Comunicação: Jornalismo pelos direitos da infância

Brasília, 21/03/2005 – A América Latina produz mais alimento por pessoa do que a maior parte do mundo, o que torna inaceitável que muitas de suas crianças morram de fome, disse o diretor regional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) Nils Kastberg, ao lançar na Internet o site Acción 17(www.accion17.org ), destinado à troca de idéias, informações e experiências entre jornalistas, comunicadores e especialistas da Iberoamérica sobre a comunicação a favor da infância. O nome do site se deve ao artigo 17 da Convenção sobre os Direitos da Infância, um tratado internacional ratificado por todos os países ibero-americanos. Nesse artigo os Estados reconhecem a importância da comunicação e se comprometem a promover o "acesso a informações e materiais" para promoção do bem-estar e da saúde física e mental das crianças.

O projeto foi lançado na quinta-feira passada, e nasceu de uma associação entre o Escritório Regional do Unicef para a América Latina e o Caribe e a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), uma organização não-governamental brasileira. A questão da fome dominou a entrevista coletiva de lançamento do Acción 17 e que teve lugar por ocasião da 32ª Sessão do Comitê Permanente de Nutrição das Nações Unidas, realizado na semana passada, em Brasília. "Escolhemos a reunião do Comitê porque a questão da nutrição é fundamental para debater os direitos da criança. Atualmente, cerca de 4,2 milhões de crianças estão desnutridas na América Latina", explicou Marcus Fuchs, diretor de Planejamento da ANDI. "Não haverá desenvolvimento humano se não superarmos a negação do direito à nutrição", afirmou.

O site acción 17 pretende ser um ponto de encontro de jornalistas, um serviço para enriquecer as notícias e informar de maneira mais eficaz o público sobre os problemas da infância. "A informação é um direito de todos", lembrou Fuchs. Além do intercâmbio de experiências, o site oferece um banco de fontes, material de apoio sobre jornalismo e infância e, ainda, uma biblioteca onde estarão disponíveis documentos, relatórios e estatísticas sobre infância e adolescência de todos os países da ibero-americanos. Também a partir do site serão promovidos fóruns, pesquisas e diálogos virtuais. "A idéia do projeto é converter jornalistas em especialistas no assunto", segundo Kastberg.

A nutrição e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio foram temas centrais do ato inaugural. "Estamos em Brasília para analisar estudos de casos, buscando cumprir as metas", afirmou Roger Shrimpton, secretário-executivo do Comitê Permanente. As oito Metas do Milênio foram adotadas pela comunidade internacional em setembro de 2000. A primeira propõe chegar a 2015 rendo reduzido pela metade a proporção de população que sofre de pobreza extrema e fome. Quase 900 milhões de pessoas sofrem de fome em todo o mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

"O que se notou nestes estudos é a confusão que palavras como fome, por exemplo, podem causar", disse, se referindo aos informes apresentados por Brasil, Angola, Bolívia e Moçambique durante o encontro, que reuniu cerca de mil pessoas, entre representantes de governos, da sociedade civil e de organismos internacionais. Os meios de comunicação empregam a palavra fome como uma ferramenta para sensibilizar o leitor, mas, também é possível entendê-la como uma má ingestão ou falta de alguma substância necessária. "É necessário sugerir termos concretos para cada situação", recomendou. A criação do site é "mais do que oportuna", afirmou Renato Maluf, membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar do governo brasileiro.

A busca da segurança alimentar exige ação intersetorial, articulação entre diferentes órgãos governamentais, sociedade civil e meios de comunicação. "Nosso desafio é tornar compreensível o significado da insegurança alimentar, porque a compreensão atual do termo, tanto por parte da população quanto dos jornalistas, não é adequada", ressaltou. Representantes da sociedade civil destacaram durante o encontro do Comitê que a nutrição é indispensável para o bom desenvolvimento de meninas e meninos. A metade das mortes de menores de 5 anos é uma conseqüência da desnutrição. Entretanto, o site acción 17 não se limita a esse tema. "Queremos promover no site a situação e os direitos da infância em geral", declarou Kastberg, reconhecendo, entretanto, que a primeira meta do milênio influi em outras relacionadas com a infância, como mortalidade, saúde e educação. (IPS/Envolverde)

Felipe Seligman

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