Genebra, 18/01/2005 – Nosso país nunca gozou da paz como hoje em dia. Nunca esteve tão estável quanto atualmente. O alcance e a profundidade da reconciliação dos diversos grupos que integram nossa nação nunca foram tão acentuados e nunca estivemos tão livres do perigo de inaceitáveis conflitos políticos como agora. Em contrapartida, o período de 350 anos transcorrido desde a chegada dos colonos holandeses ao Cabo da Boa Esperança, em 1652, até a libertação da África do Sul, em 1994, esteve caracterizado por um conflito ininterrupto e uma permanente incerteza sobre o futuro do nosso país. Durante os últimos anos do sistema de dominação da minoria branca, nosso país experimentou níveis muito altos de violência, enquanto o regime do apartheid fez tudo o que pôde para se manter no poder.
Por todo esse período, ninguém surgiu como vencedor. O oprimido não teve êxito em derrotar e derrocar o regime opressor para, desse modo, negar-lhe a possibilidade de continuar com a imposição da violência contra o povo. E tampouco o opressor teve êxito em derrotar o oprimido nem em fazê-lo incapaz de continuar a luta por sua libertação. Esta luta não resolvida, e com uma situação na qual não havia paz nem guerra, fez com que o futuro político de nosso país seguisse incerto. Além disso, subsistia o perigo de que estourasse o mais sangrento dos conflitos no qual nenhuma das partes cederia em suas posições. Finalmente, a mudança aconteceu como resultado de um acordo negociado essencialmente pelos antagonistas históricos que haviam estado frente a frente nas barricadas durante 350 anos, sem que um ou outro fosse capaz de derrotar e destruir o adversário.
Esta saída pacífica culminou com as igualmente pacíficas eleições gerais de 1994, que surpreenderam os céticos, que haviam se convencido de que nosso povo, negros e brancos, era incapaz de resolver pacificamente seus problemas. Assombrados com o fato de nossas primeiras eleições democráticas terem transcorrido pacificamente, os céticos pensaram que a transição do apartheid para uma democracia não racial era muito boa para ser verdade. Convenceram-se de que cedo ou tarde nosso país se veria consumido pela terrível conflagração racial que haviam previsto para 1994, e quando os dias de paz foram se acumulando, disseram: "esperem até amanhã!". E quando chegou esse amanhã, sem que houvesse sinal algum do apocalipse que prognosticavam, repetiram: "esperem até amanhã!".
Os agourentos não entenderam que as primeiras e principais vítimas da violência e da guerra em nosso país, as massas de nosso povo, negros e brancos, seriam os primeiros e melhores garantidores da paz que haviam ganho em 1994. Isto foi confirmado pelo quase total desaparecimento da violência política em nosso país, inclusive durante os períodos eleitorais. Em 1994, áreas como KwaZulu-Natal e a atual Ekurhuleni (East Rand) foram o epicentro da violência que acabou com milhares de vidas à medida que o regime do apartheid se aproximava de seu desaparecimento. Quando, em nosso décimo aniversário, realizamos as eleições de 2004, as massas populares dessas duas áreas não permitiriam que ninguém as arrastasse novamente para uma situação de violência e guerra.
Por outro lado, alguns entre nossos compatriotas brancos continuaram abrigando falsas idéias de que podem resolver seus problemas se envolvendo em campanhas de atentados com bombas e assassinatos. Entretanto, depois que colocaram uma bomba aqui, outra ali, ficou perfeitamente claro que os que constituem essa faixa lunática não têm absolutamente nenhum apoio da população branca de nosso país. Mais recentemente, e céticos pensaram em amedrontar o povo com afirmações infundadas sobre uma intenção de modificar a Constituição para aumentar o número de mandatos que uma pessoa pode exercer no cargo de presidente da República.
Isto foi parte de uma campanha alarmista que buscou sugerir que a África do Sul está se convertendo em Estado de partido único, o que resultaria no colapso da democracia, de nosso sistema de direitos humanos e do império da lei, levando, assim, à instalação de uma ditadura, etc…etc. Indubitavelmente, por um egoísta e estreito partidarismo e por outras razões, e céticos em nosso meio continuarão com suas maliciosas campanhas baseadas em mentiras, sem levar em conta que os milhões de integrantes de nosso povo, de todas as raças e cores, estão trabalhando conjuntamente para construir a África do Sul de seus sonhos.
Nosso sistema democrático está firmemente enraizado. Não existe força alguma que tenha a possibilidade de miná-lo ou colocá-lo em perigo. Apesar de nossa história, e talvez por essa razão, estamos nas primeiras posições do grupo de países do mundo que são verdadeiramente pacíficos, estáveis e não dolorosamente consumidos pela ameaça das bombas terroristas. (IPS/Envolverde)
(*) Thabo Mbeki é presidente da África do Sul.

