Mundo: EUA, do holocausto ao hiper poder

Washington, 28/01/2005 – Para os principais planejadores da política externa dos Estados Unidos desde os atentados de 11 de setembro de 2001, o holocausto judeu não é apenas um fato histórico que deve ser lembrado e condenado. O holocausto é um ponto de partida da visão do mundo dos neoconservadores de Washington. Para eles, o fato de os Estados Unidos terem tido um papel decisivo na derrota do nazismo, do fascismo e do comunismo no século XX é prova contundente, senão concludente, de sua missão redentora, benéfica e excepcional nos assuntos mundiais. Esse mesmo fato justifica, segundo eles, a idéia de que a liberdade de ação de Washington não deve ser limitada por organizações multilaterais nem pelo direito internacional, se o mal está fora.

A política internacional, concebida como um campo de batalha entre o bem e o mal, apresenta então para os neoconservadores, um desafio moral que transcende as legalidades, como afirmou o colunista Charles Krauthammer às vésperas da invasão do Iraque. "Com qual critério moral se pode afirmar que uma intervenção norte-americana para libertar 25 milhões de pessoas é ilegítima por carecer da benção dos carniceiros de Tiananmén ou dos cínicos do Quai d´Orsay?", perguntou. Esta pergunta se referia ao argumento da China e da França, entre outros governos, de que Washington não devia ir á guerra sem a aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

Assim a importância da comemoração esta semana na ONU do 60º aniversário da libertação dos campos de extermínio nazistas está tanto na ligação do holocausto com a realidade internacional atual, quanto no significado histórico da libertação dos prisioneiros de Auschwitz por forças soviéticas no dia 27 de janeiro de 1945. Como disseram o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e outros oradores na sessão inaugural da comemoração, segunda-feira, o termo "genocídio" não se restringe à aniquilação sistemática de seis milhões de judeus e centenas de milhares de ciganos e outras minorias na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, mas também abarca massacres como o de Ruanda em 1994 e, possivelmente o de Darfur, no Sudão, que acontece no momento.
Naturalmente, o movimento internacional moderno dos direitos humanos deve seu nascimento e força moral à repulsa mundial provocada pela descoberta do horror dos campos de concentração. Mas o holocausto judeu também faz parte da essência da visão mundial neoconservadora, que animou a política externa do governo de George W. Bush e de fato está mudando o mundo, embora não da forma como Annan e o movimento internacional dos direitos humanos aprovariam. "Para aqueles da minha geração envolvidos atualmente na política externa e de defesa, o momento de definição de nossa história foi o holocausto", declarou à BBC Richard Perle, ex-presidente da Junta de Políticas de Defesa do Pentágono, pouco antes da guerra contra o Iraque.

Para Perle, que como a maioria dos neoconservadores, é judeu (embora a maioria dos judeus norte-americanos não seja neoconservadora), o holocausto é uma prova irrefutável da existência do "mal", um termo que usa com freqüência em seus discursos. Os neoconservadores, que são unilateralistas, belicistas e colocam os conflitos em termos morais, vêem os acontecimentos mundiais como uma eterna batalha entre o bem e o mal, ou, segundo palavras do teólogo Reinhold Niebuhr (1892-1971), "os filhos da luz" e "os filhos da obscuridade". No último século, o "totalitarismo", de direita ou de esquerda, era o mal.

Mas, como assinalou Paul Wolfowitz, o neoconservador de mais alto cargo na administração Bush em um discurso no final de 2004, o mal nunca morre, e agora assumiu a forma do que alguns chamam de "fascismo islâmico". O que "mudou é que ainda há mal no mundo. Trata-se de um totalitarismo fascista que não difere fundamentalmente do que existiu no século passado", afirmou Wolfowitz, subsecretário da Defesa. Perle reafirmou esta idéia em seu livro "An end to evil" (Um fim para o mal), publicado em 2004. "Para nós, o terrorismo é o grande mal de nosso tempo, e a guerra contra este mal, a grande causa de nossa geração. Não existem termos médios para os norte-americanos: a vitória ou o holocausto", escreveu Perle.

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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