Estados Unidos-Europa: As relações complicadas

Miami, 23/02/2005 – Observadores otimistas nas duas margens do Atlântico expressaram sua satisfação pelos confortantes resultados na estréia da nova secretária de Estado, Condoleezza Rice, durante sua viagem ao Oriente Médio e à Europa, em preparação ao giro europeu do presidente George W. Bush. Em contraste com a pauta anterior do presidente de ignorar a União Européia em seus discursos desde o 11 de Setembro, com a exceção de uma isolada referência no discurso de posse de seu segundo mandato, Rice se referiu à UE nada menos do que três vezes em sua entrevista em Paris. Foi um apoio tão apropriado quanto o endosso que deu ao projeto de uma Europa mais unida, durante sua viagem a Bruxelas, quando se reuniu com "quem é quem" da UE.

Por isso, são compreensíveis as altas expectativas quanto à viagem de Bush. Mas um setor muito influente do establishment político e econômico norte-americano considera que uma União Européia mais supranacional, dotada de uma explícita e autônoma política exterior (tal como modestamente se delineia no Tratado Constitucional) é errônea, frágil e custosa. Também considera que sua execução a colocará em competição com os Estados Unidos. E mais: é interpretada como hostilidade desleal. Esta percepção está atualmente experimentando a mesma sensação que a percebida no início do processo de aprofundamento da União Européia que desembocou na aprovação do Tratado de Maastricht e na adoção do euro com moeda comum. Supunha-se que os dois projetos falhariam e que os europeus mais uma vez seriam incapazes de por ordem em sua casa.

Enfrentando a evidência, esse setor norte-americano adotou uma atitude de fuga para mais adiante se colocar a par dos acontecimentos. Depois do 11 de Setembro, a evolução pelo nervosismo causado pelo progresso da UE virou preocupação, e depois, pânico. De uma possível causa de guerras européias, o euro passou a ser apontado como o culpado pela perda do valor do dólar. A pressão de Washington para que os europeus se responsabilizassem mais por sua defesa se transformou em um grito de protesto quanto a Europa levou a competição a sério. O incentivo entusiasta à integração européia nos anos 50 e 60 e o apoio da Otan se deterioraram, sendo substituídos por desinteresse, desdém e preocupação econômica. Esta sensação teve seu precedente quando se enfrentava a "Fortaleza Européia" no início da década de 90.

Apesar disso, Washington respondeu com competição leal e contribuiu para o desenvolvimento de esquemas de livre comércio sob sua influência na América Latina (Nafta, Alca) e no Pacífico. Mas a atmosfera nublada que inaugurou o novo século deu lugar a uma atitude mais agressiva com relação ao processo de integração européia. O 11 de Setembro e suas conseqüências intensificaram a missão autopropulsada de dominar o mundo que os Estados Unidos se arrogaram depois do final da Guerra Fria. De apoiar a União Européia, a atitude norte-americana se transformou em uma política errática de "desagregação". A oportunidade política da ambiciosa ampliação européia foi manipulada. A "nova Europa" inventada por Donald Rumsfeld foi favorecida como oposta a de Bruxelas. O sensível tema da entrada da Turquia se converteu em uma arma de pressão.

Muitas dimensões da UE são consideradas prejudiciais para os interesses dos Estados Unidos. Sérios desacordos subsistem: Kioto, China, Boeing-Airbus, Microsoft, leis extraterritoriais, bananas. Mas estes desacordos são insignificantes se considerar-se que representam uma porcentagem mínima em um universo notável de confluência econômica. O problema é mais fundo e faz com que a frase de Calvin Coolidge ganhe novo sentido: o que é bom para a Europa é ruim para a América.

Bush deve aproveitar a oportunidade de sua viagem à Europa e corrigir a pauta atual, forçado por limitações de poder militar e econômico, e também não só pela erosão do poder "brando" e da influência moral, mas por seu eventual total desaparecimento. Através do reconhecimento da conveniente aliança com uma UE mais forte, a brecha no Atlântico pode diminuir consideravelmente. Entretanto, dependerá da profundidade e da substância do reconhecimento de uma autônoma política externa da União Européia e da coordenação de missões comuns, em substituição à atual política unilateral formada na "coalizão de voluntários" que hoje prevalece. (IPS/Envolverde)

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e Diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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