Arbil, Iraque, 15/02/2005 – A coalizão xiita vencedora das eleições no Iraque, apadrinhada pelo grande aiatolá Ali Sistani, se prepara para formar um novo governo com apoio curdo e inspirado no regime islâmico do Irã, embora não totalmente clerical. A Aliança Iraquiana Unificada (AIU), liderada por Sayyed Abdel Azziz Al Hakim, chefe do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, obteve 48,1% dos 8,5 milhões de votos emitidos no dia 30 de janeiro, informou no último domingo a Comissão Eleitoral. Hakim, ex-chefe das milícias xiitas Brigadas Badr, viveu durante quase 20 anos exilado no Irã e voltou ao seu país depois da queda do regime de Saddam Hussein com a invasão norte-americana-britãnica de 2003. Por muitos anos, a maior parte do financiamento do Conselho Supremo procedeu do governo iraniano, e por isso essa vitória supõe uma mudança radical nas relações entre Bagdá e Teerã.
"O Irã ajudou toda a anão iraquiana por duas décadas", disse há alguns dias Hakim à agência de notícias United Press. "Considerando os vínculos históricos e religiosos entre os dois países, o vínculo entre Irã e Iraque se baseará na amizade, no respeito mútuo e no princípio de não interferência", acrescentou. Hakim reconhece o Irã como "fonte de legislação", embora descarte a criação de um governo clerical como o de Teerã. "Não tenderemos nem para um Estado totalmente islâmico nem para um totalmente secular, mas algo intermediário", afirmou. Os resultados divulgados no domingo indicam que a coalizão xiita carece de maioria parlamentar necessária para impulsionar sozinha determinadas iniciativas. Portanto, deverá buscar algum acordo com os partidos curdos, que ficaram em segundo lugar com 26% dos votos, ou com a lista do primeiro-ministro interino, Iyyad Allawi, apoiado pelos Estados Unidos, que teve 14%.
No entanto, Hakim expressou sua inclinação em formar uma coalizão apenas com os curdos, que demandam a autonomia da região norte do país, rica em petróleo. O jornalista curdo Sahun Da´oud, da cidade de Kirkuk, afirma que a colaboração de Allawi com a ocupação norte-americana é que leva os xiitas a preferirem a proposta de autonomia curda. "Uma coalizão entre os xiitas e os curdos seria boa porque não lutamos um contra os outros. Os xiitas estão no sul e os curdos no norte. Os sunitas estão bem no meio, e por isso nunca lutaremos", afimrou.
A história das diferenças entre sunitas e xiitas tem 14 séculos, mas, atualmente, se apóia mais em razões políticas do que em motivos religiosos. Depois da morte de Maomé, o máximo profeta do Islamismo, os muçulmanos se dividiram entre os seguidores do califa Abu Bakr e os de Ali ibn Abi Talib, genro de Maomé. A divisão se formalizou com a morte, no ano 661, do imã Ali, e sua substituição por seu rival Muawiya. Os que reivindicavam os direitos ao poder religioso e político dos descendentes de Ali ficaram conhecidos como xiitas, em contraposição aos sunitas, que admitiam a tradição e o direito à livre sucessão, não hereditária.
A maioria dos iraquianos é xiita (62%), e representa a população hegemônica no sul, enquanto no centro predominam os sunitas (35%), o grupo islâmico dominante no mundo árabe e também no regime do hoje prisioneiro ex-presidente Saddam Hussein. Quanto à composição étnica da população iraquiana, os árabes constituem três quartos, enquanto os curdos, que em sua maioria professam o Islamismo sunita, somam 20%. Esta comunidade é majoritária no norte, apesar da campanha de limpeza étnica implementada na região pelo governo de Saddam. O primeiro-ministro Allawi, um xiita de família rica e tendência laica, viajou há alguns dias ao norte para dar uma entrevista coletiva conjunta com o líder curdo Masoude Barzani, na qual ambos rejeitaram a criação de um governo formado pro apenas uma etnia ou ramo religioso. Alguns observadores vêem nesta atitude uma tentativa de Allawi de permanecer no poder apelando para o apoio de alguns grupos curdos e sunitas que boicotaram as eleições. Mas, a contagem dos votos não lhe foi favorável.
Enquanto curdos e xiitas consolidavam frentes unidas, muitos partidos sunitas boicotaram as eleições. Assim, sua representação eleitoral ficou muito reduzida. O atual governo e as forças de ocupação atribuem a maioria dos atentados terroristas que hoje assolam o Iraque a extremistas sunitas. "O principal objetivo dos sunitas é evitar que se forme um governo apoiado pelo Irã", afirmou Majid al-Samarai, colunista do diário Ez Zamman, de Bagdá, e ex-apresentador de televisão. A seu ver, manter Allawi no poder á o único caminho para garantir a estabilidade, embora reconheça que não seja a saída mais popular. "Há uma espécie de acordo no atual governo em busca de uma solução moderada. Haverá um governo secular, que procurará ser respeitado por todos os iraquianos e evitar um conflito com os Estados Unidos", afirmou.
Majid Al Samarai, como a maioria dos sunitas, acredita que o principal objetivo do próximo governo deve ser expulsar os 150 mil soldados norte-americanos que ocupam o território. "A resistência à ocupação está viva, mas poderá haver uma redução da violência se o governo propor um plano para que os Estados Unidos abandonem o Iraque. Este deve ser um dos planos do próximo governo. A população sunita em geral não aceita os ocupantes. Tem de haver um plano que seja seguido", afirmou. Nesse aspecto, muitos sunitas vêem com certo agrado Hakim, que durante a campanha eleitoral destacou a necessidade de retirada gradual das tropas norte-americanas. "Nenhuma pessoa digna quer ver tropas estrangeiras em seu país, e a população iraquiana não é uma exceção. Esperamos que, com a formação o mais rápido possível das forças de segurança locais, as tropos estrangeiras deixem o país", afirmou Hakim. (IPS/Envolverde)

