Direitos Humanos: Mulheres Palestinas, três vezes vítimas

Londres, 04/04/2005 – As mulheres palestinas são três vezes vítimas no conflito com Israel, porque suportam a pior parte dessa guerra, a ocupação e ainda o patriarcado, afirma um documento divulgado pela Anistia Internacional. Além de sofrerem abusos diretos por parte do exército israelense, padecem as conseqüências indiretas, como o aumento do desemprego e a pobreza, explicou Donatella Rovera, principal autora do relatório, em entrevista telefônica à IPS de Jerusalém. As conseqüências do sistema patriarcal são menos evidentes, mas não por isso menos prejudiciais. "Os fatores negativos que existiam na sociedade palestina antes do conflito se fortaleceram, e portanto a situação piorou para as mulheres", disse Rovera.

O informe, divulgado na quinta-feira sob o título "Israel e os Territórios Ocupados: As mulheres suportam a carga do conflito, da ocupação e do patriarcado", diz que as palestinas "são vítimas de múltiplas violações derivadas das políticas e restrições impostas por Israel, e também de um sistema de normas, tradições e leis que não tratam as mulheres em condições de igualdade como membros da sociedade palestina". Centenas de mulheres perderam a vida em mãos de grupos armados palestinos e do exército israelense. Em outros casos, "suas casas foram derrubadas e as severas restrições impostas à liberdade de circulação limitam o acesso das mulheres aos serviços médicos, à educação e ao emprego", diz o relatório.

Além disso, "a pobreza e o desemprego agravam os problemas existentes de desigualdade de gênero na sociedade palestina", enquanto a "violência na família aumenta, mas as leis e as práticas discriminatórias não oferecem proteção às mulheres", acrescenta o documento. "As restrições de movimento, a negativa ou demora em passar pelos postos de controle militar israelenses, os bloqueios e os toques de recolher causam múltiplas complicações às mulheres que precisam de cuidados médicos e, em alguns casos, provocam a morte de pacientes", afirma o documento. O relatório acrescenta que numerosas mulheres foram obrigadas a dar à luz nos postos de controle, ao lado da estrada, em certos casos seus bebês morreram porque os soldados israelenses as impediam de chegar a um hospital.

Entretanto, estas são as conseqüências mais visíveis do conflito. As mulheres estão "no extremo receptor das crescentes pressões e violência na família e na sociedade", como resultado do "dano causado ao tecido da sociedade palestina", diz o informe da Anistia, que tem sede em Londres. O mais grave é que nos últimos quatro anos e meio (desde que começou a segunda intifada ou insurreição palestina) "as mulheres estão menos inclinadas a pedir ajuda ou se queixar", pois acreditam que "devem deixar de lado seus problemas pessoais", disse Rovera.

Embora não existam estatísticas confiáveis, os especialistas acreditam que as violências domésticas, incluídos o abuso sexual e os chamados "assassinatos de honra", aumentaram nos territórios ocupados desde setembro de 2000, sem que os responsáveis sejam levados aos tribunais, diz o relatório. Como os palestinos não podem se transformar em um Estado, desenvolveram métodos tradicionais de justiça baseados em velhos sistemas tribais, comentou Rovera. Além disso, "desde o final de 2000 o exército israelense destrói postos policiais, prisões, instituições de segurança", portanto, a polícia não pode funcionar e os juízes não podem chegar aos tribunais devido aos bloqueios viários, acrescentou.

"Nesta situação, as mulheres só podem resolver seus problemas através dos clãs familiares, e estes sistemas patriarcais, para desvantagem das mulheres, não favorecem a participação feminina na sociedade", disse Rovera. A Anistia exortou tanto as autoridades israelenses quanto as palestinas a tomarem medidas para aliviar o sofrimento das mulheres palestinas. A Israel pedem que investigue toda denúncia de violência e violações dos direitos humanos contra as mulheres, que levem à justiça os responsáveis e que ponham fim ao regime de bloqueios e restrições à liberdade de circulação imposto aos palestinos nos Territórios Ocupados.

A organização humanitária também pede garantia para o acesso a centros médicos para mulheres grávidas e outras pessoas que precisem de cuidados médicos, e também que detenha a destruição de casas e bens palestinos. À Autoridade Nacional Palestina, a Anistia pede que revogue ou modifique as leis que discriminam as mulheres, investigue a violência familiar contra elas, adote medidas para erradicar a violência e financie e apóie medidas para proteger os direitos das mulheres, entre elas a criação de abrigos ou outros serviços para mulheres que sobrevivem à violência. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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