Danilo Astori: Os grandes problemas do Mercosul continuam sem solução

Montevidéu, 21/03/2005 – O ministro da Economia do novo governo esquerdista do Uruguai, Danilo Astori, acredita que agora está claro para organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) que as prioridades da política econômica de um país são fixadas pelo seu governo. E se alegra com o resultado da troca da dívida argentina, embora nunca tomaria esse rumo. Senador e ex-decano da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade da República, Astori competiu no passado com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, pela principal candidatura da coalizão de esquerda Frente Ampla, que venceu as eleições em outubro do ano passado.

P- Como viu o resultado da dívida da Argentina com portadores de bônus?
R- Com grande alegria por ter a Argentina concluído com êxito essa etapa tão difícil. Me alegro pela Argentina e pelo Uruguai. Isto reduz o risco da região e repercute favoravelmente em nosso país. Uma agência internacional acaba de elevar a nota da dívida pública uruguaia, ao mesmo tempo em que baixou o risco-país. Além disso, o fim do default da Argentina abre as portas para um fluxo de investimentos nesse país, que valorizará sua moeda, beneficiando o Uruguai, porque vai ganhar em competitividade.

P- Quais lições deixa a saída do default argentino para os países em desenvolvimento?
R- O governo argentino dirigiu bem um processo muito delicado. Mas eu não mudo por nada o caminho seguido pelo Uruguai (que negociou em 2003 com os portadores de bônus uma troca voluntária de papéis). A Argentina conseguiu superar o problema, mas com custos muito sérios que deverá remontar nos próximos anos. A história do endividamento e os rumos que adotaram os países foram diferentes. Comprovamos o respeito que existe nos mercados financeiros e nos organismos internacionais pela forma como o Uruguai manejou a crise e a reprogramação de sua dívida em bônus. Esse é um capital imenso, que vamos aproveitar muito bem quando iniciarmos, em breve, a emitir dívida para obter financiamento extra-orçamentário.

P- O Uruguai deve negociar nas próximas semanas com o FMI e o Banco Mundial. O que tem a dizer sobre as críticas a esses organismos?
R- É evidente a necessidade de mudanças. E os organismos financeiros não são impermeáveis a esse debate. Na linguagem e nos documentos do Banco Mundial e do BID dos últimos anos foram introduzidos novos conceitos sobre a pobreza, sobre o desenvolvimento. Dentro do FMI também está havendo autocrítica. Pudemos atestá-lo nas reuniões que mantivemos com funcionários desses organismos. Agora está claro que o que determina a política econômica e os objetivos de um país é seu governo, e não o Fundo.

P- Mas o Fundo pressiona. E no caso da Argentina as pressões foram muito fortes.
R- Fomos testemunhas dessa dureza em algum encontro internacional no qual o Uruguai tentou mediar para baixar o volume dessas tensões. Mas desde o início deste processo, a Argentina jamais deixou de pagar ao FMI e a outras agências multilaterais. E agora tem espaço para discutir um acordo com o Fundo em outras condições.

P- Brasil e Argentina impulsionam a integração política do Mercosul, um parlamento regional e a incorporação de novos membros. Mas não se avançou em problemas comerciais básicos, nem no fundo para combater as diferenças dos sócios menores, nem na política de complementação produtiva. Como cumprir a promessa de "mais e melhor Mercosul" do presidente Tabaré Vázquez?
R- Concordo com o diagnóstico, não foram resolvidos problemas comerciais, as diferenças e a complementação produtiva; tampouco há progressos em outros assuntos, como os mecanismos de solução de controvérsias. Há dificuldades até em aplicar a zona de livre comércio, nem o que falar da união aduaneira. O parlamento regional é um objetivo muito importante, mas somente poderá ser atingido quando forem resolvidos os problemas comerciais e econômicos. E para isso são necessárias definições e ações políticas em matéria econômica e comercial.

P- Em julho, o Uruguai assume a presidência rotativa do bloco e seu governo definiu prioridades, como conseguir um acordo com a União Européia, que é negociado há 10 anos. Quais ações serão empreendidas?
R- Para o Uruguai é muito importante um acordo com a UE. A presidência temporária tem um valor simbólico, mas que se pode aproveitar para aprofundar os compromissos dos sócios.

P- O governo esquerdista uruguaio tem uma grande sintonia com o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, a Venezuela de Hugo Chávez e a Argentina de Kirchner, mas também está marcando um perfil próprio. Para negociar com a UE será necessária flexibilidade do Brasil. Além disso, Montevidéu mantém a candidatura de um uruguaio para a direção da Organização Mundial do Comércio, quando Brasília pretendia o apoio do Mercosul para seu candidato próprio. Como enfrentar as diferenças?
R- Dialogando, negociando, argumentando nossas razões. O Uruguai pode ter um importante papel articulador. O Brasil será chamado a exercer a liderança da região e deve assumi-lo. Mas para ser líder é preciso entender e dar lugar ás necessidades dos outros sócios e vizinhos.

P- Todas as moedas regionais valorizaram frente ao dólar. Se este processo continuar, há o perigo de medidas de desvalorização por parte de algum sócio do Mercosul?
R- Absolutamente, não. Pela primeira vez em muito tempo as moedas estão razoavelmente alinhadas, e o valor do dólar corresponde a fatores regionais e internacionais. Em nosso país, o preço do dólar chegou ao piso. O peso argentino valorizará um pouco e isso repercutirá bem no alinhamento de nossas respectivas moedas. No Uruguai, será preciso cuidar para que não se repita o fenômeno do atraso cambiário dos anos 90.

P- Suas prioridades são atender a emergência social, estabelecer um novo regime tributário, a reforma do Estado e atrair investimentos. O que espera ter conseguido ao final do período, em cinco anos?
R- Ter iniciado a reforma da Direção Geral de Impostos e ter lançado as bases de um novo sistema tributário e de outro tipo de Estado. Esperamos uma taxa de desemprego entre 8% e 10%, sendo que agora está em 12%, mas com muito emprego precário e subemprego. Os níveis de investimentos uruguaios são baixíssimos. O peso da dívida pública é elevado (89% do produto interno bruto). Necessitamos investimentos para criar riqueza e trabalho de qualidade. Por isso, a melhor notícia dos últimos dias foi a confirmação de um investimento de US$ 1,2 bilhões, valor impensável para este país, por parte da empresa finlandesa Botnia para instalar uma fábrica de celulose.

P- Notícia esta que encontra resistência de grupos ecologistas, que afirmam que a fábrica provocará prejuízos ambientais e ao turismo.
R- Boa parte desse valor será aplicada justamente para garantir que a fábrica não cause contaminação. Temos as garantias da Botnia de que a tecnologia utilizada é a melhor nesse aspecto. Estamos seguros de que assim será. (IPS/Envolverde)

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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