O segredo do modelo nórdico: Por um debate mais inteligente sobre a aids

NAIRÓBI, 20/01/2005 – O HIV/aids se converteu em uma devastadora pandemia em muitas regiões da África e está se difundindo silenciosa e rapidamente através de vilas e zonas rurais, deixando atrás de si uma esteira de morte e miséria. Isto acontece, em parte, porque essa doença predispõe as pessoas infectadas a sofrerem de outros males, como tuberculose. Assim, a aids continua minando os esforços em favor do desenvolvimento.

Muito em breve teremos 15 milhões de órfãos que perderam pai e mãe por causa da aids e que devem ser criados por seus avós ou por quem tenha ficado com vida entre seus familiares. Agora, já existem muitas casas com portas fechadas porque todos os seus moradores morreram. Nenhum povo sofre tal devastação, em meio a uma grande miséria e abandono, como o africano. Faz falta uma informação correta que chegue às comunidades locais, porque desinformação é grave. Por exemplo, atribui-se essa enfermidade a uma maldição de Deus, ou se diz que manter relações sexuais com uma virgem cura a infecção. Estas crenças levam a um grande aumento das violações contra meninas.

No calor deste debate, complicado devido às perspectivas culturais e religiosas, eu mesma fui alvo de falsas acusações. Portanto, é fundamental, para mim, afirmar que não disse nem acredito que o vírus foi desenvolvido por pessoas brancas, ou por potências brancas, com a finalidade de destruir o povo africano. Tais versões são perversas e destrutivas. Nós, na África, devemos fomentar um debate mais livre e inteligente sobre a ameaça da aids.

Eu estou particularmente preocupada pelas muitas jovens pobres que não têm outra opção para ganhar a vida do que vender seu corpo. Elas estão sendo infectadas pela enfermidade de forma desproporcional. Impossibilitadas de terem acesso à instrução, a cuidados médicos e ao direito de propriedade, são vítimas, cada vez mais, da violência, das violações e da prostituição. Não sou uma especialista em HIV/aids, eu me informo. Quando buscam meu conselho, enfatizo junto às comunidades locais a necessidade de se encarar seriamente esta doença, de as pessoas a controlarem e enfrentarem sua disseminação.

Destaco a necessidade de defender os valores sociais positivos que sustentam nossas sociedades tradicionais, bem como a abstinência entre os jovens e a fidelidade dos casais. Hoje em dia, o uso do preservativo é uma opção. É importante que todas as opções à disposição sejam usadas responsavelmente.

Freqüentemente nos vemos diante de comportamentos irresponsáveis. No Quênia, por exemplo, há muitas pessoas que infectaram outras deliberadamente e confessaram isso. Durante o governo anterior (1978-2002), a expansão da aids foi mantida em segredo durante nada menos do que 16 anos. Em Uganda, há 15 anos, o medo era de que a doença pudesse destruir toda a sociedade. Agora, existe uma espetacular melhora da situação e a explicação para isso é a liderança política responsável por parte do governo do presidente Yoweri Museveni.

Os líderes homens, em toda a África, deveriam buscar inspiração nos ex-presidentes Nelson Mandela, da África do Sul, e Kenneth Kaunda, de Zâmbia, que estão utilizando grande parte de seu tempo e de seus esforços para lutar contra a pandemia.

* A autora é ambientalista queniana e prêmio Nobel da Paz de 2004.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Wangari Maathai

Wangari Maathai, the 2004 Nobel Peace Laureate, is a member of Kenya’s Parliament and the founder of the Green Belt Movement (www.greenbeltmovement.org).

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *