Washington, 28/01/2005 – Tenho certeza de que o Fórum Social Mundial deste ano dedicará uma atenção especial à tragédia de 26 de dezembro de 2005, que devastou a Ásia e partes da África, e tirou a vida de pelo menos 155 mil pessoas. Grupos da sociedade civil, que já estavam em atividade nos países afetados antes do impacto da tsunami, estão desempenhando um papel essencial no tratamento das conseqüências.
De várias maneiras, a reação internacional ao desastre da tsunami nos lembrou que o mundo tem verdadeiramente um coração generoso. A comunidade global, já lutando com uma escala quase que esmagadora da crise, é agora duplamente desafiada a responder à generosidade dos cidadãos do mundo, através da sociedade civil, governos ou dos inumeráveis atos individuais de bondade que estamos vendo todos os dias nas regiões afetadas.
A tarefa mais importante no momento, na qual a sociedade civil está desempenhando um papel vital, é suprir as necessidades básicas das pessoas atingidas pelo desastre, com alimentos, água, instalações sanitárias e medicamentos. Se passamos da assistência à reconstrução, é igualmente fundamental que trabalhemos para quebrar o ciclo de pobreza, criando um futuro melhor e de mais esperança para as pessoas da região, e não recriar as circunstâncias que as tornaram vulneráveis ao desastre.
Com uma longa história de resposta a crises e de reconstrução após destruições em larga escala, o Banco Mundial aprendeu que os pobres são os mais vulneráveis a desastres naturais. Eles vivem precariamente em abrigos frágeis, em locais alagados, margens de rios e faixas costeiras sem proteção de paredes oceânicas. São pessoas que vivem na linha de pobreza, os pescadores de Sri Lanka, Tamil Nadu e Somália, que levam a vida com dificuldade, o fazendeiro acehnese, as mulheres de Thai que vendem artesanato para turistas.
A enorme força desta tragédia é uma das muitas lembranças a que estamos todos ligados, forças visíveis e invisíveis: forças da natureza, forças da pobreza, da doença, do terrorismo, do crime, das drogas. Estas forças nos lembram de como somos pequenos diante da força da natureza e como, ao mesmo tempo, estamos todos indelevelmente conectados.
Isto significa que devemos responder a esta crise no contexto das muitas coisas que nos une, e particularmente com o esforço de alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio e um mundo melhor para todos. Devemos lembrar que a maioria das pessoas mortas era pobre e incapaz de se defender.
Nós sabemos por experiências passadas que os esforços de reconstrução, necessários para tratar das conseqüências da tsunami só podem ser efetivos em parceria com outros. Nós nos juntamos à ONU, que está conduzindo a assistência imediata, também estamos trabalhando com outras instituições financeiras internacionais, particularmente o Banco de Desenvolvimento Asiático e o Fundo Monetário Internacional, e com grupos da sociedade civil local e internacional, enquanto fazemos a transição da assistência para a recuperação de longo prazo.
A fase de reconstrução deve começar rapidamente. Esta fase não é apenas uma questão de recursos financeiros e infra-estrutura física, é muito mais uma questão de fé humana e pressões emocionais. Trata-se da reconstrução das vidas individuais de pessoas, famílias e crianças. Estas são questões que devemos enfatizar. Neste contexto, o papel das comunidades, sociedade civil e setor privado são muito importantes na medida em que trabalhamos para apresentar respostas em conjunto.
Envolver as pessoas de comunidades pobres desta maneira, torna o processo de desenvolvimento real. E nós, no Banco Mundial, certamente queremos trabalhar desta maneira, tentando ajudar as pessoas a reconstruir não apenas os recursos físicos como também sua confiança e esperança para o futuro.
Nós também acreditamos fortemente que a utilização de nossos recursos públicos deve ser transparente, efetiva e mostrar resultados claros. Isto ajudaria não somente no caso desta resposta emergencial, mas também apoiaria governos preocupados com a transparência e o uso efetivo de recursos públicos em geral.
Um princípio importante que deve ser observado, não apenas por minha instituição mas também por outras, é que a ajuda oferecida para atender a estas necessidades especiais deve ser contínua, consistente e adicional a qualquer coisa que já fizemos ou estamos fazendo.
Este ponto é fundamental. Embora as comunidades internacionais juntem forças em encontros importantes, e os países e organizações continuem a fazer promessas, ainda existe uma crescente preocupação de que o nível global de assistência a todos esses países pobres, incluindo as nações atingidas pela tsunami, não aumentará na verdade, e de que a assistência virá apenas do dinheiro existente desviado de outro lugar. Nós não podemos simplesmente tirar recursos de outras questões de desenvolvimento essenciais e colocar os mesmos recursos em uma emergência após a outra.
Conforme ajudamos as pessoas na reconstrução após o desastre, temos que fazer a reconstrução de maneira a tornar os pobres mais seguros e menos vulneráveis a futuros desastres. Temos que fazer a reconstrução de maneira que evite futuros conflitos e restaure a esperança de uma paz duradoura. Isto está muito além da reconstrução de instalações de água, sanitárias e rodovias, diz respeito à reconstrução de comunidades e das vidas de várias pessoas que ficaram chocadas e traumatizadas pela completa devastação da tragédia.
As cenas de pessoas procurando ajudar outras pessoas durante o desastre foram inspiradoras. Grupos da sociedade civil internacional e local estão levantando grandes somas de dinheiro e estão enviando voluntários, alimentos e suprimentos necessários para as comunidades em muitos lugares onde outros não podem alcançar. Em Jacarta, existem relatos de condutores de pedicab doando seu rendimento diário. Como mostram estes gestos de simples humanidade, estamos unidos em nossa dor, unidos por esta tragédia e unidos em nossas preocupações com nossos companheiros seres humanos em lugares que muitos de nós nunca vimos antes.
O desafio para todos nós será o de continuarmos unidos nos próximos meses e anos para ajudar as comunidades pobres a trabalhar na recuperação e na reconstrução. Unidos para tornar as pessoas menos vulneráveis a desastres, unidos na restauração da esperança em um futuro melhor e unidos na criação de mais segurança e paz para as pessoas mais pobres da região.
* James D. Wolfensohn é presidente do Banco Mundial

