu às famílias resgatar seus valores e melhorar sua renda. Os camponeses haviam se submetido a plantar coca para solucionar o problema da sobrevivência, mas "quando encontram uma alternativa, como em nosso caso, nos sentimos orgulhosos de não ter de carregar o peso de estar dependendo de um cultivo ilegal", disse Ruiz ao Terramérica. Além do café, estes pequenos agricultores cultivam banana, frutas e leguminosas. A região do sul do Cauca é uma das áreas de confronto militar entre forças do Estado, guerrilheiros esquerdistas e paramilitares de direita, que têm interesse no controle das plantações ilegais.

O incentivo a esses cultivos na região provocou o abandono da agricultura para consumo, a distorção do mercado de trabalho, a inflação na economia local e a violência. Com relação ao meio ambiente, a região sofreu pressão sobre os ecossistemas: números do Ministério do Meio Ambiente indicam que para cultivar um hectare de coca são destruídos quatro de florestas. Também se registra destruição de espécies únicas no mundo, esgotamento do solo e contaminação de rios pelos produtos químicos utilizados na obtenção da cocaína.

O café comercializado pela Exposurca tem o certificado de "comércio justo" da Fair Trade Labelling Organization International (FLO, sigla em inglês), que garante aos produtores renda no mínimo 45% superior à cotação na bolsa de Nova York. Para Urbano, a exportação de café certificado pela FLO "permite e geração de recursos econômicos para investir na plantação, na família e no fortalecimento da organização". Sandro Calvani, representante da ONU no Programa Contra as Drogas e o Crime, disse em abril, durante a apresentação da Exposurca, que "o mercado justo pode ficar tranqüilo, pois com a criação da exportadora há uma redistribuição mais eqüitativa do ganho com o café entre seus produtores e também se assegura que os ganhos dos camponeses aumentarão mais de 40%".

A ONU, através de seus programas para a conversão, investiu em produtos como o café para desestimular o narcotráfico, diante do crescimento desmedido de cultivos ilegais apresentado pela Colômbia nos anos 90, explicou Calvani. Este país é o segundo produtor mundial de café, colhendo anualmente entre 10,5 e 11,5 milhões de sacas de 60 quilos.

* A autora é colaboradora do Terramérica.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Yadira Ferrer

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