Política: Nostalgias da cortina de ferro na Europa oriental

Praga, 20/01/2005 – Milhões de habitantes da Europa oriental estão convencidos de que a vida para eles era melhor antes do colapso do sistema comunista, há 15 anos. Um em cada cinco checos, em sua maioria com mais de 50 anos, gostariam de regressar ao comunismo, enquanto mais da metade dos pensionistas afirmam que o país fez mal em escolher a democracia em 1989, segundo pesquisa feita na República Checa pela agência Median. Pesquisas realizadas em outros países ex-comunistas revelaram que muitos adultos mais velhos consideram que a vida era menor na época do comunismo.

Na Polônia e na antiga Alemanha Oriental, esta nostalgia está suficientemente difundida a ponto de ganhar nome próprio: Ostalgie, ou nostalgia do Leste. Na Eslováquia, a metade dos entrevistados em outubro pela agência MKV manifestou insatisfação com as mudanças experimentadas no sistema político desde 1989. E na Rússia, onde sucessivos regimes comunistas estiveram entre os mais repressivos do mundo, o Partido Comunista ainda goza de amplo apoio. O fenômeno reflete uma mescla de insegurança social e simples nostalgia entre as pessoas mais velhas do antigo bloco oriental, afirmam especialistas.

Trata-se de "uma combinação de nostalgia e reação humana de olhar para trás e ver a época da juventude em cor-de-rosa", disse Jan Buncak, catedrático de sociologia da Universidade Comenius, na Bratislava, capital da Eslováquia. Entretanto, também reflete "preocupação pela falta de segurança em termos de emprego e benefícios, que o comunismo garantia a todos", disse à IPS. A mudança da economia de planejamento central para a de livre mercado, depois da queda do muro de Berlim, acabou com o emprego garantido e com o apoio financeiro estatal para todos os que precisavam. Além disso, o preço dos artigos de consumo ficou liberado e foram retirados os subsídios estatais para necessidades básicas como energia e calefação.

O desemprego nos países que antes integravam o bloco soviético agora é maior do que na Europa ocidental. Polônia e Eslováquia registram os maiores índices de desemprego da Europa, com 19% e 14%, respectivamente. A República Checa tem 9% de desempregados. Também a criminalidade é hoje um problema maior do que antes. As autoridades comunistas consideravam que a ordem pública era sinônimo de um bom funcionamento do aparelho estatal, e que o Estado-polícia era o motivo para que o crime organizado fosse raro nesses países. "Antes, havia muito mais ordem na sociedade e muito menos crimes", disse Antonin Kutek, ex-membro do Partido Comunista checo e atual empresário, em entrevista ao jornal Mlada fronta Dnes. "As pessoas tinham muito mais respeito pela polícia, promotores e tribunais", acrescentou.

O temor pela insegurança social e desordem pública se traduziu em um apoio real aos partidos comunistas da Europa oriental. Na República Checa, pesquisas feitas periodicamente atribuem ao Partido Comunista entre 1% e 20% do apoio popular. O partido conta com 41 legisladores em um total de 200. já o Partido Comunista da Eslováquia obteve 6% dos votos nas últimas eleições parlamentares, realizadas em 2002, convertendo-se em um dos três maiores partidos de oposição. Na Rússia, o PC ficou em segundo lugar nas eleições legislativas do ano passado, com mais de 12% dos votos. Apesar desse renascimento do apoio aos partidos comunistas na Europa oriental, poucos acreditam que se transformarão em forças políticas dominantes, porque contam apenas com o apoio da geração mais velha.

"Os que sentem nostalgia do comunismo ou o apóiam politicamente são todos maiores de 50 anos. As gerações mais jovens não têm nenhum interesse no comunismo", disse Buncak à IPS. Segundo a pesquisa feita este mês na República Checa pela agência Median, a grande maioria das pessoas com menos de 40 anos não quer um retorno ao comunismo. Apenas 8% dos entrevistados entre 15 e 19 anos, 3% entre 20 e 29 anos e 7% com idade entre 30 e 39 anos querem uma sociedade como a anterior a 1989. por outro lado, 31% das pessoas de 50 a 59 anos e 56% das que têm entre 60 e 69 anos querem a volta do comunismo. (IPS/Envolverde)

Pavol Stracansky

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