Genebra, 09/02/2005 – A vacina contra aids somente estará disponível a médio prazo, talvez dentro de 10 anos, mas quando sua descoberta for uma realidade todos o afetados por este flagelo no mundo poderão recebê-la sem impedimento em razão do regime de patentes farmacêuticas, afirmaram funcionários da Organização Mundial da Saúde. A diretora da Iniciativa de Pesquisa de Vacinas da OMS, Marie-Paule Kieny, disse que as pesquisas ainda estão em uma etapa de testes sobre o que pode, ou não, proteger contra o vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV), ante-sala da aids, que no final de 2004 infectava aproximadamente 39,4 milhões de pessoas. Portanto, esta pesquisa se estenderá, pelo menos, no médio prazo, deduziu.
Só podemos dizer que é muito improvável que uma vacina contra o HIV esteja disponível em menos de cinco anos. Em período mais remoto, como cerca de 10 anos, é mais plausível que se chegue a dispor de algo, acrescento Kieny. Dois testes de eficácia de vacinas completados os Estados Unidos e na Tailândia entre 2003 e 2004 deram resultados desanimadores e demonstraram que a população imunizada não estava protegida contra o HIV. Desde então, outros testes de maior amplitude são feitos na Tailândia, onde se espera inocular a vacina em cerca de 16 mil voluntários. Esperamos dispor dos resultados deste novo teste clínico em 2007 ou 2008, aproximadamente acrescentou Kieny.
A pesquisadora disse que uma eventual vacina contra a aids poderá também evitar a aplicação dos direitos de patentes farmacêuticas pelo regime de propriedade intelectual da Organização Mundial do Comércio (OMC). O HIV é uma questão de urgência. É verdade que a maioria das vacinas que estão em fases de testes está associada à proteção de patentes ou, pelo menos, aos pedidos de registro de propriedade, explicou Kieny. Entretanto, temos poucas dúvidas de que uma vez que os produtos tenham comprovado sua eficácia a comunidade mundial se unirá para assegurar que os direitos de patentes não impeçam que as populações afetadas tenham acesso às vacinas, ressaltou.
A funcionária da OMS recordou o caso dos anti-retrovirais, os medicamentos utilizados com melhores resultados até agora para enfrentar os efeitos da aids nos doentes. Depois de uma campanha internacional que mobilizou países em desenvolvimento, com Brasil, África do Sul e Índia na liderança, e as maiores organizações não-governamentais humanitárias, a conferência ministerial da OMC, realizada em 2001, em Doha, introduziu exceções ao regime de licenças estabelecido pelo tratado dessa organização sobre Aspectos da propriedade intelectual relacionados com o Comércio (Adpic), também conhecido por sua sigla em inglês TRIPS.
O caso dos anti-retrovirais exigiu um tempo, mas, finalmente, foi resolvido. Portanto, "não vejo razões para que não ocorra o mesmo com as vacinas", comentou Kieny. Por outro lado, ao contrário dos tratamentos de pacientes com aids, a área das vacinas está muito subvencionada com fundos estatais. Dessa maneira, o setor público cuidará pra que as vacinas estejam à disposição das populações afetadas, acrescentou. A busca de vacinas contra o HIV remonta a 1987, quando foram feitos nos Estados Unidos os primeiros testes clínicos humanos. Desde então, mais de 70 testes das primeiras fases da pesquisa foram efetuados com diferentes mostras e conceitos de vacinas em diversos países.
O caso mais recente é o anunciado segunda-feira em Nova Délhi, sobre o primeiro teste clínico humano de uma vacina contra o HIV por parte de cientistas da Índia. Os pesquisadores inocularam nessa data a vacina em um grupo de 30 voluntários, mulheres e homens, entre 18 e 45 anos de idade. A vacina se baseia no tipo de vírus que prevalece na Índia, explicou, em Genebra, o pesquisador Saladin Osmanov, coordenador da Iniciativa de Vacinas contra o HIV da OMS e do Programa Conjunto das Nações Unidas contra a Aids (Onusida). A experiência divulgada pela Índia é um sinal positivo e muito importante, pois não sabemos que enfoque de vacina será mais eficaz e as múltiplas amostras de vacinas têm de ser testadas em populações onde logo serão eventualmente usadas, explicou Osmanov.
Por essa razão, os testes devem ser feitos em diferentes partes do mundo e a Índia está contribuindo com esse esforço com testes em seu território, acrescentou o especialista. Isso é especialmente importante porque a Índia é um país de grande população (1,1 bilhão de habitantes), com elevado número de pessoas em situação de risco perante a aids, que se beneficiarão no futuro com uma vacina de sucesso contra o HIV, insistiu. Osmanov disse que o programa de desenvolvimento de uma vacina contra o HIV é extremamente caro. Desde a pesquisa básica, a pesquisa pré-clínica, até a realização de testes clínicos pode demandar investimentos de centenas de milhões de dólares, acrescentou.
Grande parte dos aspectos da pesquisa que se realiza em todo o mundo para se chegar a uma vacina contra o HIV foi analisada na semana passada por especialistas de países industrializados e em desenvolvimento durante reunião realizada na cidade suíça de Montreux. Como no caso da Índia, é necessário aumentar em todo o mundo a capacidade para realizar testes clínicos multicêntricos diante das cepas de HIV prevalentes em diferentes países ou regiões e em populações com diferentes modos de transmissão, afirmam os especialistas. Os participantes da reunião recomendaram que a OMS e a Onusida promovam a inclusão de mulheres e adolescentes nos testes clínicos sobre as vacinas contra o HIV. (IPS/Envolverde)

