O segredo do modelo nórdico: Atrás dos segredos de Clipperton

PARIS, 20/01/2005 – Compará-lo a Charles Darwin ou Alexander von Humboldt é exagero. Porém, o explorador francês Jean-Louis Etienne se propõe uma tarefa similar às desses gigantes, em Clipperton, um deserto arrecife que fica 1,3 mil quilômetros a sudoeste do balneário mexicano de Acapulco, no Pacífico. A partir de 7 de dezembro, Etienne residirá por quatro meses em Clipperton com cerca de 40 pessoas do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, incluindo biólogos, geólogos, mergulhadores, ornitólogos e especialistas em informática, para realizar uma exaustiva classificação sem precedentes da flora e fauna do arrecife, como Darwin fez nas ilhas Galápagos e Humboldt nos Andes.

A equipe quer estudar também as origens das espécies registradas e o modo como chegaram ao atol, de sete quilômetros quadrados com uma lagoa interna, único nessa região do Oceano Pacífico e descoberto por Fernando de Magalhães, em 1521, embora tenha recebido o nome de um pirata inglês do século XVIII que o utilizou como base. Foi anexado pela França em 1855, e em 1897 o México se apoderou dele e tentou povoá-lo, sem êxito. Manteve uma árdua disputa com a França por sua soberania até que uma arbitragem internacional devolveu aos franceses a posse sobre ele, em 1931.

Clipperton está incluído na lista de áreas protegidas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que o qualifica como "um dos biossistemas menos alterados do Pacífico" e destaca que sua fauna e flora "são excepcionais e de grande interesse biogeográfico, pois incluem espécies americanas da região indo-pacífica".

Em entrevista ao Terramérica, Etienne preveniu que o arrecife, também conhecido como Ilha da Paixão, "não é terra virgem". Há quatro anos, recordou, um cargueiro asiático naufragou perto da costa mexicana do Pacífico, "os ratos da embarcação chegaram a Clipperton, se reproduziram com uma facilidade extraordinária e hoje constituem uma verdadeira praga", que sua equipe pretende eliminar como primeira tarefa. Além disso, as ondas levam todo tipo de dejetos para a ilha e os seres humanos a maltratam, chegando, inclusive, a usá-la como base militar.

Nos anos 60, a França considerou a possibilidade de realizar no local testes com bombas atômicas, e na década seguinte pensou em usá-la como depósito de lixo nuclear, mas abandonou os dois projetos devido a protestos do México e dos Estados Unidos. Etienne suspeita que narcotraficantes utilizem uma precária pista de pouso, construída durante a Segunda Guerra Mundial, para fazer escala no atol.

Segundo Philippe Bouchet, biólogo francês do Centro Nacional de Pesquisa Científica e integrante da expedição, o interesse por Clipperton "está no fato de seus ecossistemas serem muito simples, ao contrário das florestas equatoriais. Devido ao isolamento do arrecife e de seus escassos recursos naturais, as espécies enfrentam enormes dificuldades para se implantarem ali. Uma vez que o consigam, se reproduzem com grande facilidade", comentou. Na ilha habitam cerca de cem mil aves de várias espécies além de grande quantidade de anfíbios, caranguejos vermelhos (Pleuroncodes planipes) e outros crustáceos, e peixes, dos quais foram identificadas aproximadamente 115 espécies, segundo Etienne.

Um atol é uma ilha de corais, constituída pelo cume de um vulcão extinto em cujas ladeiras se formou um arrecife. Quando o vulcão encerra sua fase ativa, começa a afundar lentamente, e pode chegar a desaparecer, deixando uma lagoa central, protegida das ondas do mar e de influências biológicas externas. Em simbiose, os corais protegem as algas verdes e estas produzem, por fotossíntese, o oxigênio que necessitam. Isto não pode ocorrer a mais de 20 metros abaixo do nível do mar, porque em profundidades maiores a luz não é suficientemente intensa.

Clipperton "constitui um laboratório geoquímico único no mundo", já que a água de sua lagoa carece de oxigênio a partir de oito metros de profundidade, e, além disso, contém fortes proporções de ácido sulfúrico, de modo que é uma "caldeira natural, onde se formam fosfatos e, também, um ambiente ideal para o surgimento de organismos originais", explicou Etienne. Este explorador, de 58 anos, ganhou reconhecimento na França por ter atravessado o continente ártico a pé, em 1986, e por suas repetidas viagens ao Himalaia, no Nepal.

Junto com integrantes de sua equipe, estudará o ácido desoxirribonucléico (DNA, suporte do material genético) dos organismos encontrados no arrecife, e o efeito da radiação solar sobre a flora e a fauna locais. Através desses estudos, pensa que também será possível compreender melhor a evolução, durante milênios, de fenômenos climáticos como a corrente de água quente El Niño, que com intervalos de três a sete anos se desloca de uma região do Oceano Pacífico próxima à Austrália para a costa ocidental da América do Sul. Durante os quatro meses que ficará em Clipperton, o explorador escreverá um diário que será publicado em seu site na Internet, para "compartilhar esta experiência com o mundo", disse.

* O autor é correspondente da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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