Nairóbi, 12/04/2005 – As esquecidas mulheres do sul do Sudão esperam que a conferência internacional de doadores iniciada esta semana em Oslo, na Noruega, produza os fundos que necessitam para seguir em frente depois de uma guerra civil de 21 anos. A conferência, com duração de dois dias, procura arrecadar US$ 7,8 bilhões nos próximos dois anos e meio para a reconstrução do sul do Sudão depois da assinatura de um acordo de paz em janeiro último. "Se conseguirmos pelo menos US$ 2 bilhões, poderemos fazer muitas coisas pelas mulheres. Seus problemas são muitos, em especial no sul do Sudão, devastado pela guerra", disse Anisia Achieng. Presidente do grupo Voz de Mulheres do Sudão ela Paz
"Temos o problema da educação, que é o mais importante. Outros são saneamento, saúde e infra-estrutura", disse à IPS. Achieng participou de um fórum na semana passada em Nairóbi, capital do Quênia, em que mulheres do sul do Sudão planejaram uma estratégia comum sobre áreas de prioridade nas quais, a seu critério, a conferência de Oslo deveria se concentrar. O fórum, organizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unifem), reuniu cerca de 40 ativistas que depois viajaram para a capital norueguesa. A conferência de Oslo acontece três meses depois da assinatura de um acordo entre o governo sudanês e o rebelde Movimento/Exército de Libertação Popular do Sudão (SPLM/A), realizada em janeiro no Quênia.
O acordo pretende por fim ao conflito entre o governo islâmico, dominado pela maioria árabe do norte do país, e o sul, onde a maioria da população é negra e pratica o cristianismo ou religiões tradicionais africanas. Mais de dois milhões de pessoas, em sua maioria civis, morreram desde que o Exército de Libertação Popular do Sudão (SPLA) pegou em armas para lutar pela autonomia e independência do sul desse pais do norte da África, em maio de 1983, segundo organizações de direitos humanos. Outros quatro milhões de pessoas se transformaram em refugiados. Além disso, o conflito destruiu inúmeras escolas, o que aumentou a proporção de analfabetos, especialmente entre as mulheres.
Segundo Betty Achan Uguaro, diretora de programa de Janelas para o Sudão, uma organização que se ocupa de questões de educação, as mulheres alfabetizadas no sul do Sudão somam apenas somam entre 0,1% e 0,2% do total. Pior ainda, a taxa de matricula escolar das meninas e muito inferior à dos meninos, disse Uguaro. O sul do Sudão tem uma baixíssima taxa de matrícula frente ao norte, onde estão as regiões mais prósperas que não foram afetadas diretamente pela guerra. Estatísticas oficiais de 2002/2003 mostram que a relação entre a matrícula escolar feminina e masculina é de 62.7 contra 71.3. as meninas abandonam a escola por razões que vão desde afazeres domésticos até a falta de dinheiro para pagar o estudo.
"Sem educação, mulheres e meninas não poderão progredir. Portanto, é necessário que o governo leve este assunto a sério. Necessitamos que sejam reabertos os internatos, onde as meninas possam permanecer, para não serem obrigadas a trabalhar em casa", disse Uguaro. A ativista pediu urgência ao governo do Sudão no sentido de lançar a educação para adultos. "Quando as mulheres puderem ler e escrever, poderão assumir a liderança em questões de saúde como a luta contra o HIV/aids, que se propaga rapidamente, mas que pode ser detido armando mulheres e meninas com as informações necessárias", acrescentou. Especialistas em saúde afirmam que mulheres e crianças são mais propensas ao HIV/aids do que os homens e meninos.
Segundo o Programa das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida), a prevalência dessa enfermidade no Sudão é de 2,3%, mas os grupos da sociedade civil estimam que a porcentagem é maior devido á quantidade de refugiados que começam a regressar de países vizinhos. As ativistas alertam que a igualdade de gênero só poderá ser alcançada se as mulheres participarem da tomada de decisões. "Os doadores de Oslo devem condicionar seus fundos ao respeito do Sudão às constituições e sua permissão para as mulheres ocuparem cargos-chave", disse Kezia Layinwa Nicodemus, encarregada de questões de Mulheres, Gênero e Bem-Estar Infantil no sul do Sudão.
Conforme o acordo de paz, o Sudão terá duas constituições: uma o sul e outra em Cartum. A do sul, cujo governo estará formado pelo SPLM/A, requer uma representação governamental de 25% de mulheres. Atualmente, são 10%. Em Oslo, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, exortou nesta segunda-feira os representantes de 60 países que participam da conferência a colocarem imediatamente US$ 1 bilhão à disposição para a reconstrução do sul do Sudão. (IPS/Envolverde)

